por Gustavo Freixeda,
escritor e colunista da Revista Navalhista
Vidas Baianas: afetos e desafetos em uma cidade que bate ao próprio diapasão
Estabelecer a tapeçaria de um lugar tão diverso como a Bahia não é fácil. Da abundância de histórias, contradições e virtudes, nem sempre é possível extrair um DNA coeso — a não ser, claro, quando se recorre a leituras estereotipadas que pouco dizem sobre a realidade e frequentemente resultam em retratos rasos, quando não ofensivos. Se propor a fazê-lo, portanto, é 1) enfrentar uma tradição já saturada de descrições grandiloquentes, algumas bem-sucedidas, outras nem tanto; 2) confrontar narrativas cristalizadas; 3) afirmar, ainda que de modo implícito, um lugar de fala que reivindica intimidade com essas vidas; e 4) aceitar o risco de que tudo isso pode ser um tiro no pé.
Vidas Baianas, de Bruna Esteves, assume o risco e se lança à missão de renovar o espírito da Bahia. Ao longo de onze contos, o livro reúne histórias de amadurecimento, amores de Carnaval (tanto os que se prolongam quanto os que se dissipam com a mesma rapidez da festa), relações que se constroem e se desfazem em diferentes etapas da vida, tragédias familiares e até gestos de culinária afetiva. As personagens variam em idade, temperamento, visões de mundo e contextos socioeconômicos e, juntas, compõem uma Bahia que em nenhum momento se perdeu, mas que segue, como tantas de suas personagens, em constante tentativa de se compreender.
Há, nos contos de Vidas Baianas, a aproximação como uma recorrência gestual e temática. Esteves prefere o contato direto com as experiências ordinárias, como encontros, desencontros, rotinas, pequenas obsessões, e, ao fazer isso, aposta mais na identificação do que no distanciamento analítico. Isso faz com que o livro se permita acompanhar o fluxo das vidas que retrata, sem a necessidade de submetê-las a um arco moral muito rígido.
Os contos funcionam bem como peças fechadas em si, mas também, às vezes de maneiras inesperadas, servem ao todo, como fragmentos de um mesmo devir. Há pessoas que parecem ecoar umas nas outras, situações que se repetem com variações mínimas, sentimentos que retornam sob novas máscaras. Amor, desejo, frustração, expectativa e ressentimento circulam como forças contínuas, quase inevitáveis, criando uma unidade que não depende de enredo, mas de atmosfera, de ensejo. O amor pulsa e arrefece, mas nunca deixa de existir. É um estado de espírito. O que emerge daí não é o cartão-postal que se esperaria de uma cidade que é tida como portadora de uma alegria incondicional. Esse espaço mítico é deixado de lado para que, pedaço a pedaço, a Bahia forme a quem estiver lendo como um território emocional, urbano, contraditório, cansado e, ainda assim, pulsante.
O livro, por exemplo, não trata Salvador, e seus rituais mais conhecidos, como um fim em si. O Carnaval aparece para além da folia, com a euforia da época incitando um estado de suspensão onde as regras se afrouxam, mas não fazendo com que elas desapareçam. É nesse ponto que Vidas Baianas se mostra mais interessante, ao sugerir que nem mesmo os momentos de máxima liberdade estão livres de ruídos, assimetrias e desencontros.

Essa mesma aposta na proximidade, porém, pode em alguns momentos jogar contra o livro. Há passagens em que a narrativa se alonga sobre motivações internas já claras, como se houvesse uma desconfiança em relação à capacidade do leitor de preencher silêncios. Certas explicações psicológicas soam redundantes e até diminuem a força do que já estava sugerido pela ação ou pelo diálogo.
O mérito maior do livro talvez esteja em compreender a Bahia não como exceção, mas como espelho ampliado de dilemas universais, ainda que com suas especificidades. As histórias falam de desejo e de afeto, e também de limites. Limites do outro, do tempo, de si. As histórias não se organizam para provar um ponto, mas para existir, como pessoas que passam por nós na rua e deixam, sem saber, uma marca breve, porém persistente. Não há idealização das relações e nem do luto, tampouco há condenação explícita disso. O que temos é uma observação atenta, e empática, de como as pessoas erram, insistem, recuam, de seus processos de cicatrização e aprendem com tudo isso.
A missão de Vidas Baianas e de Bruna Esteves é reunir vozes para formar uma espécie de mosaico imperfeito (e, por isso, convincente). A obra respeita a complexidade das vidas que retrata e entende que, para falar de um lugar tão múltiplo quanto a Bahia, talvez o melhor caminho seja aceitar que nenhuma narrativa dá conta de tudo.
Não houve tiro no pé. Ufa. A ambição, afinal, nunca foi capturar a Bahia em sua totalidade, isso resultaria invariavelmente no excesso ou na caricatura. Iluminar gestos mínimos, afetos ordinários e vidas que não pedem grandeza transforma a ambição do projeto em um exercício de humildade, de observação, de olhar o que costuma passar despercebido.
É nesse gesto contido, atento ao detalhe, que a tapeçaria baiana se deixa ver.

Bruna Esteves, jornalista, escritora e poeta baiana. Formada em Jornalismo pelo Unijorge (Centro Universitário Jorge Amado), e em Direito pela Faculdade Ruy Barbosa. Publicou seu primeiro livro “As Nuances do Amor”, em meados de 2023. Recentemente, lançou o e-book “Vidas Baianas”. Também já publicou mais de quarenta textos em diversas coletâneas, antologias e revistas literárias de várias regiões do país.

![BRUNA ESTEVES – Vidas baianas [resenha]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2026/02/CC_4505_FEED.jpeg)