GIOVANI MIGUEZ – Elis, Pimenta, Doçura [resenha]
GIOVANI MIGUEZ – Elis, Pimenta, Doçura [resenha]

GIOVANI MIGUEZ – Elis, Pimenta, Doçura [resenha]

por Andreia Santos,

escritora e colunista na Revista Navalhista

Pimenta, Elis, Doçura: O vento que afaga a memória

Há nomes que não se medem pelo tamanho, mas pela profundidade. Elis Regina não foi apenas uma cantora; foi uma corda tesa a vibrar no peito do Brasil. Falar dela, hoje, exige uma reverência que dispensa o pedestal e busca o chão, o lugar onde a voz ainda ressoa no rádio velho e na memória afetiva. É com essa intimidade e um profundo senso de cuidado que Giovani Miguez nos presenteia com a Plaquete: Pimenta, Elis, Doçura – Uma Voz que Permanece.

Este livro não se propõe a ser o ponto final de uma bibliografia, mas a pausa de um ouvinte atento. É um convite a sentir Elis de novo, não através da cronologia fria, mas pelas temperaturas da sua discografia. Miguez, em seu “ateliê po(ético)”, entende que o ato de escrever é um “ato de cuidado”. E é exatamente esse cuidado que permeia a obra, transformando a análise musical numa poiesis do existir.

O conteúdo da plaquete é a própria alma de Elis desdobrada. O autor nos conduz por dezessete álbuns, de “Viva a Brotolândia” (1961), em que a jovem Elis “tenta caber na vitrine da moda juvenil, mas sua voz não cabe em vitrines”, até o “adeus que não cala” de Montreux (1982). Cada registro não é um capítulo, mas uma carta, um poema que captura o instante em que a cantora se tornou “rio e tempestade”.

Ao invés de dissecar tecnicamente, Miguez sente a música e a traduz em metáforas que nos tocam a. “Elis (1972)”, a ditadura tentava esconder o rosto do país, é visto como a voz que entra na fresta “como luz”, cantando para dizer “que amanhã existe, mesmo aos olhos que duvidam”. O emblemático “Elis & Tom” (1974) não é tratado como a união de gigantes, mas como o encontro onde “o rio Jobim e o mar Elis se encontram e se reconhecem na mesma maré”. O conteúdo é um aconchego, um inventário emocional dos palcos, dos discos e dos gestos que fizeram de Elis a “mulher e a nação” em uma só garganta.

No que tange à escrita, Miguez adota o sotaque de quem entende a canção. Sua prosa é entrecortada por versos livres que chegam como uma nota alta inesperada, uma explosão de afeto. A linguagem é uma costura fina, que une o registro histórico à pura poesia. Ele não fala de técnica vocal, mas descreve a voz como uma “voz-lâmina, fatiando o silêncio”, e o corpo no palco como a prova de que “o samba te veste, / e tu, / vestes o samba / como segunda pele”.

É uma escrita que sabe a hora de sussurrar e a hora de se levantar. Nas páginas finais, Miguez condensa a filosofia de Elis com uma ternura firme: “num país de portas trancadas, / ela foi chave e batente, / foi vento que bate e varre / o pó da conformidade”. Esta não é a voz de um crítico, mas a de um admirador profundo que entende que a arte de Elis era, acima de tudo, um recado de humanidade. A escrita aqui é como um afago na memória, chamando o leitor para o mesmo ritual de contemplação.

“Pimenta, Elis, Doçura” é, a prova tátil de que Elis não se foi. Ela “Espalhou-se como cheiro de terra molhada depois da chuva”. Ela está na esquina, no grito de gol e na fé que resiste. Este livro nos ajuda a ouvir esse eco que nunca se desfez, garantindo que o vento que foi tempestade continue, a afagar a nossa memória. É uma obra fundamental para quem entende que a força e a beleza da Pimentinha não se excluem, mas se eternizam.


Giovani Miguez é poeta, escritor e servidor público. Especialista em Sociologia e Psicanálise, mestre e doutor em Ciência da Informação, com formação em Biblioterapia e mediação de leitura. Nascido em Volta Redonda (RJ), hoje reside no Rio de Janeiro. É autor de  18  livros, entre eles os recentes Um elogio à preguiça, Amor fati e Notações paridas (Uiclap, 2024). Na sua poesia, Miguez explora a expressão e reflexão existencial. Ora lírico, ora político, ora científico, mas sempre est(ético), o poeta segue sendo profundo em suas generalidades.

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