por Mayk Oliveira,
poeta e colunista da Revista Navalhista
As desconhecidas polifonias do mesmo diagnóstico
O que esperar da literatura quando existe estranhamento, narradores pouco confiáveis e as beiradas do desequilíbrio? temos esse resultado desvendado em Escritofrenias (Madame Psicose,2025), livro formado por uma seleção de contos que se constrói a partir de uma proposta tão instigante quanto arriscada: Cada um dos autores participantes recebeu um diagnóstico fictício e, a partir dele, escreveu um conto em primeira pessoa, explorando a subjetividade, as fissuras e as potências narrativas desses estados mentais.
É importante frisar desde o início que o livro Escritofrenias (Madame Psicose,2025), não pretende explicar transtornos, classificá-los ou reduzi-los a categorias clínicas. O livro se afasta conscientemente de qualquer viés técnico ou didático. O que está em jogo aqui é a literatura como espaço de invenção e de risco. Os “distúrbios” apresentados pelo organizador e médico psiquiatra, Ulisses Resenha Brandão, funcionam como disparadores criativos; pontos de partida para narrativas que buscam a verossimilhança emocional em oposição a precisão científica.
Os contos se constroem em uma zona delicada onde violência, tragédia e ternura se entrelaçam. Em muitos textos, o sofrimento aparece lado a lado com o humor; em outros, a tragédia se impõe de forma crua, quase incômoda. Há relatos que flertam com o absurdo, outros que mergulham em um realismo brutal, e alguns que optam por uma linguagem mais lírica ou fragmentada. Essa diversidade de estilos não fragiliza a obra, mas sim, reforça seu caráter experimental e coletivo, evidenciando como uma mesma proposta pode gerar resultados narrativos radicalmente distintos.
Um dos aspectos mais interessantes do livro é o desafio lúdico que ele propõe ao leitor: identificar, sem pistas explícitas, qual diagnóstico fictício inspira cada conto. Essa dinâmica desloca o leitor de uma posição passiva para uma leitura ativa, quase investigativa. No entanto, o jogo nunca se sobrepõe à narrativa. Mesmo quando o leitor não consegue “decifrar” (e não vai, pode crer) o distúrbio, os contos se sustentam por si mesmos, graças à força das vozes narrativas e à coerência interna das histórias.
Encontra-se também humor em Escritofrenias (Madame Psicose,2025), mas é um humor muitas vezes ácido, desconfortável, que nasce do desajuste entre o narrador e o mundo. Há também violência ora física, ora simbólica, apresentada sem glamour, como parte de uma experiência humana de conflitos internos e externos. E há, sobretudo, uma tentativa constante de humanização, de dar espessura às vozes que falam a partir da margem, da instabilidade ou da ruptura.

A opção pela narração em primeira pessoa intensifica a experiência. O leitor observa vem habitar, ainda que temporariamente, essas consciências instáveis, contraditórias, por vezes perturbadoras. Recurso esse que amplia a sensação de proximidade e reforça a proposta do livro como exercício de alteridade, sem cair em caricaturas ou simplificações fáceis.
Entre os contos, destaca-se “Olhos de Lince”, narrativa em que o medo e a revolta de ser ignorado transformam a voz do narrador numa verdadeira metralhadora verborrágica. O personagem dispara sua fúria contra a elite literária, contra as mulheres, contra o emprego ruim e contra a vida comum e ordinária que o sufoca. No entanto, por trás do ataque contínuo e da ironia corrosiva, o conto revela algo mais profundo: a busca difusa por redenção, ainda que essa redenção jamais se apresente de forma clara ou pacificadora.
Outro conto que merece destaque é “Ponto de Não Retorno”. Nele, o personagem principal, após sofrer um acidente e passar por um processo de recuperação, começa a desconfiar que as pessoas ao seu redor foram substituídas por impostores. Essa suspeita crescente instala uma atmosfera de confusão e instabilidade, na qual a realidade deixa de oferecer qualquer ponto seguro de ancoragem. Ressalta-se que não se trará de um relato sobre desconfiança, o conto expõe o momento exato em que a percepção se rompe e já não é possível retornar a uma noção compartilhada de mundo.
Já o conto “Cuidado com a Varanda” beira a tragédia ao explorar o desencontro conjugal de um casal em crise. Com a gravidez da mulher, o desejo sexual, longe de se apagar, entra em estado de latência e reaparece intensificado à medida que a barriga cresce. O erotismo desloca-se do corpo inteiro para esse novo centro simbólico, até que a própria barriga se torna personagem e um foco obsessivo que conduz a narrativa a um ponto de ruptura, onde desejo, insanidade e sacralização do corpo se confundem.
Bastante experimental e instigante é o conto “Protandria”, no qual o personagem percebe sinais progressivos de encolhimento de sua genitália. A constatação desencadeia uma verdadeira cruzada existencial; uma aventura obsessiva em busca da reversão desse processo, que ele passa a enxergar não apenas como um problema físico, mas como uma ameaça direta à sua identidade, virilidade e lugar no mundo. Ao longo da narrativa, o personagem se submete a todo tipo de alternativa de cura: científicas, místicas, absurdas e autodepreciativas, numa espiral entre o cômico, o grotesco e o trágico. O conto tensiona os limites entre masculinidade performática, medo da impotência e a falência dos discursos que associam valor humano à potência sexual.
Não podemos deixar de destacar ainda contos impagáveis, que ampliam o espectro experimental da obra e reforçam seu jogo entre ironia e desconforto. Em “A Invenção Palpável do Amor”, um elemento aparentemente banal, (um fedor persistente) passa a dominar a vida de um personagem após a chegada de uma nova funcionária à empresa. O odor surge no exato momento em que uma declaração de amor não é proferida fazendo as palavras serem engolidas a seco reprimido o afeto. Com o sentimento reprimido o corpo, então, fala por vias oblíquas. O cheiro se torna manifestação de um desejo que não encontra forma discursiva. O conto constrói, com humor e desconforto, uma metáfora eficaz sobre o que acontece quando a emoção é contida até apodrecer por dentro e como o não dito pode ganhar materialidade quase obscena.
É possível chegar à neurose quando se tenta encarnar a vida de artista de novela? O conto “Minha Mulher Está Grávida de Tony Ramos” aposta em uma chave metalinguística satírica e, respondendo à pergunta, apresenta uma mulher que, a partir de um novo trabalho, passa a viver intensamente o universo dos artistas, até o ponto em que essa devoção se confunde com um relacionamento real. Aos poucos, suas preferências, afetos e escolhas passam a ser moldados e direcionados à figura do ator em questão, revelando uma relação obsessiva mediada pela fantasia, pela imagem pública e pela ilusão de intimidade. O riso não é gratuito pois ele funciona como crítica à espetacularização da subjetividade e à dificuldade de sustentar uma identidade própria quando se vive permanentemente sob personagens alheios.
O conto “Oásis” talvez seja um dos mais desconcertantes do livro. Nele, um personagem anoréxico e metódico, que acredita exercer controle absoluto sobre seus gestos, seus horários e até sobre a descrição minuciosa dos lugares onde realiza sua prática de purga, é surpreendido em situação de flagrante por sua pretendente. Esse olhar inesperado e invasivo rompe a bolha de domínio que ele construiu com tanto rigor. A partir desse momento, tudo desmorona no seu sistema de justificativas que ele erguera para sustentar a ideia de autocontrole, disciplina e coerência. O conto opera, assim, um deslocamento cruel, mostrando como a presença do outro é capaz de desmontar cuidadosamente convenções e revelar a precariedade das certezas que sustentam o personagem.
Vale ressaltar ainda, que o conto “Alameda” constrói uma narrativa onírica, ora lúdica, ora inocente, na qual a personagem percorre da infância à vida adulta suas relações com o pai, a mãe, as figuras ao redor e a própria rua onde mora. Nesse percurso, a narrativa deixa transparecer reações ao seu comportamento que, ao leitor, sugerem desde cedo sinais de instabilidade, mas sempre atravessados por grande ternura: um afeto especial pelos animais, pelas histórias, pelas plantas e uma empatia genuína por quem carrega outros modos de estar no mundo liricamente perfeito.
Esses contos, assim como os demais da coletânea, reafirmam que não buscam explicações nem diagnósticos fechados. O livro prefere o estranhamento e o risco formal. As narrativas testam até onde a literatura pode ir ao encarnar corpos em crise e subjetividades à beira do colapso. Mas sempre com liberdade criativa que faz da obra um exercício literário vigoroso e inquietante. Como obra coletiva assume seus riscos e é nesse movimento que reside sua força, ao trazer um conjunto de narrativas que se recusam a se encaixar, assim como se recusam a oferecer respostas claras ou confortáveis.
Nesse passo, Escritofrenias (Madame Psicose,2025) se afirma como um livro necessário. Um projeto que entende a literatura como território de invenção, escuta e confronto com o que há de mais frágil e, paradoxalmente, mais potente, na experiência humana. Não esperem um resultado de livro sobre psiquiatria, nem um manual disfarçado de literatura, mas um exercício literário coletivo, sensível e experimental, que aposta na imaginação e na empatia como forças centrais da criação.
