
Ausência
na parede dos fundos
a pantera negra me olha
desbotada e inexpressiva
tudo nesta casa
parece mais antigo
do que realmente é
o sofá de veludo
a colcha pintada de onça
os alguidares vazios
as grades enferrujadas
a ausência de minha mãe
torna tudo mais solitário ainda
não há sorrisos nos retratos
o chão da casa está rachado
vai nos engolindo devagar
um a um
e os leões…
esses não rugem mais

cheia
enquanto as águas subiam
desespero e incredulidade
angústia e incerteza
nasciam nos olhos
daquela gente simples
depois a tristeza transbordou
e encheu ainda mais
o rio as casas as ruas
e o coração da menina
até que a sábia senhora
prendeu a chuva no copo
bem no meio do dia
no alto de uma das Três Marias

desleixo
faltou cuidado
com aquilo que havia
de mais sagrado
uma espada
atravessou meu peito
pelo teu descaso
pelo teu desrespeito
agora eu sangro por dentro
onde germinou
uma terrível dor sem jeito

Pat Andrade – Escritora, multiartista e produtora cultural. Tem mais de 30 livros artesanais e virtuais, participação em coletâneas e revistas literárias. Publicou O avesso do verso, O peso das borboletas, Dias de Poesia e Asas para o Mundo. Colaboradora do Site De Rocha, membro dos coletivos Urucum e Sarau do Recomeço.


Lindo poema parabéns