GIOVANI MIGUEZ – ironia, rita, deboche [resenha]
GIOVANI MIGUEZ – ironia, rita, deboche [resenha]

GIOVANI MIGUEZ – ironia, rita, deboche [resenha]

por Soraya Viana,

professora, tradutora e colunista da Revista Navalhista.

Reza à Santa Rita de Sampa

Uma possível para descrever a décima primeira plaquete de Giovani Miguez é “oferenda”. Isso porque ironia, rita, deboche (edição do autor, 2025) homenageia a padroeira do rock nacional, Rita Lee.

A autoproclamada Santa Rita de Sampa dispensa apresentações já que, nas palavras de Miguez, foi a responsável por “naturalizar o rock, ensinando-o a falar português com inteligência e sem afetação”. Seguindo os passos dela, nesse trabalho o autor faz-se cronista despojado e comenta os principais álbuns da cantora, detendo-se em algumas das faixas que se tornaram hinos “roque enrow” brasileiros. 

Miguez celebra também a personalidade de Rita, expressa nas facetas que ele nomeia visionária, loba, feiticeira e cronista. A respeito desta última, a plaquete traça um panorama não apenas da carreira da homenageada, mas do Brasil desde o período da ditadura militar até meados dos anos 2000. Assim, o autor enfatiza a consciência política por trás da irreverência da compositora.

A plaquete inicia a discobiografia de Rita por seus primeiros trabalhos pós-Mutantes. Ele classifica Build up (1970) e Hoje é o primeiro dia do resto da sua vida (1972) ensaios para uma transição da psicodelia da antiga banda à construção da persona da cantora, cuja carreira solo se consolidaria na década de 1980.

Ao comentar a fase entre 1974 a 1978, que rendeu quatro álbuns com a banda Tutti Frutti e várias canções icônicas, Miguez debruça-se sobre as particularidades de cada projeto. 

Assim, define Atrás do porto tem uma cidade como um ato de “afiação” das habilidades de Rita. O cultuado Fruto proibido, do ano seguinte, de onde saíram “Dançar pra não dançar” e o hit absoluto “Ovelha negra” é, para ele, “o marco zero de um rock com rosto de mulher” no Brasil. Já sobre Entradas e bandeiras, é destacada a importância política de ter sido lançado após o período de prisão domiciliar da cantora, grávida do primeiro filho. Babilônia, o último disco dessa etapa é, segundo Miguez, um experimento musical onde impera a estratégia da ironia para driblar a censura.

Para o discobiógrafo, o álbum Rita Lee (1979) é um marco fundamental da parceria musical e amorosa entre a cantora e Roberto de Carvalho. Nele, em faixas como “Mania de você” e “Doce vampiro”, temos o que se tornaria uma das características notáveis das letras de Rita, uma abordagem leve da sexualidade. 

Do trabalho de 1980 do casal e de mesmo nome que o anterior, Miguez enaltece o caráter festivo da época de reabertura democrática brasileira, registrada em “Lança perfume” e “Baila comigo”, entre outras canções.

Na análise do autor, os álbuns gravados entre 1981 e 1985, (com destaque para Saúde e Rita e Roberto, respectivamente) ressaltam a Rita cronista. Em novas letras abordando amor e sexo, ela não apenas cantou sobre a própria vida, mas também contribuiu com a liberação feminina. São desse período “Banho de espuma”, “Flagra” e “Cor-de-rosa choque”. 

No final da década de 1980, vem à tona na discografia de Rita o aspecto de crítica social. São lembrados por Miguez os discos Flerte fatal (1987), com o sucesso “Bwana” e Zona zen (1988), com “Independência e vida”.

Já em meados dos anos 90, a cantora e compositora é autocanonizada e celebra “Todas as mulheres do mundo” (de Rita Lee, 1993) e “Dona doida” (em Santa Rita de Sampa, 1997).

Dos álbuns dos anos 2000, os últimos da carreira musical de Rita, Miguez ressalta paradoxos inevitáveis da figura mais do que consagrada da cantora: suas formas de olhar para o futuro em 3001 (2000) e uma retomada das origens em Aqui, ali, em qualquer lugar (2001), homenagem dela aos Beatles.

Os hinos “Amor e sexo” (De Balacobaco, 2003) e “Reza” (do álbum homônimo de 2012) encerram a discografia de Rita e nos encaminham para o epílogo, uma declaração de amor em que Miguez revela aos leitores qual o verdadeiro milagre dela.
Por todos esses elementos, ironia, rita, deboche constitui um testemunho dos motivos pelos quais, de “ovelha negra” a “defensora dos frascos e comprimidos”, Rita Lee segue sendo uma das grandes da música brasileira. Mais do que isso, a obra, amálgama de pesquisa e devoção, nos exorta a entoar seus cânticos. Talvez, então, a madroeira rogue por nós e nos livre de todo o conservadorismo exacerbado. Amém. 


Giovani Miguez

Giovani Miguez é poeta, escritor e servidor público. Especialista em Sociologia e Psicanálise, mestre e doutor em Ciência da Informação, com formação em Biblioterapia e mediação de leitura. Nascido em Volta Redonda (RJ), hoje reside no Rio de Janeiro. É autor de  18  livros, entre eles os recentes Um elogio à preguiça, Amor fati e Notações paridas (Uiclap, 2024). Na sua poesia, Miguez explora a expressão e reflexão existencial. Ora lírico, ora político, ora científico, mas sempre est(ético), o poeta segue sendo profundo em suas generalidades.

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