FELIPE MENDONÇA – 7 poemas
FELIPE MENDONÇA – 7 poemas

FELIPE MENDONÇA – 7 poemas

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Como meu filho

 

Entre rostos mutilados

E corpos estraçalhados

Por algum míssil ou bomba,

Pareces apenas dormir

No sossego de um cochilo,

 

Com lábios e os olhos

Entreabertos, tranquilos,

Em paz; quase posso

Ouvir o ressonar

Do teu sono no sono

Do meu filho.

 

O rosto para o lado,

O abdome para cima,

Os cabelos claros

Levemente desgrenhados

Não parecem ser de vítima

Que morreu

Por causa dos estilhaços

De alguma bomba

Ou míssil europeu,

 

De algum jato

Israelense ou americano

A rasgar os céus e espaços

Do Líbano e da Síria,

Do Iraque e da Líbia,

Da Faixa de Gaza

Na Palestina,

 

Mas de quem dorme,

De quem apenas espera

Que te peguem nos braços,

Te acordem com um beijo

E te levem para casa,

Para bem longe

De tanta morte e desespero,

 

Do clangor feroz

De guerras e ocidentes,

Da fome concupiscente

De magnatas e monopólios

Por ouro e petróleo;

 

Que façam o que faço

Agora com meu filho,

O que quero fazer contigo:

Tomar-te em meus braços,

Te beijar e te afagar

Para destarte

Ver-te feliz

A sorrir e brincar

Sob a paz de uma luz

Que ilumina o meu quarto

 

Bem longe dos obuses

E dos homens de negro

Que vestem capuz

E empunham fuzis.

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As flores mais belas

 

Deusas

Ou mulheres,

Santas

Ou bacantes:

 

É tênue

A diferença

Entre Frineia

E Madalena,

 

E, seja no areópago

Ou no sinédrio,

Julgam os cegos

Sob os desejos mais cegos.

 

Por isso o que ama

Um poeta

Não são anjos

Ou quimeras,

 

Mas as víboras

E as feras

Que erram famintas

Pela terra

 

E nos devoram

Com desejos

E panteras,

Caninos e vésperas

 

A mostrarem

Que o lindo

É condição

Do terrível,

 

E que tudo o que finda

Antes fere a carne sacrílega,

Pois as flores mais belas

São carnívoras.

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Bélico

 

Flores bélicas

Rebentavam em todos os canteiros.

Bellum rufava seus tambores

Nas hostes do meu quarto,

Entoando um hino

Repleto de sequestro e assassinato.

Súbito, então, comecei

A oferecer flores e balas

Nas escolas,

Nos cinemas e teatros,

Em todas as ruas

E casas,

Em ônibus e trens.

Eram lírios e tomilhos

Furibundos,

Narcotizados

E guerreiros

Lançados dos rifles

E bombardeiros.

E tudo me parecia terrível e Belo

Como a lua lhe estuprando os amantes

E a despregando-se, como um alien,

Sangrenta, crescente,

De nossos ventres.

Colhi todas essas flores

Ao som de desesperadas cigarras

E de justiceiras espadas.

Cheguei mesmo a cultivá-las e traficá-las

Por toda África e Palestina,

Flores fétidas e clandestinas,

Como um jardineiro

A passar tudo a facão,

Como um padeiro a envenenar o próprio pão.

Era preciso cumprir minha pena,

Seviciar todos

Que me maltrataram sem pena

E me entregaram aos chacais e hienas.

Hoje não cultivo mais.

Estou em paz.

Bato ponto,

Leio a bíblia

E entrego o protocolo

A mães que carregam no colo

Filhos e pais

De futuras chacinas.

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Deusa

 

Mãe de todos os deuses,

Mulher de Zeus e Jeová,

Eu sou Ester,

Vésper, grande mar.

 

O homem, o profeta

Não sabem quem sou,

Meu amor não é

Por escribas e exegetas.

 

É o que nutre

A mãe por um filho

E que o protege

De feras e abutres.

 

É o início,

Todos os começos,

As lágrimas do Nilo

De Biblos ao Mar negro,

 

A rede do pescador,

A sede dos escravos,

A labuta e o arado

Do lavrador.

 

Não quero o assassínio,

Nem morte e escravidão

Quero estar no templo

Do rei Salomão.

 

Não quero sacrifício,

Quero apenas hinos

Pães, bolos e alimento,

O perfume de um incenso,

 

Que derramem

Na boca dos vivos

Vinho e leite,

Mel e azeite

 

Que, em favos, oferto

Dos meus seios,

Cachos e cabelos –

Fontes no deserto,

 

Pois abomino

O sangue dos castigos,

As terríveis profecias

Do cego Jeremias,

 

A loucura de reis

Que pilham, destroem

Templos, altares

Em nome da lei.

 

Sou mãe, tenho filhos

Entre hititas e cananeus,

Entre gregos e assírios,

E egípcios e judeus.

 

Sou próspero caminho

Terra fértil onde

Não há a espada

Ou a fome,

 

Onde, nas moradas

De Judá a Ishtar,

Nada falta,

Pois sou lauta,

 

Irmã, mulher,

O seio nutriz

De Inanna, de Ísis

E da muçulmana,

 

A fé de Magdala

Contra pedros pétreos,

Prontos a bani-la

E rejeitá-la.

 

Nunca o menos,

Mas céu, Vênus,

Grande mar,

Asherah.

 

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Do nada ao tudo

No infinitesimal tempo de Planck,

Na dança espiralada das partículas,

Energia em matéria convertia-se

Que não durava mais que um breve instante:

 

O nada e o quase nada, espaço quântico

Formado por matéria fugidia,

Em térmica expansão, de um ponto mínimo,

Grão de areia, ao imenso mar: atlântico.

 

Pois, se no átimo breve de um segundo,

Súbito, ganhou tudo forma e fundo,

Foi porque etéreos quarks conjugados

 

Mostraram toda a ausência da vontade,

Que o tempo resultou do breve enlace

De prótons e de elétrons sem idade.

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De volta para casa

 

É tempo de acabar com esta espera,

E embarcar no primeiro que me sirva,

Num ônibus expresso que me leve

 

Direto para casa, sem desvios,

Que siga pela via seletiva

Até um bairro escuro dos subúrbios,

 

Pois quase sempre o trânsito é pesado

E distantes os caminhos percorridos

Nessa fera jornada para casa.

 

São muitos os perigos de perder-me,

De enguiços e acidentes na avenida

De quem atropelado morre anônimo.

 

É tempo de vencer atroz viagem,

Tentar guardar um pouco do meu fôlego

A quem me espera em casa para a janta.

 

É tempo de adentrar minha morada

Repleto de esperanças e carinhos,

De beijos e saudades do meu filho,

 

É tempo de esquecer o itinerário

Que faço quando volto da cidade

Trazendo na mochila a Hydra de Lerna.

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Livre

 

Sejamos como ela,

Joana Helena Cadenas,

Que, antes de morrer,

Matou tudo,

Todo o pesar e murmúrio,

Todo o medo e miséria,

O que a não fazia mais bela,

Inclusive a ela,

Por ter

No próprio nome a cadeia,

Muros de nãos e feias verdades.

Façamos como ela

Ou como o balão

Que, sobre a cama

De Joana Helena Cadenas,

Antes de murchar

E ir ao chão,

Num dia de vento,

De gozo, nudez

E contentamento,

Fugiu da sua cela

Pela janela

Da imensidão.

Sejamos assim:

Joana,

Helena,

Balão,

A sina

De desafiar

Tetos,

Guerras

E guilhotinas.

Felipe Mendonça

José Felipe Mendonça da Conceição, como poeta, adotou o nome Felipe Mendonça. Nasceu, em 1976, em Porto Alegre/RS. No entanto, hoje, mora no Rio de Janeiro. Cursou Letras na UFRJ, lançou seu primeiro livro de poemas em 2018 e outro em 2024, com mais um no prelo a ser lançado ainda em 2025. Antes, porém, fez pós-graduação em Literatura Brasileira, tendo obtido o título de mestre e doutor nos anos de 2010 e 2015 pela UFRJ. É pai de dois lindos filhos, reside em Belford Roxo/RJ e cuida de um blog chamado “poesia, necessário pão”.

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