BRUNA PINHATI – Ateliê [conto]
BRUNA PINHATI – Ateliê [conto]

BRUNA PINHATI – Ateliê [conto]

Ela demorou tanto para encontrar um canto que pudesse pagar no centro de São Paulo que não desistiria tão fácil assim. A pequena kitnet com nenhuma divisão de cômodos, além do banheiro, serviria como morada, descanso, local de trabalho e ateliê. Ela se dividiria entre as horas enfadonhas do ganha-pão como designer que já deu muito dinheiro e agora não dá mais e as telas que sonhava ver penduradas em galerias de prestígio pela cidade. Tentou transformar o local que caía aos pedaços em um pedaço todo seu, tirou o branco casca de ovo das paredes, comprou móveis de segunda mão, pendurou pôsteres e desenhos autorais e, claro, comprou eucalipto para deixar dentro do seu box apertado. Quando entrava em sua casa/ateliê, quase se sentia em casa. O lugar trazia, sim, paz, um certo aconchego (principalmente a noite com suas luzes amarelas em abajures, velas aromáticas acesas e a caixinha JBL que ela comprou no centro tocando alguma playlist de jazz do youtube), mas nem isso conseguia mudar o fato de que ela estava, com toda certeza, em um dos lugares mas barulhentos do centro de são paulo.

Na sua rua, ambulantes gritavam o dia inteiro, além da creche para crianças de 0 a 4 anos funcionando das 7h às 19h na frente de sua janela. Era pano de prato misturado com choros histéricos, hora do papá com relógios a 60 reais, jogo da estátua com pega ladrão! A noite, bares tocavam forró, samba e pagode e vozes embriagadas enchiam seu pequeno cômodo até o dia raiar. Nos horários reservados para pintar, ela tentava se retirar do mundo com seu fone de última geração, presente dela para ela mesma, mas muitas vezes era impossível. Seus desenhos de lugares tranquilos, lagos cristalinos, tons de azul e marrom claro, começaram a apresentar um quê de histeria, um vermelho-sangue aparecia do nada e ela, frustrada, rabiscava tudo com seu pincel enquanto crianças gritavam a ciranda-cirandinha.

Mas ela demorou tanto para encontrar um canto que pudesse pagar no centro de São Paulo que não desistiria tão fácil assim. Estar ali onde tudo começou, bem próximo ao marco zero da cidade onde sempre sonhou em morar tinha que valer a pena. Ela comprou espumas para colocar em suas paredes, viu tutoriais no youtube para abafar sons, enfiou algodões por entre as frestas da janela, tentou pintar com jazz tocando no último volume, mas do que ela mais sentia saudades era do silêncio. Parar barulho com barulho não era uma conta que fazia sentido.

Um dia ela encarou a tela em branco por um tempo. Fechou os olhos e se deixou escutar tudo. Imaginou como seria o rosto do ambulante que gritava sua água mineral ou o do moço que vendia pulseirinhas do reggae, três por 5 reais. Imaginou também como seria a criança que chorava um choro ardido, como seria sua mãe, como teria nascido. Como seria a professora da creche, que gritava nomes de bebês o dia inteiro? Como ela colocava a cabeça no travesseiro a noite, como não tinha dor de cabeça todos os dias? Será que ela mesma não tinha um bebê em outra creche por aí? O moço que canta o samba todas as noites, volta para a casa e deita com sua mulher? Não estaria o garçom lutando contra o alcoolismo enquanto serve cervejas o dia inteiro? Será que no bar do forró não estaria dançando algum casal no seu primeiro encontro de muitos?

As imagens foram aparecendo. Os tons todos se misturando.

A cacofonia tão bem incorporada em suas telas que quando foram penduradas em uma galeria de prestígio da cidade, alguns visitantes até levavam as mãos aos ouvidos.


Bruna Pinhati



Bruna Pinhati é uma atriz formada pelo Instituto de Artes da UNESP que começou a se aventurar no campo da dramaturgia em 2018. Recentemente, ela lançou sua peça dramatúrgica “Querida Manu,” e vive no centro de São Paulo.

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