HERMES COÊLHO – Nu [resenha]
HERMES COÊLHO – Nu [resenha]

HERMES COÊLHO – Nu [resenha]

por Mayk Oliveira,

poeta e colunista da Revista Navalhista

O lirismo em formação: o espelho da juventude poética

Nos bastidores do mundo literário não é raro ouvir que poetas jovens são todos intensidade e pouca medida, no entanto é justamente isso que os salva. Haroldo de Campos dizia que “a poesia é a linguagem em estado de invenção”. Inventar o modo de sentir e dizer e é isso que torna um verso relevante, independentemente da idade de quem o escreve. O jovem poeta é aquele que ainda não se acostumou com o mundo, e essa estranheza é a fonte do poema.

Rimbaud fugiu com seus demônios antes dos vinte; Cecília já sonhava com a eternidade aos dezoito; Torquato acendeu um fósforo num quarto escuro e escreveu; e Ana Cristina Cesar fez do diário uma metralhadora de delicadezas. Todos, em algum momento, acreditaram que podiam reinventar o idioma e conseguiram deixar o verbo em chamas no caminho.

No entanto, é difícil encontrar poetas, apesar da enorme enxurrada de versadores que se autoproclamam como tal, que parecem dispostos a despir a própria alma para prometer alguns versos e manter o lirismo em dia. Em meio a profusão de escritores, o aparecimento de um livro como Nu (2002, Fundação Chaves) de Hermes Coêlho, é um acontecimento raro, pois ali a poesia arrisca a confissão, a carne e a palavra ao mesmo tempo.

Na obra de estreia de Hermes Coêlho, encontramos uma estrutura dividida em três partes, cada uma revelando um estágio de maturação poética e existencial: “O eu confesso”, “O amor que não existia” e “E mais nada”. Notamos ainda, que os versos apontam para caminhos que poderíamos chamar de “Versos adolescentes”, “Quase haikai”, e outra chamada de “poesia concreta”, simbolizando o momento de formação e de referências do autor. Essas divisões não separam o livro em blocos estanques, mas em movimentos de uma mesma busca que o reconhecem a si no espelho da palavra.

Apesar de encontrarmos essas divisões de estilo germinadas em praticamente todo o livro do autor, podemos afirmar que, na primeira parte, intitulada “O Eu Confesso”, há uma predominância dos chamados “versos adolescentes”. Assim nomeados porque soam como versos de um lirismo em ebulição: quase eróticos de Vitória (“eu quero falar de ti/ como se pudesse fazer/ tua cor mudar/ e fazer-te molhar/ o teu ser”), ou nos versos do poema “Show” (“eu quero transar no Parnaiba/ ser pego gozando no teu canal”), cheios de referências a musas inspiradoras (Cynara, Samara, Florbela, Lia) e seus versos ultra românticos como no inocente “Muito pouco” (“eu nego e não consigo/ dizer o que o que preciso/ para você entender/ eu peco e contamino/ o nosso amor-menino”);  pequenas provocações nas buscas existenciais como nos versos de Alienado (“Que a morte me permita/ mentir/ dizer que a vida é infinita/ sentir). Ou mesmo nos versos nonsense de “Reflexos” (“o que não há/o que não vi/ então vivi/ para encontrar”). São, portanto, poemas que espelham o território emocional típico do fim da adolescência, quando o sujeito poético ainda tateia as fronteiras entre o desejo e a descoberta de si.

Naturalmente, considerando o espírito de sua época, é provável que esses temas correspondam às inquietações mais latentes da juventude da geração de Hermes Coêlho — uma geração que ainda buscava traduzir em poesia o que a cultura pop, a religiosidade e o corpo insinuavam em silêncio.

Em segundo plano, podemos identificar um outro estilo de escrita ou seção que chamo de “quase haikai” — pela brevidade e pela forma predileta do autor de condensar imagens em pequenos blocos poéticos. Diferentemente das temáticas tradicionais do haikai japonês, geralmente ligadas à natureza e às estações, os haikais, ou quase haikais, de Hermes Coêlho tratam de temas existenciais, voltados para conflitos humanos, desejos e inquietações interiores. Isso fica evidenciado nos versos de Insistente (“a vida passa/mais eu/ fico”), em “Caso Fortuito” (“a vida me leva/ à força/ à forca”) e também em “Antissocrático (“um dia/ quem sabe/ saberá/ o homem”). Mesmo ao se distanciar do haikai clássico ao explorar experiências existenciais e sociais, o poeta consegue manter a concisão e a intensidade característica do gênero.

Na terceira seção do livro, que denominei de “Poesia Concreta”, se encontra um punhado de poemas que, embora dessa forma apareçam em menor quantidade que os demais, estão bem demarcados. É interessante notar que eles lembram, em certo ritmo e vigor, algumas composições das músicas dos Titãs, especialmente composições seminais do período em que Arnaldo Antunes ainda integrava a banda e já estava imerso na poesia concreta, criando letras de forte impacto. Embora os poemas de Coêlho não tenham ligação direta com essas músicas, eles remetem a certo ritmo, uma coragem típica da idade, com muita urgência criativa sem medo de errar, além de refletirem claramente a influência de autores brasileiros ligados à poesia concreta. Poemas como Prozac (“JÁ/ DESISTI/ DE TANTA/ coisa/ QUE NEM/ SEI MAIS/ O QUE/ TENTAR”), Semelhança (“VOCÊ/ me vê/MESMO/ sem ver/ tudo QUE/ existe/ em MIM”) mantém a forma visual e sonora das palavras, a disposição tipográfica e a economia de elementos, marcas da tradição concretista. Os poemas se encontram com a energia e a vivacidade juvenil do autor, produzindo versos que respiram inovação e referência.

No livro Nu (2002, Fundação Chaves), nos deparamos com a urgência de um jovem autor que, por meio da leitura e da linguagem, consegue expressar seu momento de vida e a busca por comunicar seus grandes conflitos, nascidos ambíguos e intensos, após deixar para trás (confrontar?) princípios cristãos que a Igreja lhe propunha. Identificamos uma escrita de fronteira, e podemos concluir que Nu, de Hermes Coêlho, é uma estreia que se arrisca no artifício poético, construindo sua trajetória diante do espelho dos versos e revelando que a juventude da palavra permanece eterna enquanto houver coragem de sentir e reinventar o verbo.


Hermes Coêlho é poeta e jornalista, formado pela Universidade Estadual do Piauí. Nascido em Teresina-PI, vive em Brasília desde 2010. É chefe de reportagem da TV Senado e apresentador do programa Cidadania. Em 2000, venceu o Concurso Novos Autores – Prêmio Cidade de Teresina, com seu primeiro livro, “Nu”. Em 2023, publicou, pela editora Patuá, “Violado”. “eclipse”, publicado pela Patuá em 2024, conclui a “Trilogia do Trauma” do autor.

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