GIO VENUS – As chaves [conto]
GIO VENUS – As chaves [conto]

GIO VENUS – As chaves [conto]

Laura olhava para o ponteiro da balança para não olhar para a médica. 48kg. A doutora “Não Sei O Quê” dizia que era pouco para a altura dela; a garota parecia um espectro, comprida, magra, as olheiras fundas e escuras no rosto pálido. Doutora “Não Sei O Quê” lhe receitava um coquetel de comprimidos: para dormir, para acordar, para as constantes dores de cabeça, para a ansiedade que a levava a morder os cantos da boca. O consultório tinha uma janela enorme atrás da cadeira dela, mostrando a metrópole suja e cinza cheia de prédios espelhados, como se um grupo de meninos tivesse achado muito divertido colocar lentes de aumento em cima de um formigueiro.

O sol brilhava sobre a cidade, forte o suficiente para invadir os olhos dos transeuntes com a luz branca, agressivo, doloroso, mas tão fraco que não esquentava ninguém naquele dia de quase inverno subtropical. Com as receitas em mãos, Laura andava pela cidade, as botas surradas batendo no asfalto em um ritmo regular de quem se move e não passeia; ainda precisava passar no centro da cidade, comprar um daqueles suportes de plástico para o filtro de café e algumas coisas que usaria para fazer artesanato, almoçar, trabalhar a tarde inteira e voltar para casa. Sabia que Bruno estaria esperando, ele sempre estava esperando, menos quando ela queria que ele estivesse, quando precisava de ajuda, quando levava os cachorros ao veterinário, quando o boleto do aluguel chegava e quando se retorcia sobre o próprio abdômen sem conseguir conter as próprias lágrimas de dor enquanto o filho que ele fizera nela morria.

Sentia o sol ardendo os olhos grandes e muito maquiados e lacrimejava, deixando escapar algumas lágrimas de tristeza junto com as que saíam involuntariamente tentando lubrificar os olhos. Andava muito o tempo todo e o óculos de sol vagabundo não ajudava em nada e a porra da geografia daquela cidade encrustada no meio da serra cheia de morros cansava as pernas. Enxugou as lágrimas antes de voltar ao serviço, trabalhando diligentemente a tarde inteira, as receitas na bolsa, ela compraria os remédios assim que saísse, na farmácia ali da esquina, que não tinha dado tempo de comprar na hora do almoço; já estava muito tarde de qualquer jeito, era melhor começar a tomar os comprimidos da Doutora no dia seguinte, respondia uma pergunta, enviava um relatório, tentava concatenar as ideias que iam e vinham como o fluxo de pessoas no escritório, bebia um pouco de água, digitava mais um pouco, respondia mais uma pergunta.

Quando saiu, o vento frio da noite já empurrava os casacos abertos como capas na rua, e novamente todo mundo apertava os olhos mas não por causa da luz, e sim pelo uivo das correntes de ar, a poeira de grande centro urbano levantando e invadindo cada orifício das pessoas e novamente um monte de morro para subir e descer e um monte de gente na frente dela na fila da farmácia, e tudo o que tinha que fazer para retirar um remédio controlado, tomava tempo, o carimbar da receita, a assinatura da farmacêutica, a assinatura da cliente: Laura conhecia o ritual, não era a primeira vez que ela saía cheia de receitas do consultório de um doutor de olhos vazios e fala mansa e pausada, mas ela dessa vez fizera diferente, ela fora honesta, ou quase, fora tão honesta quanto podia ser, falara todas as verdades das quais tinha consciência.

Voltou para casa subindo sozinha todas as benditas ladeiras íngremes, os remédios na bolsa, os braços cruzados para combater o frio, as botas gastas contra a calçada de novo, um passo acelerado até que o solado do pé esquerdo se desprendeu do sapato, merda, caralho, inferno, não tem jeito, tenho que continuar, tenho que continuar, um pouco mais devagar, um pouco mancando, até finalmente avistar o portão de casa e soltar o ar daquele jeito que produz umas nuvens de fumaça quando faz muito frio.

Quando entrou, Bruno estava deitado no sofá, o cachorro salsicha no colo. Largara os sapatos e a camisa em algum canto, ele era um cara bonito, alto, os ombros largos. Laura jogou a bolsa em cima da mesa enquanto o vira-lata sujava suas calças com alguma sujeira das patas, deu um sorriso amarelo para o namorado e deu dois passos grandes até o sofá, sentou-se e começou a desprender o cadarço das botas.

– Você não vai nem me dar um beijo? – perguntou o rapaz, olhando fixamente para a garota.

– Minha bota estava me incomodando muito – ela apontou para o solado parcialmente solto de um dos calçados.

Ele levantou as sobrancelhas, encarando o animal aconchegado em seu colo e curvando os lábios em expressão de tristeza. Depois de finalmente conseguir afrouxar os sapatos e arrancá-los, com raiva, dos pés, Laura se inclinou em direção ao namorado silencioso e tentou beijá-lo; ele retribuiu com um selinho frio e continuou a alisar o pelo do cachorro; caralho, que porra foi que eu fiz dessa vez, que merda, e o consultório da “Não Sei O Que”, e o sol frio e insuportavelmente claro, e as ruas sujas e o escritório e a bota solta, bosta, merda.

– Você não gosta mais de mim – Bruno finalmente abriu a boca; ainda olhava fixamente para o cachorro, acariciando a testa do animal, enquanto o vira lata latia encarando os humanos – E eu acho que ele está com fome.

– Eu… O que? – Laura sabia que tinha feito alguma coisa errada pela maneira como a face dele se contraíram enquanto ela arrancava as malditas botas, puta que pariu.

– Antes, a primeira coisa que você fazia quando chegava era me beijar.

– Eu andei, praticamente, da farmácia até aqui com a bota arrebentada.

– Por que você não pediu um Uber?

– Porque eu só percebi no meio do caminho, aí eu já estava no meio do nada, a rua escura, eu não vou ficar parada, no meio do nada, mexendo no celular, pedindo Uber…

– Olha lá, você nem me respeita mais. Já tá se alterando, já tá querendo transformar em briga.

– Eu só estava explicando o que aconteceu.

– Custa falar normal?

– Eu estou falando normal.

– Não, você tá se alterando. Sabe, antigamente você me admirava. E nem adianta dizer que você ainda me admira, porque se você me admirasse, você não falava assim comigo.

– Sei lá, faz alguma coisa admirável então.

– O que? Eu não faço nada admirável?

– Ah, sei lá, você coça a porra do saco o dia inteiro, só faz o que você quer e o que te convém e quando te convém. Se você lavasse o prato que você faz as refeições, por exemplo, eu já ia ficar admirada. Ou se você mijasse sentado ou pelo menos lavasse o banheiro de vez em quando, não precisava nem ser sempre, só de vez em quando…

– Ah, lá vem…

– Lá vem o que? Você sabe que eu tô certa.

O rapaz virou o corpo, assustando o cachorro pequeno, que foi cuidadosamente retirado do sofá. Ele precisava virar de frente para ela, precisava olhá-la nos olhos, precisava olhar pra ela, precisava mostrar que ele ainda era o homem ali, que ele ainda sabia o que era melhor, que ele ainda precisava ser admirado e respeitado e adorado e que ele poderia chegar no limite tanto quanto ela, ela precisava voltar a admirá-lo, a respeitá-lo, a beijá-lo quando chegasse, a tirar a roupa quando ele queria, a estar disponível, a pedir desculpas, a ser a mulher dele.

– Você quer que eu faça tudo pra você.

– Não, eu não quero. Eu quero que você faça alguma coisa, e não é pra mim, você contribuir com alguma coisa num lugar onde você passa, talvez, a maior parte do mês, é o mínimo, é…

– Você sabe que eu tô tentando.

– E você vai tentar mais por quanto tempo?

Bruno levantou-se empurrando o sofá com as mãos, vestiu a camisa, começou a calçar os tênis, apertou os cadarços, amarrou, olhou novamente para a namorada no sofá, a expressão de desgosto, parado, contando, um, dois, três, quatro, cinco, dez, quinze, trinta segundos. Pegou a mochila, encontrou as chaves no bolso lateral, abriu a porta, ainda parado, cinco, dez, quinze, trinta segundos, um minuto, e ventava frio lá fora, dava pra sentir o vento vindo da garagem e ele ia precisar colocar a blusa mas não queria mover-se, não antes dela se levantar, dela fazer alguma coisa, dela pedir por favor pra ele ficar, que eles iriam conversar, que iriam se reconciliar, que ela ainda admirava ele sim claro com certeza meu amor, por favor, vamos conversar.

Laura então levantou-se, andou descalça até os próprios chinelos e calçou-os por cima das meias. Andou até o namorado.

– Eu te acompanho até o portão.

O menino não disse nada. Emudecera, não queria tentar, ou queria sim tentar, ou queria que ela pedisse pra tentar, ela estava blefando, certeza, ela também era muito bonita, ele percebia agora mais de perto, ela tinha que estar blefando, ela fazia isso quando queria que ele fizesse alguma coisa, e quem sabe ele não poderia fazer uma coisa ou duas? Mas a garota o apressou, repetindo que o acompanharia até o portão. Ele então deu de ombros, caminhando vagarosamente até o portão.

– Pode deixar a chave. – Laura disse, estendendo a mão direita.

– Se eu for, eu não volto. – ele avisou, sério, a voz grave.

– Pode deixar. – ela insistiu, uma lágrima solitária escorrendo pela face.

Bruno entregou as chaves e saiu andando a passos largos, sério, a cabeça baixa, os fones de ouvido. Laura entrou em casa, guardou as chaves em uma gaveta e acendeu um cigarro.


Giovanna Vecchi

Gio Venus, nascida em 1996, em Mogi das Cruzes. Escreve desde criança porque sofre de introspecção crônica e cresceu em uma casa cheia de livros – uma das vantagens de ser filha de professora. Também desenha, pinta e é profissional da educação.

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