por Mayk Oliveira,
poeta e colunista da Revista Navalhista
Toda Nudez Será Revelada no Cerrado
Sempre ouvir falar de uma máxima distante, meio trágica, meio irônica, de um velho chavão do cinema nacional: toda nudez será castigada. No filme de Arnaldo Jabor, a moral sufocante espreita os gestos, e até um simples abrir de porta se transforma em escândalo. Basta lembrar da cena em que o protagonista tenta esconder o próprio desejo atrás de um lençol mal segurado. Na poesia, porém, a nudez escapa dessa moral e vira uma chave de revelação. Podendo ser metáfora da verdade e da vulnerabilidade, símbolo de liberdade e autenticidade, expressão de intimidade ou do despojamento.
É esse tipo de nudez plena, sem castigo, aberta ao mundo que Hermes Coêlho apresenta em seu livro Violado (Patuá, 2023). A obra é marcada por um vigor que se espalha pelos capítulos “inescapável”, “violado”, “cidades nuas”, “cernes” e “mínimo existencial”. No entanto, vemos três grandes temas tomarem o assunto por todo o livro: “o casulo do menino”, “a cidade de Brasília” e a “Permanente nudez” que atravessa o corpo e a memória do poeta.
Seus versos sem títulos, distribuídos em blocos de respiração própria, podem ser lidos como um único e longo poema numa corrente sísmica de sensações de um corpo contínuo.
Nessas partes, acompanhamos a maturidade criativa de Hermes Coêlho, no ato simbólico de se lançar ao mundo. Esse “se jogar no mundo” é metáfora decisiva para compreender o livro pois ao rumar para uma cidade grande, o poeta assume o risco e a nudez do início. Reconhece-se menino ainda no corpo desprotegido e violado pelas exigências da nova vida. Os versos recuperam seu mundo comum através da geografia afetiva do Nordeste que ancora suas origens antes de adentrar o terreno instável da convivência urbana.

É nesse ponto que a jornada do poeta se aproxima de uma estrutura arquetípica: Há o chamado para a mudança, o impulso que o afasta de sua terra natal, mas também a recusa íntima, uma fresta de medo que acompanha todo herói antes da travessia. Em vez da palavra “travessia”, Hermes oferece uma metáfora mais funda: é uma muda de pele que arranca o menino das águas cálidas da origem e o atira para o brilho áspero da cidade grande. Essa metamorfose pode ser observada com precisão nos versos:
O menino que pegava o sol pelas mãos/ Tornou-se homem nos grotões do sul/ Fala grosso como o avô caipira/ Sonha alto/ Berrante distante na memória/ Fez-se errante asfalto afora/ Fez-me bibelô em sua estante.
O poema se constrói a partir de uma imagem inaugural poderosa; essa luminosidade inicial vai sendo consumida pela passagem da vida adulta, pela rusticidade, pelo deslocamento e errância.
Prosseguimos com a cidade de Brasília, como segundo tema. Ela será o espaço-casulo onde se desenvolverá o personagem dos poemas de Hermes. Brasília, cidade Plano Piloto, cidade sem esquinas cujo açoite, farsa e desgosto, guardam o território fértil. É nela que o poeta experimenta simultaneamente o amparo e o desamparo, o rigor geométrico e a ternura inesperada. Essa ambivalência compõe o cenário emocional onde o corpo do poeta se expande, se fere e se refaz. Brasília, que aparece por linhas sinuosas e retas em sete poemas, pode ser definida no poema:
Brasília/ de retas curvas/ um plano piloto/ no planalto/ onde tudo parece igual/ Brasília/ terra em que todo/ sujeito eixinho/ acha que é/ eixo monumental.
O poema apresenta Brasília como um espaço paradoxal e expõe que a cidade planejada cria também sujeitos planejados, que confundem seu lugar comum nos “eixinhos” com a centralidade grandiosa do “eixo monumental”. A linguagem irônica revela a distância entre a arquitetura monumental e a humanidade comum que habita a capital. O eu lírico é observador e crítico, alguém que conhece Brasília de dentro e não se deslumbra com ela. O tom levemente irônico, de lucidez e humor ácido, gera uma transição do espaço para o sujeito que habita esse espaço. O resultado é uma poesia de observação com forte carga crítica, capaz de captar as ilusões cotidianas que permeiam a vida na capital.
No entanto, o grande tema de Violado (Patuá, 2023) reside na exposição da nudez permanente. Se no seu terceiro livro Eclipse (Patuá, 2025) identificamos um homem despido celebrando, e se no seu primeiro livro NU (Fundação Chaves, 2002) ele se encontra à meia-luz, foi em Violado que o poeta tomou coragem e ficou pelado. Os doze poemas em que revela seu corpo poético não deixam dúvida pois apresentam o espanto da liberdade do novo mundo. Em tom autobiográfico, as metáforas e os alinhamentos poéticos dialogam:
Entro/ no mar/ nu como/ no útero/ materno/ no sal/ da água/ o líquido/ amniótico/ me acalma/ Entro nu/ e visto/ de oceano/ a alma
O poema representa o mar como retorno à origem da vida, um útero primordial. A nudez física torna-se nudez ontológica, e a água salina reaparece como líquido amniótico, sustentando uma metáfora do nascimento contínuo. Ao final, “vestir-se de oceano” sugere a fusão do eu com o todo, a água como segunda pele, segunda identidade, símbolo maior do renascer. O personagem poético é introspectivo, sensorial, meditativo, fala de si, do corpo, da experiência física e simbólica, vivendo essa fusão de maneira íntima, espiritual e corporal.
Assim, livro Violado (Patuá,2023) se faz um conjunto de poemas que narram de forma íntima a maturação, de uma nudez ontológica, de um corpo arrancado do berço natural que aprende a caminhar no concreto. Hermes Coêlho transforma sua experiência em matéria poética de intensidade rara, e o resultado é um livro cuja coragem, a fragilidade e a reinvenção de quem, ao se jogar no mundo, retorna de outra maneira, se faz mais vivo.

Hermes Coêlho é poeta e jornalista, formado pela Universidade Estadual do Piauí. Nascido em Teresina-PI, vive em Brasília desde 2010. É chefe de reportagem da TV Senado e apresentador do programa Cidadania. Em 2000, venceu o Concurso Novos Autores – Prêmio Cidade de Teresina, com seu primeiro livro, “Nu”. Em 2023, publicou, pela editora Patuá, “Violado”. “eclipse”, publicado pela Patuá em 2024, conclui a “Trilogia do Trauma” do autor.

![HERMES COÊLHO – Violado [resenha]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2025/11/processed-A798A955-C702-4319-A5B6-04EB10AC4EF5.jpeg)