
Rato
Veneno. Numa das pastas antigas do meu pai, desbotada e áspera ao toque, escondia-se – mesmo após o divórcio – uma antiga fotografia da minha mãe. Era uma adolescente, à época; olhos cor de grama. Feições distraídas. Estava grávida – de mim, imagino. Recolhi. Guardei-a na estante do quarto, dentro d’uma cestinha de madeira. Veneno. Madrugada. Um vulto caiu do telhado. Morreu no interior da cesta; apodreceu sobre a imagem. Encontrei-o na manhã seguinte. Um cheiro doce emanava do animal; corpo de pelagem cinza por onde uma mosca solitária desenhava seus rastros. Alguns riram – fingi rir. Desfizemo-nos da cesta e, com ela, de minha mãe. Como um criminoso confesso, preservo sua memória na letra – em vão. Poemas não descrevem as minúcias do verde. Sabe-se que é grama, mas que grama?

Asfalto
A paisagem desdobrava-se num deságue sinuoso
“Meninos de rua”; pés descalços
Mesmíssimos rostos
São Jorge; banhavam-se na garoa vespertina
Costelas à mostra, sfumato
sob o cinza
Fito-os através do ferruginoso das grades
“Meninos de rua”; arbitrários
Plúvio-liberdade
São Jorge; almejo a chuva – suas carícias e gostos
Afogo-me árido. Busco e,
buscando; morro

Marambaia
Mbara-mbai; sóbrio idílio numa
metrópole embriagada
Examino teus detalhes
Anônimos entalhes – histórias
Desvela-te, bairro-ilha
Diorama de murmúrios
Destranca tua alcova; entoa
versos de restinga
Desdobra teus rascunhos
Mudo bairro-mundo
Solitude vespertina
Veste-se de memória
Dá voz à tua lírica;
Algum dia

Natural de Belém do Pará, Gabriel Marinho começou a escrever aos quinze anos de idade, iniciando seu trabalho como contista e, posteriormente, apaixonando-se pela escrita de poemas e pequenas crônicas. Atualmente graduando do curso de Licenciatura em Letras – Língua Portuguesa pela Universidade do Estado do Pará, almeja produzir trabalhos mais sólidos, visando fundamentar-se entre os grandes nomes da literatura brasileira contemporânea.

