A solidão é péssima conselheira. Pessoas solitárias são capazes de quase qualquer coisa. Elas compram passagem para cruzeiros de coletividades solitárias, frequentam grupos de ajuda, fazem churrasco e pagam cerveja à desconhecidos aos domingos.
Solitários enviam cartas para agências de encontros.
Alguns encontram o fim de sua solidão. Apaixonam-se perdidamente.
Casais se formam nos trens, metrôs, ciclovias. Apaixonam-se perdidamente e seguem a vida juntos.
Casais se formam nos bares, cabarés, castelos do funk. Apaixonam-se perdidamente e seguem a vida juntos.
Algumas solidões se encontram aplicativos, sites, agência de encontros.
Uma destas solidões procurou uma agência no município de Mutum/MG. A agência nutria o pequeno município com aproximadamente 30.000 habitantes do conforto da ajuda em achar alguém que acompanhe outro alguém.
Em Mutum/MG morava um jovem senhor. Ele mantinha o cadastro confirmado e ativo nessa agência: Este jovem senhor de uns 50 e poucos anos, nunca fora casado, buscava no trabalho o seu destino e sentia que havia conseguido conquistar a sua aposentadoria. Tinha como seu troféu o delicioso desfrutar de suas reservas. Otto Lara Rezende Neto, mineiro, solteiro e satisfeito com a sua riqueza, sentia o inverso desta satisfação ao saber da sua própria solidão. Desejou conhecer alguém que pudesse entrar em sua vida, e gozar, ao seu lado, do troféu delicioso que era sua precoce aposentadoria. Uma outra filial dessa agência estava estabelecida no município de São João do Paraíso/MG. Ela nutria o pequeno município de aproximadamente 20.000 habitantes do conforto da ajuda em achar alguém que acompanhe outro alguém. Em São João do Paraíso/MG vivia uma jovem senhora.
Ela mantinha o cadastro confirmado e ativo em nessa agência: Uma jovem senhora de uns 40 e muitos anos, que fora casada, agora era viúva, dona de posses recebidas em herança e cuja imensa solidão lhe havia incutido a convicção de que devia buscar alguém para lhe fazer companhia na viuvez, ou, até mesmo, com sorte, aventurar-se em novo casamento. Maria das Mercês, mineira, viúva, buscava um novo amor.
A Agência e suas filiais cumpriram o seu trabalho, conseguiram conectar dois jovens senhores para uma conversa pessoal em Belo Horizonte/MG. Neste primeiro date houve mediação dos especialistas em encontros. Um profissional experiente auxiliava para que tudo corresse bem, para que os dois pudessem estabelecer e manter conversas agradáveis, para que eles pudessem visitar lugares agradáveis, para que mantivessem um o clima agradável. Este know how da companhia era, seguramente, de grande ajuda para abrir os caminhos do amor.
Do ponto de vista comercial, esta primeira experiência era fundamental para viabilizar uma nova proposta. Logo no fim deste primeiro encontro foi oferecido um pacote turístico para o maravilhoso Rio de Janeiro/RJ. O pacote incluía hospedagem, todo o translado do roteiro de viagem, rotas guiadas de passeios turísticos pela cidade. Além de guias disponíveis para segurança e melhor aproveitamento dos percursos. Os jovens senhores não demoraram em aceitar a nova. Tudo era perfeito. O belo serviço prestado valia a pena, e a quantia era irrisória para encontrar sua alma gêmea. Sequer protestaram em pagar no ato a quantia de R$ 30.000,00 cada um para aproveitar essa aventura amorosa e harmônica.
Em dois meses tudo estava arranjado. A agência de viagens forneceu transporte com partida da rodoviária de cada cidade, de modo que os dois ônibus tivessem previsão de chegada na mesma hora na Rodoviária Novo Rio. O plano era fazer os dois chegarem juntos. Porém, planos nem sempre dão certo, (alguns diriam – ‘quase nunca’) após 3 horas de atraso do ônibus de origem de São João do Paraíso/MG. Finalmente puderam se olhar e se abraçar. Das plataformas foram caminhar até o chofer que lhes conduziu à sua Suíte no Hotel Nacional com vista para a praia de São Conrado.
A noite foi um sonho, a suas solidões se ajustaram, trocaram carícias e abraços. Tudo guiado pela luz de uma paixão que agora podia arder ternamente, sem vergonhas e sem amarras.
Tudo Correu Bem! Aplausos e créditos aos bons serviços e funcionários da agência de encontros
Na manhã seguinte, um acordar solar em frente à praia de São Conrado, algumas horas na piscina, um belo almoço no restaurante do hotel, uma sesta para pensar no que fazer, se amaram novamente entre os lençóis, viviam intensamente a aventura do melhor da paixão.
Toda essa bem-aventurança na cama lhes conjurou um espírito aventuresco. Pensaram em correr um grande perigo. Viver estava sendo muito e eles queriam mais. Consultaram o roteiro de viagens proposto pela agência. Encontraram um passeio, o folheto deixava claro e explícito a recomendação de um guia. A despeito destes conselhos, o casal resolveu sair livre pelo Rio de Janeiro. Sem nenhum guia, decidiram conhecer a Floresta da Tijuca. Queriam se amar entre as árvores e águas da mata atlântica.
Do outro lado da cidade, neste mesmo dia, acordaram com fome numa Cracolândia na Mangueira os dois Tiozin. Eles viviam assim, de um lado para o outro dos bairros da grande Tijuca. De vez em quando quebravam para a região do Méier. Catavam o que viam, e quando não tinha ninguém vendo, faziam pequenos furtos. Pedaços de fios, portões, guardas corpo, tudo lhes servia. Pediam esmola e comida pelos bairros do subúrbio. Seguiam como zumbis, sempre drogados e famintos.
Tudo que encontravam pela cidade poderia ser proveitoso, em termos de algum dinheiro, vender qualquer coisa achada ou roubada pelo preço que se paga. O dono do ferro velho e o motorista da Kombi do carro velho precificavam tudo na hora, de acordo com a cotação do dia e o preço sempre era uma merda. Havia dois horários em que era certo encontrar os Tiozin no barraco da Cracolândia: a hora do almoço e na hora do jantar. Era sempre o destino depois de passar na boca de fumo, ou no maluco da cracolândia que sempre tem droga para vender.
Se drogavam e comiam juntos. Ninguém sabia dizer se eram irmãos, nem mesmo eles sabiam. Daí os nomes, os Tiozin. Apesar de plural, os dois eram chamados da mesma forma pelos vizinhos e amigos. Tanto faz um ou outro, se juntos ou separados. Eram sempre, um ou outro, Tiozin. Eles tinham muita fome e nenhum dinheiro. Ainda não haviam encontrado nada fácil para roubar, um velho, ou um adolescente retardado. Ainda não haviam encontrado nada para furtar, nem cabos mais fáceis, nem tampas leves de bueiro, tampouco conseguiram nenhuma esmola.
A voluptuosa fome na barriga juntada a imensa fissura pelo crack os levava pelas pernas, subiram o Alto da Boa Vista, entraram na Floresta da Tijuca, dois zumbis, sem pensar, apenas seguiam as pernas e os rumos da cabeça doente de fome e droga. Os mineiros estavam livres, percorriam as ladeiras e as trilhas da floresta como quem anda em nuvens no paraíso. Entraram um pouco no Parque da Tijuca e já encontraram um lindo bosque, aos sons dos pássaros e da floresta, numa pequena relva atlântica, renovaram o fulgor da paixão. Entrelaçaram-se em pernas e braços.
Aquilo era incrível, a grande aventura, toda aquela luz dentro do peito, era como se tivessem engolido uma estrela.
Tanta felicidade dava fome, e, “amineiradamente”, eram espertos e tradicionais, trouxeram um pequeno farnel com algumas sobras daquele maravilhoso café da manhã servido no Hotel Nacional. A fome sem paixão não é fácil, altera os sentidos. Os Tiozin continuavam andando à deriva, à própria sorte, agora entrando parque da Tijuca. Passaram próximos a um bosque e a hiper-fome os fez sentir o cheiro do sanduíche de pernil do farnel dos mineiros. Com esperteza da rua, caminharam a passos miúdos entre as grandes árvores, da maneira em que é possível ver antes de ser visto. Encontraram o casal lanchando apaixonados. Nem precisaram se olhar para procurar cada um uma pedra e desferir os golpes quase que simultaneamente na cabeça daquelas vítimas.
Então comeram, encontraram muitos objetos para furto, algum dinheiro nas carteiras, e isto era o suficiente para comprar crack pelo resto da semana. Eles não precisavam conversar, quase não falavam, os Tiozin sabiam mesmo sem saber que aquilo atrairia problemas. Dava para ver que eram turistas, e a polícia sempre procura os turistas perdidos com mais afinco que os cidadãos comuns.
Arrastaram juntos os corpos pela trilha da floresta, depois de andarem um bom tempo, encontraram uma cabana perdida afastada do caminho principal do parque. Um ficou de vigia enquanto o outro saiu para buscar algo para amarrar os corpos, e depois, sim, descer para a Cracolândia e aproveitar aquela torpe sorte.
Amarraram os mineiros desmaiados naquela pequena cabana, tiveram pena daquelas pessoas, deixaram um pouco de água e comida, resolveram amarrá-los de maneira que conseguissem se tocar e ter contato físico, não queriam atrapalhar demais aquele afeto. Juntaram tudo o que conseguiram pegar e desceram para a Cracolândia. Chafurdaram-se de vício, chamaram os amigos, compartilharam aquela história, celebraram a sorte de ter mais uma semana vencida e os meios para dar de comer a todos ali. Contaram o que havia se passado. Disseram que sentiam pena daqueles dois, pareciam boas pessoas. ‘O mineiro só é solidário no câncer’ lembrou um dos cracudos. – Sim, no câncer! –
Depois, formou-se um consenso, turistas eram sempre um problema, era preciso resolver, matar. Pensaram em como poderiam fazer isso, queimados… esfaqueados…
Queimar atrairia rapidamente os guardas florestais, esfaquear não resolvia o problema dos corpos, das manchas de sangue no corpo e nas mãos, nenhuma solução era boa, todas aumentavam o risco de serem esculachados, presos ou mortos.
Reviraram mais uma vez as bolsas e carteiras daqueles condenados. Encontraram duas cartas. Leram, eram as cartas enviadas à agência de encontros. Eram cartas de solidão e esperança, eram cartas escritas por pessoas boas. Sentiram piedade, desistiram do assassinato, iriam na próxima manhã até a cabana e libertariam os mineiros. Tem gente que encontra maldição até na piedade. Acordaram cedo, comeram, andaram contentes até a floresta da Tijuca, uma alegria que bateu no peito como sente alguém que faz o errado pensando em fazer o certo.
Andaram até a cabana daquele mesmo modo furtivo para ver antes de ser visto. Encontraram a tristeza, o infortúnio. Não havia mais mineiros, nem rastro dos corpos, havia sangue para todo lado e só. Desceram o parque ainda confusos. Não sabiam o que fazer nem para onde ir. Um guarda na porta do parque estava colocando um aviso, gritou e os chamou para perto.
– Por favor, avisem a todos para evitarem o passeio no parque nos próximos dias. Um casal foi morto, devorado por uma jaguatirica. Ainda não sabemos bem o que ocorreu, pedimos a todos para evitarem a área. Risco de morte.

Fabrício Cardoso de Aquino nasceu em São João de Meriti. Na Baixada Fluminense viveu sua primeira infância. A juventude foi vivida em Vila Isabel. Estudou fotografia, filosofia e letras. Formou-se em Ciências Contábeis e Direito. Pai de dois filhos, Joaquim e José Benedito. É empresário, fotografo, contador, corretor de Imóveis, trader, escritor (quase poeta). Publicou ‘Pequeno Lapso’ em 2024.

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