Narciso
Dispenso suas vênias.
Dispenso suas medalhas.
Dispenso sua pena.
Condecorações só atestam minhas falhas.
Lembram-me do que odeio ser.
Estou farto.
Não diga o que posso ou não fazer.
Não mereço o que tenho,
tampouco mereço algo.
E não tente me convencer do contrário.
Não me coloque num caixão;
não me vista;
Despedace meu terno e arremesse o cadáver nu para os abutres;
Dessa maneira serei mais útil que fui em vida.
Preciso de alguém que não me consoles
Que venha e diga:
“Não és ninguém, continua sendo ninguém;
jogou sua vida fora.
Sabe por que?
Por nada”.
E se pudesse voltar
Erraria de novo;
terrivelmente pior;
um erro crasso atrás do outro dotado de um prazer acachapante;
Quando eu partir, não chores;
me desfiz de mim,
não sinto mais nojo.
Assumi minha mediocridade,
coisa que outros abominam.
Embora reconheçam seu próprio cerne.
Veem sua mediocridade e descartam.
O homem deixou de ser humano;
e eu deixei de ser imundo.
Viste
Finjo que escrevo
Finjo que trabalho
Ignoro quem eu devo
Desconheço o quanto valho
Estou cercado de fingidos
Pensava serem verdadeiros
No entanto, todos imaturos e descarados
Me acalenta não serem sinceros
Cresci e não compreendi
Como se me faltasse o mapa da vida adulta
Atestei, de forma tardia, quando finalmente vi
Emulam maturidade e todos carregam culpa
Não existes santos
Quanto mais cartógrafos
Continuamos livres, a contragosto, soltos
Cinza
Foi nos roubado a essência
Como sempre o fizeram
O cinza reina
Olha o que fizeram conosco
Classe de invejosos
Nos mantém na escuridão do fosco
Nos subordinam como ratos
Invejam nossa perfeição
O trabalho de nossos braços
Não veem a mim
Nos vendem conforto, nos vendem esperança
Para nós não resta início meio e fim
Perdemos nosso tino
Homens e mulheres desumanos
Tutelados por conglomerados cinza
Escarnecem de nossos rostos
Mesmo assim agradecemos.
Pois então,
goze de seu progresso
Asa
Não há diferença entre mim e ti
Nosso ser cintila nas entranhas do mundo, outras desistem
Olhe para as circunstâncias ao redor de si
Inexiste barreiras entre artista e nós
Aqueles são munidos de algo, plateia
Não sentam, tampouco esperam
Encontram o simples acaso, um palco para sua ideia

Bruno Barbosa, advogado e escritor amador nascido e residente em Paraisópolis – Minas Gerais. Escreve desde sempre, mas só agora vem publicando seus romances e poemas.
