ALISSON DE SOUZA – Augustina [resenha]
ALISSON DE SOUZA – Augustina [resenha]

ALISSON DE SOUZA – Augustina [resenha]

por Mayk Oliveira,

poeta e colunista da Revista Navalhista

Os acertos e desacertos de uma beleza em rotações por minuto

Em Augustina (Nauta, 2025), o autor, Alisson de Souza, logo na sua estreia ergue um romance que se impõe, antes de tudo, pela força da narrativa. Desde as primeiras linhas, há um magnetismo difícil de definir: a cadência fluida das frases, o modo como as cenas se articulam, a escolha precisa das palavras e um uso inteligente das ambiguidades promovem um chamado imediato à leitura. O leitor é lançado num recorte aparentemente simples da vida da protagonista, mas esse gesto inaugural estabelece o tom do livro. A tensão constante entre o cotidiano e as camadas que vão aparecendo por trás dele, como cada instante carregando riscos e consequências invisíveis. A escrita, desde o início, mistura sensibilidade, ironia e uma desconfiança sutil, dizendo ao leitor que nada ali é tão simples quanto parece.

O autor, escolhe o narrador em terceira pessoa e as evidencias não demoram a mostrar a intimidade com a personagem. Ele conhece todos os acontecimentos da trama, mas a força da proposta reside na energia emocional que os sustenta. A descrição ocorre em tempo passado, mas a linearidade é frequentemente quebrada por lembranças, lampejos de outras épocas, cenas que retornam como ondas, aproximando a escrita de um fluxo memorialístico. O autor sabe que recordar não é apenas relatar, mas reencenar. As situações são apresentadas com textura e presença. Essa estratégia reforça a subjetividade da narrativa, nos lembrando a todo momento que toda história é uma escolha, uma perspectiva entre tantas possíveis, nunca uma verdade neutra ou absoluta.

Em vários momentos, o narrador utiliza uma técnica que lembra o célebre escritor húngaro, Gyula Krundy, no romance “O Companheiro de Viagem”, no qual uma voz observadora, quase jornalística ancorada no cotidiano oscila com o modo de dizer uma crônica: as vezes romanesca, as vezes conversada. O narrador faz com que o leitor deseje acompanhar não apenas a protagonista, mas tudo o que a cerca: seus encontros, suas rupturas, seus fracassos cotidianos, suas descobertas improvisadas. Isso cria uma espécie de oralidade literária de alguém que, mais do que narrar fatos, compartilha o que os fatos significam.

O enredo, à primeira vista, parece simples. Contudo, a simplicidade se desfaz conforme avançamos. O romance desafia frontalmente uma visão teleológica da vida, aquela ideia de que tudo caminha para uma lição final, para uma conclusão harmoniosa. Em Augustina, os acontecimentos não obedecem a um plano prévio pois emergem do acaso, das falhas humanas, das escolhas parciais que cada personagem faz com base em seus limites e desejos. As reviravoltas são naturais, resultam de um mundo que se move sem garantias. Assim, a narrativa se distancia da estrutura “bem-comportada” que levaria o leitor suavemente do “ponto A ao ponto B”. Em vez disso, ela aposta no caminho sinuoso, em percursos incertos, numa construção da própria vida cheia de interrupções e sobressaltos.

A protagonista, Augustina, é o coração pulsante da obra. Ela não é uma personagem fixa, tipificada ou caricata: está sempre em movimento, atravessada por vicissitudes que testam seus limites. Augustina encarna uma figura profundamente moderna, dividida entre a busca por autonomia e a consciência de escolhas condicionadas por pressões sociais e econômicas. Trabalha muito, estuda, se desdobra. Seu esforço cotidiano é admirável, sem vitimização, parte indissociável de sua identidade íntegra, coerente, ainda que ferida pelo peso de ser mulher num país marcado por estruturas de controle e desigualdade.

Outro ponto que ocupa um lugar central nesse percurso é a tensão familiar. O peso simbólico e afetivo da figura paterna, personagem que tenta definir, regular e limitar, cria um campo de forças que culmina na decisão de Augustina de romper com seu “mundo comum”. Esse rompimento é gerador das tensões emocionais do romance, ajudando na compressão da complexidade da protagonista como sujeito universal; alguém que deseja liberdade, mas precisa aprender a caminhar sobre as memorias daquilo que abandona.

Os personagens que orbitam a trajetória de Augustina reforçam ainda mais a densidade humana do romance. Cada um tenta se afirmar como único e possui expectativas internas que se entrecruzam nos diálogos e influenciam Augustina. Formam um conjunto de vidas que se entrelaçam com a dela. Figuras de sua rotina, afetos transitórios e relações familiares que dão corpo ao romance, tornando-o mais amplo do que uma jornada individual. O autor, Alisson de Souza, constrói um elenco que não se limita a papéis secundários; eles completam Augustina, friccionam sua identidade, tensionam seus desejos e trazem uma textura social fundamental à narrativa.

O tio Ulpiano, a exemplo do personagem “Meia Oito” do quadrinista brasileiro, Angeli é um tipo que representa aquele militante de esquerda romântico preso a uma utopia revolucionaria que nunca se concretiza. Alguém preso a um ideal grandiosos, mas soterrado pelo cotidiano, pelas burocracias e frustações da vida. O Sr. Borges, por sua vez, parece saído da mistura entre o síndico ranzinza de qualquer prédio urbano e a figura caricata do Sr. Barriga; um homem sempre à procura de dinheiro, de contas para cobrar, de pequenos poderes para exercer.

Seu Germano, o pai de Augustina, é um dos personagens mais fortes do romance: um homem do interior que construiu sua prosperidade ao custo de sacrificar a liberdade dos filhos. Ele lembra, em certa medida, os personagens da segunda fase do modernismo brasileiro: pertença a uma elite formal dotada de traços simbólicos de autoridade decadente, que tenta manter o mundo sob seu controle mesmo enquanto tudo se transforma ao redor. A mãe de Augustina, Dona Emiliana, por outro lado, é quase uma Amélia contemporânea: uma mulher que aceita os papéis tradicionais com uma resignação que chega a ser dolorosa. Ela funciona como um espelho invertido da protagonista — uma imagem possível de futuro que Augustina rejeita. Há ainda figuras hilárias, irônicas, trágicas como a tia Rita que é uma espécie de “Rê Bordosa” em carne e osso: libertária, transgressora, ácida, conhecida pela vida noturna e entregue aos seus desejos pelo excesso. Sua presença, breve, ilumina o romance com uma energia que desafia as normas e desmonta qualquer possibilidade de moralismo.

O sistemático e meticuloso Seu Durval, salvou na sua loja estreita as engrenagens das desventuras; o dono do bar, o camarada generoso Gordilho e outras tantas presenças menores constroem uma rede que dá carne, humor, falhas e humanidade à vida de Augustina. Nenhum deles é acessório; todos participam da vibração conjunta que sustenta o mundo narrativo. São personagens cheios de idiossincrasias, imperfeições e histórias próprias, que tornam o romance não apenas plausível, mas profundamente vivo.

A interpretação de Augustina depende do repertório do leitor e do momento histórico em que a obra é lida. Um leitor contemporâneo, sensível a debates sobre trabalho, desigualdade e gênero, verá nuances que talvez passem despercebidas a quem lê de outro tempo. Ambientado nos anos 1990, o romance carrega o espírito de uma geração que cresceu num país recém-saído da ditadura e mergulhado em crises econômicas, mas também num período de efervescência cultural: a música vibrava, novas liberdades emergiam, comportamentos se reinventavam. Augustina absorve esse caldo histórico e o traduz em forma literária.

Como lembra Terry Eagleton, não existe leitura pura: toda interpretação destaca alguns elementos e obscurece outros. Ler Augustina não é buscar um significado verdadeiro, mas construir sentidos situados, em diálogo com nossa experiência e nosso tempo. Por isso, o romance permanece vivo — porque a cada leitura, ele renasce.


Alisson de Souza

Nascido em Itaberaba, Bahia, em 1976, Alisson de Souza inicia seu caminho na literatura através de Augustina, seu primeiro romance. Formado em Direito pela Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus, Bahia, traz na sua bagagem os anos de adolescência consumindo a contracultura das revistas de Angeli, Glauco, Laerte e Luiz Gê, a cultura pop dos anos 80 e 90, e gosta na literatura, dentre tanta gente boa, de Marçal Aquino, J.J. Veiga, Jorge Amado, José Luís Peixoto e Gonçalo M. Tavares.  

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