Eu e o meu irmão, quando éramos crianças, morávamos no Nordeste, numa cidadezinha do interior e adorávamos explorar a natureza. Numa tarde, em uma das nossas saídas, encontramos um paraíso no meio do mato, uma bela nascente de rochas de argila, com direito a areia branca, como as das praias. Ficamos encantados! E como o sol latejava sobre as nossas cabeças, mergulhamos de imediato. De repente, chegou ali um homem simples com um cavalo de cor castanho canela. O animal estava sem sela, usava apenas um cabresto e era conduzido em direção à nascente para beber água.
Quando o cavalo chegou perto da água fresca e começou a aliviar a sede, eu fiquei quieta, hipnotizada. Eu nuca tinha visto um cavalo de verdade, só pela televisão. Foi amor à primeira vista. Contudo algo dentro de mim me alertou: “tenha cuidado, apenas observe-o.” E eu obedeci a aquela voz interior. Já o meu irmão, fez uma algazarra e começou a jogar água na cara do cavalo. Eu fiquei irada com o meu irmão! E acredito que o cavalo também. O dono ficou indiferente, não deu importância e simplesmente se refrescou na nascente, dando um mergulho. E quanto a mim, defendi o cavalo e comecei a jogar água na cara do meu irmão, tentando tirar o foco dele, para que ele deixasse o cavalo em paz.
A majestade marrom, digo o cavalo, matou a sede e tirou as patas dianteiras da água. Meu irmão, curioso, também saiu da água para observar o cavalo. O bobo irracional, digo o meu irmão, foi para detrás do bicho. O cavalo, com uma das patas traseiras, num coice, o acertou no estômago e o jogou longe. Meu irmão prostrou-se no chão, em prantos e com as mãos na barriga. O homem saiu da água às pressas e foi socorrê-lo. Eu fiquei perplexa e sem reação. Meu irmão, com o rosto inflamado, olhos fechados e respiração ofegante, nem conseguia olhar para o homem, tampouco permitia que ele se aproximasse. Não sei o porquê, mas eu já sabia o que ia acontecer, eu já conhecia as reações do meu irmão e saí às pressas da água. E o que senti, foi exatamente o que aconteceu. O meu irmão tomou fôlego, levantou-se do chão, avistou uma pedra grande e pegou-a para jogar no cavalo. Eu o enfrentei. Segurei aquela pedra e gritei:
“Não! Você não vai fazer isso! Quem mandou você ir para atrás do cavalo? Não é justo!”
Eu tinha apenas 8 anos, mas, de alguma forma, eu entendi que o cavalo só fez aquilo para se defender. E enquanto eu tentava acalmar a fúria do meu irmão e servia de escudo para o animal, o dono subiu no cavalo e saiu dali. Calei-me e tirei as mãos daquela pedra ao ouvir o som do galope e do casco do cavalo nas rochas de argila. Eles foram embora. Meu irmão lançou a pedra no chão com força e chorou. Eu o abracei até ele se acalmar. Minutos depois ele mergulhou na nascente e saiu da água com uma marca profunda na barriga. E quanto a mim, fiquei pensativa, olhei para o chão, observando as pegadas daquele cavalo de pelagem avermelhada, naquela areia branca, até sumir sobre as rochas. Era como se eu ainda ouvisse o barulho das patas, o balanço da calda, da crina, os olhos grandes, a boca sugando a água.
Os anos se passaram, meu irmão, que foi ferido, cresceu sem nenhum trauma de cavalos. E quanto a mim, que o vi voar naquele coice, foram anos até superar o meu medo. Hoje estou curada, amo montar a cavalo, mas só me aproximo deles pela frente.

Marília Mangueira é brasiliense, dedica-se à criação literária desde 2018. É graduada em artes cênicas pela Faculdade de Artes Dulcina de Moraes (DF), e em 2021, publicou o livro de contos, “A Ostra e o Teatro”, pela Editora Perse. Atualmente, a autora finalizou a escrita de dois romances, ainda sem data para publicação.

![MARÍLIA MANGUEIRA – Sobre cavalos, coragem ou crianças [conto]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2025/11/Marilia-Mangueira.jpg)
Marília Mangueira reafirma sua força narrativa em “Sobre cavalos, coragem ou crianças”. A maneira como ela toca temas profundos com suavidade revela uma escrita madura e encantadora. Excelente escolha da Revista Navalhista.
Li o conto. Eu viajei na Estória, é como se eu conseguisse visualizar o acontecimento. Ficou ótimo 😍
Leitura potente e delicada ao mesmo tempo. Você transforma pequenas cenas em grandes sentimentos. Parabéns à você e a Revista Navalhista.
Acabei de ler e , achei maravilhoso!
É um cenário do meu conhecimento, pois sou do interior de Campo Alegre de Lourdes, mas você narrou com a leveza de uma pena, mesmo com o incidente do seu irmão levar um coice do cavalo.
Texto muito interessante, encantador e com uma narrativa bem construída, parabéns!