DIANA SANDES – 5 poemas
DIANA SANDES – 5 poemas

DIANA SANDES – 5 poemas

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gostaria de entrar peppa pig

e tomar uma xícara de chá

e pular nessa poça

de mijo leite e suor

que cresce sob meus pés

tudo começou peppa pig

quando no meu umbigo se formou

um pequeno olho d’água

que escorreu corpo abaixo

e foi se avolumando, avolumando

uma cachoeira desengonçada

que desconhecia o trajeto

marcou minhas pernas

pedras moldadas pelo tempo

desaguou no piso de taco

por onde tropeço em corais

e dinossauros de plástico

que rugem e se deslocam

com mais gracejo que eu

por onde escorrego

como uma baleia ao avesso

as tetas saltando do corpo

o corpo curvado pra dentro

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eu tenho dois superpoderes

arrotar a qualquer hora

e chorar sempre que eu quero

prepara uma sequência de arrotos

que giram no ar

feito acrobatas olímpicos

e seguem a perder de vista

como gaivotas em dia ensolarado

a intenção de chorar

é como a de arrotar

só que mais fininha

pega um microfone invisível

entoa uma canção tristíssima

as lágrimas vão saindo

de mãos dadas com as palavras

mas elas não voam elas mantêm

os pés firmes no palco do seu rosto

as lágrimas me puxam

pra fora dos olhos

os arrotos vão sozinhos

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me mostra as janelinhas abertas

eles caíram no pula-pula

um deles saltou da boca

em direção à lona vermelha

e ficou ali pulando

o outro ela nunca viu desprendido

engoliu junto com a palavra

que tentava botar pra fora

enquanto flutuava no alto

dos seus cinco anos

repetia mamãe mamãe

mamãe saía com um filete de sangue

olha isso mamãe

mamãe tem gosto de ferro

erguia nas mãos o primeiro dente

um troféu um amuleto

mamãe escorrendo da sua boca

um sorriso inteiro

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tudo o que um dia esteve

dentro de mim isto é

um bisturi um bebê

uma cânula muitos dedos

um pau de borracha alguns

paus de carne coletores

menstruais espéculos

absorventes internos

tudo o que um dia esteve

dentro de mim um dia saiu

como quem nasce

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ter um bebê é como ter 

um membro do próprio corpo

fora do próprio corpo

se afastar desse bebê 

pela primeira vez

ou pela segunda ou terceira

é como ter um membro amputado

escutar seu choro

gotejar leite

balançar de um lado pro outro

uma dor fantasma

Diana Sandes

Diana Sandes nasceu no Rio de Janeiro em 1986, é fotógrafa, artista visual e escreve. É graduada em História e mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Nos últimos anos, participou de diversas mostras de cinema e de exposições em centros culturais e em galerias de arte. Integra algumas publicações com textos e imagens.

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