Quando eu era criança, saía pelos campos catando besouros com meu pequeno balde cor de rosa. Para ser mais precisa, eram besouros que não se moviam mais, que não eram mais – estavam mortos. Eu aprendi que quando um besouro morre, sua casca permanece intacta por muito, muito tempo…
Muito tempo é em torno de 320 dias, a depender das condições do ambiente. Não só para besouros. Para todos nós.
Quando catava besouros, colocava-os no balde que estava mais vazio do que cheio. Pouco dele era coberto pelas cascas dos besouros. O balde era leve porque cascas de besouros não pesam. Elas não pesam porque não tem nada dentro: são roupas vazias. Meu balde era preenchido com muitos vazios.
Enquanto catava besouros, minhas pegadas ficavam gravadas na terra umedecida da chuva recém-chegada. As pegadas ficavam para trás. Quando os besouros morrem, suas cascas também são deixadas para trás. A vida e a morte têm coisas em comum: deixamos, com elas, coisas para trás. E, conforme passamos e as coisas vão embora, vamos nos matando aos poucos.
Agora adulta, olho para essa casca de besouro na qual eu tropecei a caminho de casa. Ela é grande como eu. Eu a percebi porque sempre estou olhando para o chão, como se ainda catasse besouros igual criança. Mas, dessa vez, não tenho balde, nem procuro cascas vazias. Estou em busca de algo que ainda não sei o que é enquanto deixo pegadas e cascas de besouro para trás – enquanto vou me matando aos poucos.
A grama mais adiante da calçada é verde e vívida. O besouro poderia ter chegado até ela, mas ficou no caminho. Ficou na calçada cinza e quente do sol do verão. Ele não conseguiu chegar até lá. Tem lugares que nunca conseguiremos alcançar.
E está tudo bem com isso. Está bem se não chegarmos, ou se deixarmos pegadas para trás. Está bem se não há motivos ou justificativas – se estamos enchendo baldes com cascas de besouros vazias.
Olho para a casca de besouro, passo, paro, hesito, mas, dessa vez, eu não a levo comigo. Há outras coisas que eu preciso fazer – você pode ficar com seus vazios. Eu vou preencher os meus.

Alana Sartori é gaúcha, professora universitária, advogada e pesquisadora. Romancista nas horas vagas, transita entre o rigor acadêmico e a liberdade artístico-literária. Encontra na escrita um espaço para o cultivo da reflexão, da sensibilidade e do desejo.

![ALANA SARTORI – Catando besouros [crônica]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2026/01/Foto.jpeg)