por Gustavo Freixeda,
escritor e colunista da Revista Navalhista
Tudo junto e concatenado: entre o lado A e o lado B da vida
Concatenação, de Diogo Santiago, é um livro que se pretende um enigma. O termo que intitula a obra sugere um gesto de encadeamento, que pode se referir a ideias, a frases e, por que não?, a mundos. A simples ligação entre partes, porém, é só o começo da construção complexa de um sistema de espelhos, praticamente um jogo de reversos que faz da narrativa uma experiência contínua.
A obra organiza-se em duas partes, “Lado A” e “Lado B”, que se respondem, se contradizem e se refletem. Feito um vinil que gira incessante, cada lado contém sua própria melodia e ruído, mas ambos se misturam pelo chiado da vitrola. A analogia com o LP é feita no texto prefacial de Alexandre Boide. E faz todo o sentido, já que Santiago organiza a prosa com a atenção ao detalhe de quem pensa o tempo em voltas, espargindo aqui e ali repetições, ecos e repiques.
No “Lado A”, temos o relato de um narrador que visita Adamastor após sua saída da prisão. É a partir da fala desse ex-detento que surgem outras figuras fundamentais: Pestana, companheiro de cela que fuma sem tragar; Apito, o gaúcho que se suicidou diante de todos; Ímã, mãe de Adamastor; Gaivota, o pai desaparecido; e Almofada, o avô que fuma como quem mastiga o mundo. Os episódios se encadeiam sem divisões formais, formando um grande fluxo de memória, trauma e interpretação.
Já o “Lado B” desloca o eixo geográfico e social. A segunda narrativa acompanha outra voz sem nome, agora situada na região central de São Paulo, descrevendo o percurso de uma trabalhadora periférica que atravessa a cidade em busca de serviços domésticos e empregos temporários. Essa narradora também fala em fluxo, combinando observação urbana, história familiar, deslocamento e cansaço. Se o “Lado A” se move no interior da cela e da vida de Adamastor, o “Lado B” percorre a rua, o ônibus, os corredores da cidade, isto é, outra forma de confinamento.

A junção das duas partes não se dá por continuidade linear, mas por reverberação. Certos temas, como violência cotidiana, desigualdade estrutural, afetos interrompidos, corpos usados como ferramenta, reaparecem transformados entre um lado e outro, como se fossem ecos. O livro opera, assim, como um sistema de correspondências, formando um retrato fragmentado das condições de vida nas bordas e nas margens do Brasil contemporâneo.
Cada parágrafo, e há parágrafos que se estendem por páginas, é construído como uma corrente que se dobra sobre si mesma. A leitura, à semelhança da vida que descreve, é uma sucessão de frases-acontecimentos que empurram umas às outras, sem ponto de fuga, uma espécie de destino pré-determinado. O leitor caminha junto, dentro dessa cela sintática. O efeito é deliberado e funciona como comentário sobre o próprio conteúdo, sendo a linguagem tanto forma quanto substância da reclusão.
Importante dizer: a desigualdade (termo desgastado e, ao mesmo tempo, inevitável) aparece como um burburinho de fundo, o que livra o livro daquela pregação militante, tão óbvia e cansativa, comum a produções atuais. As vidas narradas se movem de maneira natural entre o chão e a lama, entre o que se diz e o que se cala, num país em que falar continua sendo um privilégio. O que é narrado poderia ter acontecido em qualquer periferia, em qualquer tempo. A infância de Adamastor, marcada pela ausência do pai e pela ruína da mãe, é uma memória coletiva de desestruturação e abandono que o país insiste em naturalizar.
O título, então, vai além da metáfora, sendo sobretudo um método. Santiago encadeia vozes, destinos, ideias e corpos até que não reste mais um sujeito isolado, mas um coro. A concatenação, aqui, é uma ética da interdependência, ainda que marcada pela dor. Cada personagem fala pelo outro, cada vida é extensão de outra vida. O livro parece dizer que ninguém existe sozinho, nem mesmo no isolamento absoluto.
Adamastor, Pestana, Apito, Gaivota, Ímã, Almofada — nomes improváveis que parecem nascer do próprio material verbal — compõem uma genealogia do desamparo. São personagens que não cabem no estereótipo da vítima nem no da redenção. Cada um deles carrega a própria ruína com a inércia de quem sabe que a história é um fardo coletivo. Santiago, se fazendo de rogado à sedução de consolar, prefere expor o gesto bruto, o cotidiano da sobrevivência, o cansaço que une o corpo e a língua, sem sugar o conteúdo para um só fim, o que esvaziaria o discurso.
A escrita torrencial, em que as vozes se confundem e o narrador se dissolve, é confusa. Há uma recusa em domesticar o discurso, em transformar o sofrimento em moral. O narrador que recolhe o depoimento de Adamastor não é neutro; é alguém que também se contamina pelo relato, que tenta compreender e acaba sendo engolido por ele. Assim, a concatenação que acontece entre frases também existe entre consciências. Há na escrita uma materialidade quase suja, uma textura corporal que recusa a assepsia literária. O resultado é uma prosa densa, mas que se impõe pela coerência de seu projeto estético.
Concatenação acaba fadado à fidelidade extrema ao seu conceito. O encadeamento, que pretende criar ritmo, em alguns momentos aprisiona o leitor na forma. O paradoxo é forte: libertar a narrativa das convenções e acabar impondo outras. Como lidar com esse enigma? Talvez não haja solução. Ainda assim, é um exercício que vale a pena, porque é coerente com a ética do texto. A linguagem, como o mundo, é feita de grades.
Santiago escreveu um livro que, sem ser panfletário ou complacente, encena o colapso da linguagem diante do mundo. Concatenação versa sobre o esforço de permanecer dizendo e talvez seja esse o gesto mais radical que a literatura pode oferecer.
O enigma do livro é, portanto, vestir de camadas aquilo que já está exposto no mundo, claro a ponto de ninguém ver, à espera de quem aceite realmente ler.

Nascido na Caxangá e criado na Mustardinha, o recifense Diogo Santiago iniciou seus estudos superiores em 2002 na Universidade Federal de Pernambuco, no curso de Pedagogia. É autor de Concatenação (M.inimalismos, 2025) e outros.

![DIOGO SANTIAGO – Concatenação [resenha]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2025/11/2012-Diogo-Santiago-Gottingen-1.jpg)