ANTONIO SODRÉ – Mais uma dose [conto]
ANTONIO SODRÉ – Mais uma dose [conto]

ANTONIO SODRÉ – Mais uma dose [conto]

Estou na sacada da sala com um copo meio cheio de gim na mão. As luzes estão apagadas. As pedras de gelo que coloquei no copo já derreteram faz um tempo. Olho para o mercado do outro lado da rua. Estão fechando as portas. Compro minhas garrafas de bebida lá. Bebo todo o dia, mas não nunca bebo muito. Quando trabalhava, duas doses no máximo. Agora que estou desempregado, umas três ou quatro doses. Sempre algum destilado. Gosto de variar.

Logo que me graduei em economia, fui trabalhar em um banco. Na minha sala, o casal estava nervoso. Gastaram um bom dinheiro desenvolvendo um novo aplicativo onde os usuários compartilhavam receitas caseiras. Aquele homem de olhos esbugalhados me explicava os números do negócio: receita, gastos, número de clientes, estimativa de crescimento. Tudo projetado na tela. Eu o interrompia sem pestanejar quando tinha uma dúvida. A mulher ficava um passo atrás do marido e com os olhos voltados para mim. Parecia que ia começar a rezar a qualquer momento. A reunião prosseguiu até que o sonho daquelas pessoas ficasse nu na minha frente. Dar ou não dar crédito, essa sempre foi minha questão no trabalho nos doze anos que passei lá. Dissecava sonhos, os avaliava e decidia se eles mereciam financiamento. 

Eu nunca entendi bem como era possível desejar tanto que um produto ou serviço dê certo no mercado, por mais estúpido que ele seja. Por certo, sucesso significa dinheiro e dinheiro uma vida melhor. Pelo menos em teoria. Tem a questão do status também. Quando perguntei ao homem de olhos esbugalhados se esse mercado já não estava saturado, sua testa começou a suar. A mulher deu um passo à frente e balbuciou algo que não entendi. Não, não autorizei o empréstimo ao casal. Um padrão começou. O homem, com a voz um tanto elevada, argumentava que eu estava errado sobre seu sonho. Eu não teria considerado outras variáveis positivas. Depois, quase gritando, xingou todo o mercado financeiro, um sistema que não dá chance aos pequenos. Eu fiquei quieto, era melhor assim. A seguir, partiu para a negociação. Poderia fazer o negócio funcionar com um empréstimo menor. A mulher, com as palmas das mãos coladas, falou que eles aceitariam uma maior taxa de juros, que eu não sabia o trabalho que era criar um aplicativo. Realmente, eu não sabia o trabalho que dava.  Mas sabia dizer se um projeto era financeiramente viável ou não. E este não era. Os olhos esbugalhados ficaram tristes e o homem fez um último e inútil apelo. A mulher segurava o choro. Não poderia ajudá-los. Tinha outras reuniões pela frente. O casal timidamente me agradeceu, não sei por quê. Saíram da sala apressados, como crianças decepcionadas que fizeram besteira.

Acho que comecei a cansar do trabalho ao longo dos anos. A ambição esconde certas coisas. Cada projeto analisado exauria um pouco da minha alma. No fim, não tinha mais forças para continuar. Ao longo dos dez anos em que trabalhei, definhei aos poucos. No fim, tinha dificuldade em acordar com o despertador e ficava sonolento nas reuniões. Tudo foi perdendo cada vez mais o sentido, pouco a pouco. Sem pressa. Tinha um assistente júnior, que tinha acabado de sair da faculdade. Via nos olhos dele o mesmo brilho que um dia meus olhos tiveram. Rapaz esperto. Tanto que me passou a perna e ficou com o meu emprego. Na idade dele, vendo um homem desgastado como eu à minha frente, faria a mesma coisa.

Agora bebo. A terceira dose de gim me deixa aliviado. Por um instante, nada pode me derrubar, sinto-me em um certo estado de graça. Quando tinha quatro anos, minha mãe me levava ao parquinho perto de casa. Rodava e rodava no gira-gira até ficar tonto. Sentia prazer ao descer do brinquedo cambaleando. O desafio de ficar em pé me encantava. Aos cinco anos, estava no pátio da escola, com alguns colegas brincando de hiperventilar. Eu era o último da fila. Parecia que todos olhavam para mim, até mesmo a professora, o bedel, a diretora e o coordenador. Inspirava e expirava rapidamente. No leve torpor intoxicante que se seguiu, tornava-me invisível.

A bebida é meu porto seguro. No escuro da sala ninguém me vê. Mas beber também me leva para uma caverna. Nesse lugar lúgubre e vazio, o álcool é absorvido pelas paredes e a sensação de falta de sentido ecoa. A embriaguez ligeira me liberta da minha própria existência vazia ao mesmo tempo em que me empurra para ela.

Um dia, eu e minha mulher recebemos um casal de amigos. Conheci um deles na faculdade. Costumávamos viajar no carnaval juntos. Depois ele foi trabalhar em uma consultoria. Mantivemos o contato. O marido dele conheci depois. Sujeito legal. Trocamos gentilezas. Falamos sobre nosso passado glorioso de farras. Sempre falávamos sobre isso. A conversa começou a morrer. Ressuscitei-a quando servi o vinho. Notei isso e fiquei envergonhado. Dei um gole na taça de vinho. Aguardava esse gole desde de que acordei.

Desconfio que não só bebo, mas anseio pelo momento de beber. Prefiro beber no escuro da minha casa, sem ninguém ver. Gente, às vezes, enche o saco. Até mesmo minha mulher e filha. Quando estou eu e meu copo sozinhos na sala, me pego rindo de coisas sem sentido que vejo durante o dia. Ou penso em algum fato mundial. Sempre tem uma guerra no Oriente Médio para lamentar, ou para me lembrar que as coisas poderiam ser piores. Não que minha vida seja ruim, mas saber que poderia ser muito pior é um conforto.

Comecei a beber aos treze anos. Era tímido. Sou tímido. Vivia sozinho no recreio. Ela era tão linda, cheia de amigos e amigas legais. Só consegui falar com ela em uma festa, depois de beber um pouco. Eu fiz uma piada. Ela riu comigo e me abraçou. Meio tonto, senti o frio na barriga. Não me lembro exatamente do que conversamos. Nunca mais nos falamos. Era um adolescente desconfortável comigo mesmo. A bebida fazia-me sentir abraçado por aquela garota. Queria tanto lembrar o que conversamos e por que não conversamos mais. A bebida tem disso, a gente esquece mais fácil. É como um pacto com o diabo. Você se sente acolhido, o mundo fica menos ameaçador e as peças da vida parecem se encaixar melhor. Em troca, ele rouba pedaços da sua memória. O diabo se alimenta de pedaços da vida dos seres humanos.

No meu último aniversário, fizeram uma festa surpresa para mim. Ideia infeliz da minha mulher. Eu sei, ela também sofre, está tentando. Bebi um pouco antes do primeiro convidado chegar. Sobrevivi à festa. Respondi perguntas sobre meu trabalho, casamento, minha filha. Perguntei também, mas não registrei muito as respostas. Quando todos foram embora, meus presentes estavam em cima da mesa. Ganhei um monte de garrafas coloridas. Tinha de tudo, até saquê. Um copo quadrado veio junto.

Ainda quando trabalhava no banco, a equipe foi a um tipo de retiro espiritual. Ou motivacional. Na minha ignorância, não sei a diferença. Ao final do dia, depois da sessão de meditação, na qual falhei retumbantemente em observar meus próprios pensamentos e controlar minha respiração, meu chefe ofereceu um scotch caro para todos. Um gole criou outra pessoa e essa outra pessoa precisava de um gole. Eu sou bom em interromper esse ciclo. Não fiquei bêbado. Conversamos e rimos sobre os piores projetos de negócio que já tínhamos visto na vida, ou dos seres mais estranhos que já passaram pelos nossos escritórios. Não me lembro dos detalhes. Esses o diabo levou com ele.

Meu pai também bebe diariamente, assim como o pai dele. Na adolescência, uma vez cheguei bêbado em casa. Fui direto ao banheiro vomitar. Eu sabia que ele sabia. Eu sabia que ele aprovava. Acordei no chão da sala, vestindo as mesmas roupas e cheirando mal, e ele não falou nada. Mas dava para ler no rosto dele: “da próxima vez, seja mais discreto.”

 Meu pai tinha uma loja de quinquilharias para a casa. Parafusos, ferramentas para casa, coisas assim. O negócio era meio parado. Se fosse pedir um empréstimo para mim, ganharia um não. Meu pai e minha madrasta discutiam frequentemente, principalmente quando meu pai bebia. Ele desabafava: “Penso no meu negócio sempre, como sustentar a minha família, você, meus filhos”. Bebia para ganhar um respiro da vida.

Quando fiz dezoito anos, eu e meu pai começamos a beber no porão de casa, depois de minha madrasta pegar no sono. Falávamos de Deus, sobre a criação do universo e da vida humana. Nunca fomos religiosos, mas ele costumava a dizer que o messias estava para chegar.

Quando minha filha nasceu, passava o dia preocupado. Aquele choro era de dor? De fome? De solidão? Seria eu insuficiente? À noite, pelo menos por alguns instantes, jogava essas perguntas embaixo do tapete. O mercado na frente me consola. Sempre haverá bebida para comprar.

Termino o último copo da noite. Fecho os olhos e me vejo na praia, vendo o pôr do sol no mar. Meus pés estão fincados na areia. O vento sopra em mim. Queria deixar-me levar completamente, mas não sei como. Entro no quarto da minha filha e lhe dou um beijo na testa. Vou dormir.


Antonio Sodré

Antonio Sodré é estudante de Letras na Universidade de São Paulo. Gosta de transformar histórias em contos e microcontos. Já foi publicado em dezenas de revistas literárias, antologias e por meio de concursos literários. Ganhador do 5o. prêmio literário Máquina de Contos (2025). 4o. lugar Prêmio VIP de Literatura (2024). Instagram: @acasodre

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