GILBERTO BELOTTI – A fome e o medo [conto]
GILBERTO BELOTTI – A fome e o medo [conto]

GILBERTO BELOTTI – A fome e o medo [conto]

— O círculo luminoso do sol já estava escondido atrás dos prédios, mas sua luz permanecia iluminando a tarde e o calor parecia mais intenso agora.

 —  O rapaz loiro puxou a cadeira e sentou-se ocupando uma das mesas do bar, colocou sua pasta na outra cadeira. Escolheu a mesa de sempre, do lado de fora do bar, na calçada. Uma vez por semana encontrava-se com um antigo amigo. Ele sempre chegava antes e gostava desses minutos de solidão. Pediu um chope e antes mesmo de ser servido já adiantava seus pensamentos, as contrariedades daquele dia, daquela semana toda, minutos depois já estava cultivando um ódio profundo pelas pessoas do seu trabalho e imaginando vinganças violentas e impossíveis. Chegou o chope, o garçom disse algo que ele não entendeu e respondeu balançando a cabeça. Notou que havia um cachorro de rua deitado ao lado de uma das floreiras que delimitavam o espaço das mesas, lembrou-se que na semana passada esse mesmo cachorro estava deitado no mesmo lugar, talvez todas as semanas estivesse lá, todos os dias talvez.                                                                                                            

 — O garçom que serviu o chope havia perguntado se ele queria mais alguma coisa e se afastou depois da negativa. Com o rabo do olho o garçom notava que o dono do bar o observava o tempo todo. Isso desde a semana passada quando um dos clientes reclamara de sua falta de atenção. O homem ficava no caixa atrás do balcão, conseguia ver quase tudo que se passava no seu bar, mas não tinha ângulo para ver o cachorro deitado ao lado da floreira. O cão não atrapalhava ninguém, os clientes até gostavam dele e o garçom embora fosse um homem grande e forte tinha o coração mole, era ele quem colocava o pote com água próximo a floreira antes mesmo do cachorro chegar.

 — Ela sempre andava rápido, era miúda e bonita… pela sua postura e altivez parecia mais velha do que realmente era. De família pobre, trabalhava muito desde jovem, conseguiu cargos onde ganhava relativamente bem. Nordestina, tinha uma aparência quase oriental. Mas naquele dia ela ia devagar, pensando como contaria pra mãe que perdera o emprego. Logo agora que haviam começado a construir um novo quarto para a irmã mais nova. Eram em três mulheres. A irmã tinha só doze anos e a mãe não tinha profissão, ela ganhava bem, dava conta, mas agora estava desempregada. Desviou da floreira e quase pisou no cachorro deitado na calçada. Parou, nunca havia sentado só num bar.

— A senhora deseja um lugar? —  Perguntou o garçom.                                                                   

Sim                                                                                                                               

— Está sozinha ou espera alguém?                                                                                

— Aguardo uma amiga. — Disse ela mentindo.                                                                                       

— Pode ficar nessa mesa, é mais reservada.

 — A mesa ficava próxima a uma das colunas externas do bar, também próxima a floreira de onde o cachorro a observava e balançava o rabo bem devagar.

 — Vendedor de eletrodomésticos. Nem era uma profissão e sim uma função. Como dizer para as pessoas que ele era vendedor de eletrodomésticos? Quando perguntado dizia que era consultor técnico, mas não sabia fazer outra coisa, era vendedor de eletrodomésticos e ganhava muito bem. Usava uniforme… calça preta e a camisa cinza com o logotipo da loja, tinha vergonha, sempre trocava de roupa na loja. Sentado no banco do ponto de ônibus ele observava seu amigo na mesa do bar do outro lado da rua, estava em uma posição que não poderia ser visto. Tinham estudado juntos na adolescência e se reencontraram por acaso. Já nesse primeiro momento o promissor vendedor de eletrodomésticos percebeu que estava apaixonado pelo amigo loiro. Tinha tido outros relacionamentos, mas nunca sentira tanta atração por alguém. Sempre fazia planos de revelar seu sentimento, mas sabia que não o faria. Todas as sextas feiras era ele quem chegava mais cedo e por algum tempo ficava de longe, somente olhando o amigo. Viu o olhar dele para a moça morena que sentava sozinha na mesa do lado, levantou-se imediatamente do banco e atravessou a rua com passos largos.

 — Como vai amigão?… tudo certo?

 — O menino chegou algum tempo depois, roupa suja, ar de cansaço e extrema magreza. Era difícil saber se era um homem desnutrido ou uma criança crescida. Quem o conhecia melhor era o cachorro que abanou o rabo com vigor na sua chegada e sentou-se sem sair da sua posição ao lado da floreira. O rapaz morava na rua como ele e também comia restos de comida daquele bar e de outros restaurantes do bairro.

 — Quase todas as mesas estavam ocupadas, o menino sentou-se em uma das cadeiras da única mesa vazia bem perto da moça que perdera o emprego. O garçom se aproximou pedindo para que saísse, disse em voz baixa que voltasse mais tarde, quando o bar estivesse fechando. O garoto ia atende-lo, mas ao levantar-se derrubou a cadeira onde estava sentado assustando a moça que soltou um breve grito, isso provocou a reação do garçom que partiu num tom mais agressivo em direção ao rapaz. Os dois amigos também se levantaram com a mesma atitude.

 — A fome e o medo causam uma espécie de inércia que faz a pessoa agir as vezes com total inconsequência e inconsciência.

 — O menino puxou a moça pela cintura e a imobilizou. Agora ele estava encostado na coluna do bar mantendo-a imóvel como um escudo sobre seu corpo e uma pequena faca encostada ao seu pescoço.

 — O garçom, os dois amigos, as pessoas que passavam na rua, o próprio menino e também a moça assustada nos braços dele, nenhum deles compreendia o que estava acontecendo ali, eles não sabiam que aquilo tudo era um engano… A moça gritou com o barulho da cadeira caindo porque se concentrava em como arrumaria um novo emprego, os rapazes estavam tensos com o trabalho e seus problemas sentimentais, o garçom forçou uma reação agressiva diferente de sua índole somente para não perder o emprego e o rapaz morador da rua tinha medo, estava com fome e simplesmente sentou-se.

 — Nenhuma dessas pessoas sabia o que estava realmente acontecendo.

 — O cão parecia ser o único que compreendia tudo aquilo e fez a única coisa que podia, latiu, dois latidos curtos.

 — O menino ouviu os latidos e olhou para o cão relaxando o braço por um instante e afastando a faca do pescoço da moça.

 — O dono do bar que nunca havia usado a arma que ficava escondida sob o balcão estava tenso e os latidos foram o suficiente para fazê-lo puxar o gatilho.


 Gilberto Belotti – Nasci em 1957 na cidade de São Paulo, Filho de sapateiro e Dona de casa, fui também sapateiro, depois garçom e outras coisas. Sempre tive paixão por desenho e escrita. Com mais oportunidades no desenho estudei e me tornei projetista industrial, depois designer de ambientes, trabalhei em projetos públicos e particulares, porem nunca publiquei nenhum texto e nunca deixei de escrever. Lia regularmente e escrevia somente por prazer. Com as redes sociais vi a oportunidade de mostrar meus textos. Continuo trabalhando com projeto e escrevendo regularmente sem ambições, mas com o desejo de ser lido.    

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