Depois da serra e da Cidade das Pontas, dos arcos grandes espalhados pelo centro movimentado e das barraquinhas de tapioca e cocada da dona Cida, que exibiam as cores mais extravagantes, logo no meio da última praça arborizada antes de chegar no mar, não era incomum, num passeio qualquer, os moradores de Teçá se depararem com a jovem Clarisse.
Parada atrás do pequeno banco de ferro, que há muito tempo já se cercava pelos galhos retorcidos de plantas indesejadas, a moça de olhos encolhidos se contentava em somente observar silenciosamente toda e qualquer coisa que se dispusesse a passar em sua frente.
Os habitantes de Teçá não sabiam quem era Clarisse, ou o que ela fazia com aquelas mãos sempre imóveis em forma de concha. Mas entendiam que ela sempre esteve lá, desde muito antes da época de seus avós e bisavós. Toda feita de bronze e marcas do tempo, a estátua que outrora refletia o sol, agora quase se escondia entre as vidas corridas que preferiam olhar para outros lugares.
Talvez não fosse pela memória afetiva dos cidadãos, mas pelo rosto indecifrável, testemunho vivo da complexidade da alma humana, que Clarisse não fora tirada de seu lugar favorito em todo mundo (pelo menos do mundo que conhecia). Ela estava feliz? Estava triste? Ironizava? Pensava em um erro do passado ou planejava seu futuro? Monalisa, que tinha uma expressão muito semelhante, talvez soubesse responder.
Em seu canto de paz, nenhum movimento era necessário para fazer os dias passarem sem tédio. Ter olhos com uma visão limitada e ouvidos que podiam distinguir humanos de animais e objetos era o suficiente para a jovem, ou já velha, Clarisse. Afinal, as pessoas sabiam como entreter, e a vida era tão boa… Era tão bom observar as pessoas. Ainda mais quando alguém se sentava no banco, porque Clarisse amava ter companhia e ouvir conversas que ninguém mais sabia, ou passar um tempo lendo partes de um bom livro ou de…
Um momento. Os pensamentos de Clarisse pararam de divagar quando, de cada canto de sua visão periférica, vultos se tornaram formas humanas.
Que homem interessante o que se aproximava à esquerda. Era verão e o sol brilhava forte, mas por algum motivo ele se vestia de uma roupa elegante que cobria todo o corpo. Clarisse não entendia como ele podia não estar com calor. Vestir-se de bronze parecia muito mais convidativo.
Em contrapartida, a mulher que chegava à direita parecia muito mais confortável com seu vestido cheio de flores. E não eram flores mortas como as que cercavam o canteiro à frente, mas flores vivas e amarelas. Tão amarelas quanto o sorvete de abacaxi que o senhor do carrinho branco vendia.
O homem se sentou no banco apoiando as mãos nos joelhos e suspirou. Olhava fixo nos olhos da mulher. Deviam se conhecer, principalmente porque em poucos segundos ela também estava no banco.
Que divertido, devem ser um… casal. Isso, casal era a palavra que ouvira de uma senhora que sempre frequentava a praça e adorava falar da vida dos outros.
— Então… — ele disse para ela.
— Então… — ela disse para ele.
Seus olhos se encontraram em um instante pequeno, mas que pareceu uma eternidade até mesmo para Clarisse. Que tensão.
— Sinto muito por semana passada. — Era engraçado como as mãos do homem mexiam uma na outra de maneira ansiosa.
— Palavras foram ditas…
— Foram…
Se Clarisse pudesse falar, perguntaria que palavras eram essas que tanto pareciam ter perturbado aquelas duas pessoas.
— Tenho pensado incessantemente sobre nós, se isso muda algo, e sobre o que aconteceu, se existe alguma possibilidade de voltarmos…
Voltarem? Será que estavam de viagem? Não. Espere. Clarisse já havia ouvido algo parecido. Ah, mas é claro! Eles deviam estar juntos. Agora a tensão fazia sentido.
— Também passei muito tempo pensando sobre isso na última semana. — Por algum motivo ela parecia desolada. — É difícil estar longe de você depois de tanto tempo juntos, mas também sinto que seria difícil estar perto de você da forma que estou me sentindo.
Ora, então eles não estavam juntos, mas ainda se gostavam. Porque seria tão difícil ficar com alguém que ainda se gosta?
Sendo feita de bronze e não com órgãos que bombeavam sangue ou que eram capazes de sentir, era difícil para Clarisse entender que apenas amor às vezes não era suficiente para se estar com alguém. Também era difícil, às vezes, entender o próprio conceito “amor”.
— Eu sei que errei. Mas estou arrependido de tantas formas e de tantas coisas…
— Chega, Leo. — As mãos dela seguraram as dele. Parecia mais uma súplica de silêncio do que uma carícia comum de quando mãos se encontravam.
Então Leonardo era o nome dele? Ou seria Leandro? Apelidos abriam tantas margens… Era por isso que Clarisse gostava de ser chamada apenas de Clarisse. Não que muitas pessoas a chamassem de qualquer coisa.
— Não sei outra forma de pedir desculpas.
— E não precisa achar outra forma. Eu disse que te perdoo, só não sei se ainda quero estar em um relacionamento com você.
— Você ainda me ama?
— O amor não é lógico, não é?
Clarisse não entendeu. Como algo poderia não ser lógico? Ela achava nunca haver sentido o que chamavam de amor, mas as coisas pareciam muito claras. Se você possuía pernas para andar ao lado de alguém que quisesse andar e uma boca para beijar alguém que quisesse beijar, ou até mesmo mãos para segurar outras mãos que quisesse segurar, por qual motivo não faria cada uma dessas coisas? Talvez, se ela tivesse corpo de gente, pudesse entender, mas com um corpo de bronze as coisas eram lógicas.
Obviamente o chamado “Leo” tinha feito algo que não tinha agradado a mulher. Clarisse pensou sobre os pássaros que pousavam nela de vez em quando e acabavam defecando em seus ombros, cabeça ou mãos. Os pássaros eram bonitos, mas ela definitivamente não queria ficar com eles depois que faziam isso. Talvez o amor fosse algo parecido.
Bem, se esse fosse o caso, não teria problema algum para os dois, afinal, Clarisse não queria mais ver os pássaros só até ser limpa por uma das pessoas de roupa verde que a higienizavam de tempos em tempos. Depois ela se esquecia de tudo e ficava novamente com vontade de ver as aves.
Ela sabia que existia uma palavra que os humanos podiam usar para isso. Não era saudade, como ela havia pensado primeiro, nem nostalgia. Era uma palavra mais difícil. Retrospectiva Idílima? Idílica? Tinha lido em uma revista de uma moça alguns anos atrás, mas não se lembrava qual das duas era. Devia ser algum tipo de memória saudosa. Só dessa forma para o cérebro das pessoas esquecerem coisas tão ruins ao ponto de só se lembrarem das boas ou de romantizarem e sentirem uma falsa nostalgia. Claro que, em teoria, talvez não fizesse tanto sentido, afinal, ela não tinha cérebro e, ainda assim, se esquecia dos erros dos pássaros.
— Eu não sei o que dizer. — A voz da mulher soou chorosa.
O quê? Do que eles estavam falando? Ela tinha divagado novamente e agora, o tempo começava a fechar e formar algumas nuvens escuras no céu. Um banho de verão não cairia nada mal mesmo, mas aquele tipo de mudança no tempo era incomum para Teçá.
— Eu não vou mais ser assim. Prometo. Não sei como ficar longe de você. — O homem parecia sem esperanças. — Você mora em meus pensamentos por tanto tempo dos dias que fiquei tentado a cobrar aluguel. — Ele riu baixinho, quase inaudível.
Aluguel? Será que o problema era eles morarem juntos?
Como era muito raro alguém falar com Clarisse ( e digo raro porque vez ou outra alguém tentava), a jovem pensava que devia ser bom ter uma companhia comum todos os dias. Seria por isso que as pessoas amavam as outras? Pois não queriam ficar sozinhas? Não. A mulher tinha falado que não era algo racional. Não poderia ser isso.
Clarisse nunca havia parado para se perguntar o que era o amor, mas para ela, ele se parecia muito com desejo.
Ela via, constantemente, pessoas que queriam estar juntas e sentiam vontade de agradar as outras, mas tudo sempre voltado para a palavra querer. Leo, por exemplo, parecia querer estar com a mulher, mas não parecia ter feito nada para agradá-la. Apesar disso, ela pareceu ainda amá-lo. Talvez a existência de um sentimento incondicional ou de algo que Clarisse não via, fosse a resposta.
— Escute, Leo. — A mulher segurou novamente as mãos ansiosas do homem. — Você foi, durante todos esses anos, o objeto de inspiração dos meus mais profundos poemas e dos meus sonhos mais altos sobre o futuro. Nada, e eu repito, nada do que sinto por você poderia se esvair como se nunca tivesse existido, porque tudo à minha volta, quando penso em você, se desloca da maneira mais intensa, colocando sua imagem no centro, como um ponto de luz que ecoa a cada batida do meu coração. E você sempre vai ser a primeira pessoa que teve meu coração. — As mãos se soltaram lentamente. — Mas não sei se existe confiança entre nós, ou qualquer tipo de chance para você ser a última.
Se estátuas possuíssem pulmões, Clarisse provavelmente diria ter ficado sem ar. Pensava nunca ter ouvido nada semelhante e que provavelmente nunca mais ouviria, pois seu corpo de bronze se mantinha quente de uma maneira que nunca esteve, apesar do tempo ainda mais fechado.
Como podiam palavras tão bonitas saírem de bocas tão comuns e encontrarem ouvidos que as ansiavam enquanto o pensamento primordial da fala se referia à distância?
Certo. Agora Clarisse torcia para que ele respondesse à altura ou para que, pelo menos, arranjasse uma forma de se acertarem.
Como podiam sentimentos tão complexos não unirem duas pessoas? Era óbvio, para Clarisse, que eles deveriam continuar juntos depois de saírem daquele lugar.
— Eu… — Gotas de chuva impediram o homem de continuar.
— Talvez devêssemos continuar isso depois, em outro lugar, ou não. A chuva parece que vai piorar e logo vai dar meu horário de trabalho.
— É… Tudo bem. — Os olhos de Leo pareceram se distanciar de qualquer ponto fixo possível.
Clarisse estava presenciando um abraço de despedida. Apertado o bastante para significar algo e rápido o bastante para não abrir precedentes para mais pensamentos ou para muita chuva.
“É”? Como assim “é”? Para onde eles estão indo? Porque não estão indo juntos?
Como Clarisse gostaria de poder olhar milimetricamente um pouco mais para os lados para descobrir se os olhos deles se encontraram mais uma vez. Talvez ela gostaria de fazer mais do que olhar. Como seria sentir?
Clarisse queria correr atrás deles e ver para onde iam e o que tinha onde iam, ou com quem mais falariam. Afinal, as pessoas sabiam como entreter, e a vida era tão intrigante. Como ela queria ser uma pessoa… Mas não podia.
Tudo o que podia fazer era se manter naquela chuva, esperando o próximo sol, o próximo alguém ou a próxima história, naquele mesmo lugar, bem depois da serra e da Cidade das Pontas, dos arcos grandes espalhados pelo centro movimentado e das barraquinhas de tapioca e cocada da dona Cida, que se recolheram para não se molharem, logo no meio da última praça arborizada antes de chegar no mar.

Isabella Zanchettin nasceu em Pirassununga-SP no dia 30 de Dezembro de 2000. Passou a infância e adolescência na mesma cidade até ir para Uberaba-MG, onde graduou-se em História pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Em 2024 publicou seu primeiro livro, uma fantasia pirata intitulada Vozes de Orcan (Editora Flyve). É autora de contos de fantasia e mestranda em Ciências da Informação.

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