RICARDO ESPOSTO – Caçadoras de narcisistas [resenha]
RICARDO ESPOSTO – Caçadoras de narcisistas [resenha]

RICARDO ESPOSTO – Caçadoras de narcisistas [resenha]

por Andreia Santos,

escritora e colunista na Revista Navalhista

A Anatomia da Fúria e a Metamorfose da Dor: Caçadoras de Narcisistas

Caçadoras de Narcisistas, de Ricardo Augusto Esposto é uma obra que não oferece conforto, ela parte para o confronto mesmo, desbaratinando as ideias e deixando o leitor em suspeição entre o narcisista e a iluminação que é própria para desses seres e a vingança, que parte de um local longínquo do ser que foi atingindo, penetrando em todas as suas camadas e por isso busca sanar a dor. Na obra vemos isso, a força do amor que é vencida pela dor e transformada em ódio, buscando por justiça.

A epígrafe nietzschiana, concede o tom da narrativa: move-se no espaço moralmente ambíguo da vingança. Não importa o que a sociedade pense da ação de Salomé, a protagonista, o que a motiva é a sede irremediável de devolver a própria paz, destruindo quem a usurpou.

Salomé ao sair de uma relação abusiva vê-se entre o caos de uma avassaladora “paixão” e os entulhos de seus traumas, por ela e por muitos, invisibilizados. Surge então a anti-heroína, descrita pelo autor de forma refinada, e com pincelas de deboche à burguesia: Salomé, uma moça “jovem e muito esbelta,” está em seu “luxuoso travesseiro de pena de ganso” — o cenário excessos materiais, diverge da violência emocional. O travesseiro, um presente do algoz Lulu, transforma-se rapidamente de objeto suntuoso à algo que a revolta.

O autor faz o amor metamorfosear transmutado em ódio devastador. Salomé não se conforma com o seu sofrimento e a mágoa não a deixa fragilizada, pelo contrário, recebe o status de luta pela sobrevivência e possível cura para a dor intermitente. A partir dessa sobrecarga de sentimentos, traz em si uma nova personalidade: a “Guerreira,” a “Protetora.” No auge da ruína emocional, é acolhida pela memória do genitor: “Você é uma menina única e especial. Nunca se esqueça disso. Você merece toda a felicidade do mundo, e onde existe menos do que isso não é o seu lugar.” E é neste contexto que a guerreira ganha impulso para estancar seu sangue só há um caminho: a vingança, parte para a guerra, a princípio silenciosa.

Salomé não está sozinha nas trincheiras, encontra apoio em outras caçadoras, que não se veem enterradas nas próprias ruínas, mas que constroem pontes pelas pedras encontradas pelo caminho. A frieza, a coragem e a inteligência são atributos das mulheres que se doaram em troca um amor maléfico.

A leitura de Caçadoras põe em cheque a ética, ao questionar o quão é legítima uma vingança. A própria polifonia da trama não oferece respostas prontas, mas lances de olhares, que traz a cada um uma perspectiva dentro dos parâmetros do que é certo, errado ou aceito socialmente. Dentro do caos e da complexidade da vida alguns gestos pessoais parecem mínimos e o julgamento aparenta menos apontar para o outro e sim para nós mesmos.

Diante da escrita de Esposto, pode-se observar que ele é lírico ehiperbólico. Não temendo o excesso emocional – pelo contrário – as frases e expressões beijam o barroco. A linguagem é esculpida pelo arder da mágoa, frisa-se que as palavras não apenas testemunham, mas conseguem performatizar o trauma. Destarte, não é uma obra óbvia. É um texto instigante, envolvente que faz o leitor duvidar de suas próprias convicções morais e de sua capacidade de julgar a intensidade do sofrimento alheio. O que Esposto entrega é a sombra da narrativa projetada em nós leitores. A cólera vista em Salomé é o ímpeto que temos em nós, porventura adormecido, porém acordada quando honra, ego e expectativas e sentimentos são lesados. 


Ricardo Esposto

Ricardo Esposto é escritor amador, nascido em 11 de abril de 1996. Interessado pelas complexidades da mente humana, transita entre a psicanálise, a filosofia e a ironia como formas de compreender o mundo. É autor de O Messias e seu Demônio (2021), publicado com apoio da Lei Paulo Gustavo, por meio de um projeto aprovado em 2023, e de Caçadoras de Narcisistas (2025). Suas obras exploram as contradições do comportamento humano, o conflito entre moral e desejo e as falsas virtudes que sustentam a vida em sociedade.

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