Salvador admira os amigos que dançam no centro da pista, envoltos em abraços, rindo alto, rodopiando.
De fora, os movimentos parecem mais lentos, quase suspensos no ar — como quem assiste à vida em outro tempo.
Cada um deles guarda um pedaço seu, sem saber que estão prestes a atravessar, com ele, um túnel escuro e sem volta.
Mário se aproxima com seu sorriso arrebatador.
— Faz uma semana que não te vejo, e vai ficar sentado com esse copo na mão?
— Estou cansado. Prefiro te ver dançar.
— Vou buscar uma bebida — e a próxima coreografia é para você.
A noite termina, os amigos se despedem, e Salvador enfrenta um desentendimento com Mário, que não entende por que não pode dormir em sua casa.
É quase hora do almoço quando desperta com o insistente toque do celular. É Kátia, preocupada com o desfecho da noite.
— Fica tranquila, amiga. Ele não entende que, às vezes, é importante ficar sozinho. E estou nesse momento.
— O Mário dormiu aqui em casa. Fala com ele.
Prefere enviar uma mensagem, e acabam combinando um almoço na casa de Salvador. Mário chega com uma lasanha e o vinho tinto que tomaram quando se conheceram. Tentando quebrar o silêncio, Mário comenta que Renato e Júlia, enfim, assumiram a paquera — e que Kátia conheceu uma bailarina na noite anterior e, pela manhã, já planejavam a vida a dois.
Entre goles ansiosos de vinho, Salvador se encoraja.
— Quero te contar algo.
Percebendo o tom de seriedade, Mário senta-se à frente do namorado, aberto a escutar.
Nervoso, buscando as palavras, Salvador diz que precisava de um tempo sozinho — que talvez fosse melhor se afastarem por um tempo.
Mário respira fundo e, com a calma de quem já intui, responde:
— Meu amor, fala logo o que te angustia. O que quer que seja, estou com você.
— Sim, você estará. Eu não.
Salvador, mais uma vez, sente o tempo passar em outro ritmo. Devagar.
Mapeia o rosto de Mário: as poucas rugas ao redor dos olhos, os lábios secos e manchados de vinho, os ombros que tantas vezes o acolheram.
Percebe o quanto ama Mário nesses detalhes.
— Não entendi o que disse, Salva. Me explique.
Ele baixa os olhos. Respira. Antes de conseguir responder, a memória o arrasta de volta para aquela manhã.
Foi há uma semana. Saiu tonto do consultório médico. Ao pisar na calçada, não conseguiu conter e vomitou ali mesmo.
Uma senhora se aproximou para ajudá-lo — ele a empurrou, sem pensar.
As lágrimas escorriam pelo rosto. A raiva lhe travava os movimentos. O vazio no peito tomou conta de todo o corpo.
Entrou em uma cafeteria, pediu uma água com gás.
Ficou ali, parado, fitando a garrafa por quase uma hora, sem tocá-la.
Tudo era escuridão.
Com dificuldade para caminhar, conseguiu chegar em casa e apenas se deitou.
Dias sem dormir, sem comer, sem beber. Apenas existia na dor.
Sem saber, era Mário quem o ajudaria a se levantar e encarar o dia. Na mensagem, dizia:
— Salvador, me salva. Preciso dos teus olhos nos meus.
As palavras dominaram seus pensamentos.
O que sentia por Mário — e tudo o que haviam vivido até ali — era especial.
Ele era especial.
Não poderia se esconder. Ainda que fosse natural querer.
Percebendo que Mário estava confuso, Salvador segura suas mãos e o encara profundamente.
Com a voz contida e o coração em silêncio, diz que aquela dor nas costas, que antes parecia banal, revelou-se uma doença.
E agora o condenava a apenas mais algumas semanas de vida.
Mário paralisa por um instante e, em seguida, abre um tímido sorriso, imaginando ser mais uma das piadas sem graça de Salvador.
Mas logo entende que não.
O desespero o atravessa de imediato.
Aos prantos, abraça o namorado, na utópica tentativa de que seu gesto — de alguma forma — fizesse a realidade desaparecer.
O vazio no peito, antes sentido por Salvador, agora se instala em Mário.
— Meu tempo é curto. Se quiser me ajudar, precisa levantar a cabeça, assim como eu.
A ajuda que preciso é que esteja ao meu lado — para que eu aproveite ao máximo o ar que ainda percorre meu corpo.
Os dias que se seguem são marcados por conversas difíceis, com a família e o grupo de amigos.
Todos reagem de forma parecida: o primeiro impulso é o desespero, seguido de uma tristeza profunda, que dá lugar ao medo.
Mas, aos poucos, tocados pelas palavras de Salvador, todos acabam concordando em apoiá-lo naquilo que mais deseja.
O que ele pretende é simples: colocar em prática pequenas atitudes que, após sua partida, deixem sua marca — e uma boa lembrança — para aqueles com quem se importa.
Salvador cria uma rotina. Todos os dias, um amigo ou parente se senta com ele para uma das refeições — sempre na companhia de Mário.
Come e bebe tudo de que gosta, experimenta pratos e iguarias que nunca imaginara provar.
Por conta do início da perda de mobilidade, o plano de ir à praia e ver o mar precisou ser adiado.
Logo, Mário e os amigos consultam seu médico, conseguem uma cadeira de rodas, contratam um enfermeiro e um carro adaptado.
Juntos — os pais, o grupo de amigos e Salvador — chegam à praia, na mesma casa que lhe rendeu memórias da infância e das descobertas da adolescência.
Cada rua, praça, loja e restaurante preenchia seu peito de ternura.
Com ajuda, conseguiu molhar os pés no mar. Porém, queria mais.
Com carinho, os amigos e o enfermeiro — como um colchão feito de braços — o ajudam a boiar na água salgada, deixando a luz do sol atravessar suas pálpebras e queimar lentamente sua pele.
Após essa experiência, Salvador rapidamente se viu debilitado.
Perdeu peso. O cabelo volumoso agora era escasso. A pele ganhara um tom quase translúcido.
A cadeira de rodas tornou-se sua nova forma de locomoção. Ele passou a depender da ajuda de alguém para se mover, para se alimentar, para quase tudo.
Mário estava sempre ao seu lado — transbordando amor, sendo suporte, silêncio e escuta.
Revelava a Salvador um amor tão intenso que sustentava até o que já começava a ceder.
Quando a fala começou a lhe escapar, Salvador fez um novo pedido.
Queria uma festa — com todos que faziam ou fizeram parte de sua história.
Não como uma despedida, mas como uma celebração da vida.
A única regra seria simples: alegria e amor. Só isso.
Todos colaboraram com a organização, mesmo preocupados com a fragilidade de Salvador, e com os primeiros sinais de confusão que começavam a surgir em sua mente.
A família e os amigos mais próximos confeccionaram camisetas personalizadas, com uma foto de Salvador ao lado de quem a vestia.
Celebraram a vida e o amor em forma de reencontros, com pessoas que fizeram parte da sua jornada.
Atentos ao pedido, o ambiente foi tomado pela alegria.
As músicas foram escolhidas por Salvador — cada uma representava um momento marcante.
As comidas eram variadas, as bebidas à vontade.
Durante a festa, Salvador parecia ter retomado energia.
Em alguns momentos, conseguiu se levantar para abraçar os convidados — e até arriscou uma entrada na pista de dança.
Como lhe era desafiador, os amigos construíram uma espécie de suporte humano: Salvador no meio, levado pelo ritmo das músicas.
Salvador deixou o corpo levar. Por um instante, parecia esquecer do peso.
Ao final do encontro, nada de despedidas. As pessoas saíam em silêncio, como ele havia pedido.
Mário conduziu Salvador até o carro, para o merecido descanso.
Agora ele estava preenchido de amor, de presença. Tudo aquilo de que precisava.
Sentado no banco do passageiro, Salvador pede que Mário chame sua mãe — queria um beijo de boa noite.
Mário prontamente a encontra, e juntos se aproximam do carro.
Ao abrir a porta, Salvador já não os esperava.
Olhos cerrados, rosto tranquilo, um leve esboço de sorriso.

Alexandre Fleury escreve contos porque sempre gostou de observar — a vida e a si mesmo. Cresceu em Curitiba e hoje vive em São Paulo. É psicólogo, executivo de RH, mentor, palestrante e foi ator profissional. Trabalha com gente, com histórias de vida, com escuta — e essa escuta virou também uma forma de escrita. Tem contos publicados em revistas, coletâneas e antologias, e seu primeiro livro está em processo de edição. No conto, tudo se mistura: o que viveu, sentiu ou imaginou. É direto e profundo, como a própria vida.

![ALEXANDRE FLEURY – Fico no que fica [conto]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2025/11/Alexandre_Fleury_4184_Alta_Tomas_Senna-scaled.jpg)
muito bom