DIEGO BITTENCOURT – Erro de concordância [conto]
DIEGO BITTENCOURT – Erro de concordância [conto]

DIEGO BITTENCOURT – Erro de concordância [conto]

Eu ainda sonho com Matilda.

Matilda tem sete letras — todas líquidas o suficiente para afogar a alma. Linguista, escritora, música. Arte antes mesmo de ser feita. Mas ela não é só isso. É a palavra antes da palavra, a ideia antes do som, o abrir da boca antes de falar. Um poema nunca publicado do Caio Fernando de Abreu no qual eu me perco sem a intenção de me encontrar ou ser encontrado.

Me desmontou pela primeira vez numa roda de leitura, discutindo as teorias da tradução poética e toda a versatilidade da língua portuguesa. O cabelo dourado ainda batendo nos ombros, o cigarro de filtro vermelho entre os dedos e um sorriso angelical com uma cicatriz pequena estampada no canto dos lábios. Falava da língua como um padre recitando um salmo em sua milésima missa; com fé, certeza, confiança. Eu, um mero estudante de literatura brasileira, com um Mário de Andrade amarelado nas mãos, inexpressivo, imerso em devaneios de jovem desconhecedor do mundo. Ao ouvi-la, notei que todas as outras línguas e linguagens se dissecaram.

Nos meus sonhos, ela ainda me lê.

Seus dedos passeiam por cima das minhas costelas, braços, abdômen, tateiam todas as minhas metáforas não verbalizadas. Ela desvenda os meus segredos sem o constrangimento do falar. Corrige meus advérbios mal colocados, as conjunções sem sentido, as vírgulas no lugar do ponto final. Matilda sabe de tudo, até do desejo pulsando lá embaixo feito poema sujo.

E quando o encara, ela olha para mim e ri.

Nesses momentos, me dá uma vontade absurda de chorar e trepar ao mesmo tempo. Ela me lê e me entende, conhece tudo o que há de mais literal na minha língua — e eu a encaro como uma língua morta, mãe de todas as outras. A decoro como quem tenta aprender latim do zero, com um tesão esquisito, um fascínio e um esforço inigualáveis, sabendo da possibilidade de nunca ser fluente.

Nos meus sonhos, ela ainda me diz que a língua é poder. Irônico, afinal suas palavras ainda me aprisionam. Eu geralmente respondo que ela é a língua que eu desejo aprender até os meus últimos dias. Ela rebate e me chama de cafona.

No verão passado, Matilda me disse: “você não me ama. Você me interpreta.” Eu quis morrer. Quis engolir todos os livros de semiótica que já li, todas as peças teatrais, todos os sonetos e todos os símbolos do mundo até vomitar alguma verdade. Quis me desculpar por não saber usar a língua da maneira correta, por desconhecer as palavras mais bonitas, as antíteses, os eufemismos, quis me desculpar pela minha brutalidade sem graça de quem sequer sabe o que fazer com as mãos perto dela.

Ela ainda está nos meus sonhos. Mas eu não sei mais por onde ela anda.

Não a vi depois disso.

Talvez esteja focada num doutorado em linguística numa universidade federal do sul do país, morando numa república universitária cheia de mulheres criadas por ela, desvendando a intransitividade do verbo amar, usando o poder da língua contra outro idiota em cárcere — que ela provavelmente vai demorar a notar. Ou vai ver e fingir que não. No fundo, ela sempre sabe. Sempre sabe que até quem mais conhece a língua portuguesa às vezes esquece dos significados das coisas. E aí, se esquece de como se diz “fica”. E vai.

Mas ela ainda está nos meus sonhos. Ela ainda aparece no meu apartamento pequeno com um livro debaixo do braço. Ainda lê Leminski em voz alta e pede para que eu não a compreenda. Eu ainda juro que não irei. Ela ainda se senta no meu sofá, exausta dos dias cheios na escola. Ainda reclama sobre as notas não lançadas e exclama enquanto cruza as pernas. Ela ainda pede uma taça de vinho e enche até o topo. Discorre sobre estilística e os sentidos das palavras enquanto eu me perco pensando que o tocar de nossas peles faz meu corpo perder os sentidos. A boca dela ainda é o sufixo de tudo o que eu falo e escrevo.

Nos meus sonhos, eu ainda esqueço as minhas falas quando ela tira a camisa e revela a renda do sutiã quase transparente — esconderijo do seu artigo mais definido. E ali, naquele sofá pequeno e antigo, ainda não somos ambiguidade. Somos dois corpos dizendo a mesma coisa, tomados pela urgência do toque e de um verbo no imperativo.

Eu a toco. Com as pontas dos dedos, com a palma da mão, com o peitoral, a língua, as costas. Beijo a cicatriz no canto do lábio e ela ri. Ri porque já entendeu tudo antes mesmo que eu possa explicar. A transa é poética sem ser escrita e é dessa forma, em meio aos gemidos, as mordidas, as carícias e os arranhões que eu compreendo pela milésima vez o que ela quer dizer quando afirma que língua é poder. Ela diz “vem” e eu vou. Ela diz “me ame” e eu amo. Ela diz “fique” e eu fico. Mas ela não fica. Ela goza, fuma um cigarro pelada em frente a janela de vidro, os seios fartos expostos para a rua inteira ver. E a rua inteira sabe que ela é o meu objeto direto.

Mas aí, ainda cansado, eu pergunto se ela gostou. Matilda me responde com um corte fundo: “não sou pronome possessivo”. Ela pega o livro na mesa de centro e vai embora.


Diego Bittencourt

Diego Bittencourt de Oliveira é graduado em Letras – Português, Inglês e suas literaturas pela Faculdade Santa Marcelina Muriaé (FASM) e pós graduando em Literatura, cultura e ensino da arte pela EducaMinas. Atualmente, é professor de Língua Inglesa no município de Muriaé -MG. Seu caminho na literatura se iniciou ainda cedo; em seus escritos, o autor busca explorar as palavras como forma de expressão, denúncia e crítica. Além de contista, Diego é poeta e sua poesia busca capturar a profundidade de suas vivências enquanto transmasculino, abordando temas como identidade, memória e alteridade.

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