por Gustavo Freixeda,
escritor e colunista da Revista Navalhista
A igreja de Clara Nunes e as palavras de um devoto fiel
A plaquete Voz, Clara, Resistência – Em Louvor à Guerreira do Brasil Mestiço, de Giovani Miguez, revisita a trajetória de Clara Nunes pelas vias poéticas e pessoais. Faz parte de uma série que toma como ponto de partida cantores populares do cancioneiro brasileiro da segunda metade do século passado, como Belchior e Rita Lee, para fazer uma análise que viaja do micro (o autor e os músicos sobre os quais versa) ao macro (o país e suas matizes).
Tomando de empréstimo o formato curto, e historicamente marginal, das plaquetes, Miguez estrutura um percurso que aqui reverencia Nunes e todo o impacto que causou no corpo social e na vida pessoal do autor. A devoção que dita a obra ora ilumina a força simbólica da artista e ora caminha sobre um terreno onde Clara é menos pessoa e mais arquétipo. A tensão entre essas duas camadas é, numa só, o que move o texto e também o que lhe impõe limitações.
Tudo se dá por uma listagem cronológica dos discos, da estreia em 1966 ao último trabalho em 1982 e, à semelhança das outras plaquetes da série, cada álbum é abordado em duas partes, um comentário que pende mais para o ensaístico, quase epistolar, e um poema que funciona como desdobramento imagético. O projeto é subjetivo e não tem medo de esconder tal face. Ou seja, ele não busca contextualizar historicamente aqueles trabalhos, mas sim capturar as impressões pessoais que eles causaram. O texto e as imagens que ele evoca ampliam o papel de Clara como símbolo artístico e trazem à tona até um caráter religioso, reverberando o canto da sabiá mineira e dando-lhe vida em uma zona onde música, ancestralidade e mito se confundem.
Isso funciona quando o texto consegue conectar a elaboração poética à função que Clara de fato ocupou na cultura brasileira, a de artista que marcou o imaginário popular, tensionou o mercado fonográfico com repertórios afro-brasileiros e, sobretudo, projetou uma imagem de brasilidade que fugia das disputas políticas explícitas da época para se fazer valer no subtexto. Nesse sentido, o prólogo — que associa a formação da artista às águas, às lavadeiras, às rezas, às vozes da vizinhança — vai bem ao situar Clara como síntese de muitas camadas do país. E vai bem, também, ao sugerir que o seu canto foi, sim, política, ainda que sem slogan, visto que ele reconectou o samba às suas raízes negras num momento em que o país ainda sufocava a própria história.
No entanto, o excesso de lirismo devocional às vezes esvazia o comentário ao colocar Clara num pedestal que talvez a própria recusaria. A palavra “louvor” está no título, então não chega a ser surpresa, mas há momentos em que ela surge tão sacralizada que a música parece soar como um hino automático, a antítese do que de fato era. É uma linguagem que produz beleza, mas por vezes impede que o leitor identifique nuances, diferenças de projeto, riscos assumidos ou mesmo limites presentes nas gravações.

A humanidade que tanto caracteriza o trabalho da artista é deixada de lado em prol de linhas que esmiúçam e almejam o etéreo. A plaquete, ao privilegiar a construção mítica, subtrai o poder do suor e do sangue de Clara como artista inserida em um mercado. A mulher que esbravejou é posta em segundo plano e, no primeiro, quem fica é a entidade eterna, o símbolo maior, que, muito embora exista, é muito menos interessante.
Ao mesmo tempo, porém, o tom ritualístico é o que dá à plaquete sua unidade. A opção de falar diretamente com a cantora, de tratá-la como interlocutora invisível cria uma proximidade que lembra textos dedicados a santos, orixás e ancestrais. Miguez, afinal, faz uma oração, dialogando com o gesto que Clara realizou em vida, o de construir presença a partir da ausência, de transformar tradição em performance, de elevar o cotidiano à condição de rito. O espírito atendeu ao chamado.
O texto final afirma que “Clara é água” e assim condensa o espírito da obra, como um conjunto de textos que moldam a jarra em que essa água está inserida, ainda que à revelia dela. Seria mais sedutor se houvesse um ponto de fricção que obrigasse essa água a encontrar pedra, correnteza, retenção.
As páginas que constituem um altar e o excesso de idealização são compreensíveis, Clara Nunes é uma figura incontornável, cada vez mais necessária. Do pedestal Clara Nunes não sairá e, como Miguez nos lembra, chega a impressionar o quão presente ela se faz ainda hoje. Não como uma figura de santa, mas como a figura humana que ela sempre foi e que ela sempre representou. Seu canto perdura e Voz, Clara, Resistência deixa isso nítido.
Que Clara Nunes, nossa santa de carne e osso, sempre esteja a clarear.

Giovani Miguez é poeta, escritor e servidor público. Especialista em Sociologia e Psicanálise, mestre e doutor em Ciência da Informação, com formação em Biblioterapia e mediação de leitura. Nascido em Volta Redonda (RJ), hoje reside no Rio de Janeiro. É autor de 18 livros, entre eles os recentes Um elogio à preguiça, Amor fati e Notações paridas (Uiclap, 2024). Na sua poesia, Miguez explora a expressão e reflexão existencial. Ora lírico, ora político, ora científico, mas sempre est(ético), o poeta segue sendo profundo em suas generalidades.

![GIOVANI MIGUEZ – Voz, Clara, Resistência [resenha]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2025/12/1000294421.jpg)