LUCAS BARRETO – Apelo [conto]
LUCAS BARRETO – Apelo [conto]

LUCAS BARRETO – Apelo [conto]

Não se atropela as graças de um voo divino qualquer. Não é assim que se sucede, não é assim tão leve e de bom tom. Não se sugere, não se sugira. Não insista. Nunca termine as maravilhas das onças enluaradas. Nunca diga “aqui jaz” e aqui – aonde? um movimento. Uma corrida em meio a chuva quente, a chuva quente, a chuva quente, a chuva quente, a chuva quente, a chuva quente, assim repito e a palavra me surpreende, a chuva quente, a chuva quente, eu pergunto: e o que tiro disso? Assim, a chuva, e o mundo inteiro se quebranta em terno olhar. Doces sorrisos. Não brinque com isso. Eu digo: há verdade, mas também há o mundo. Você diz: são os mesmos. Diga: são os mesmos. Diga. Diga agora. Diga em alto e bom som, diga leve e de bom tom, diga, diga que diga, diga e repita, repita, repita, repita, repita que há o mundo e que há o vento, há o peito, há as rosas em grená, há o futuro morto de sangue, afogado em mel, o futuro – a quem. Eu digo que sim, que não, digo qualquer coisa, não interessa.

O rumo do tempo eu deixo cambalear primeiro e depois sorrir sereno. Eu digo: não quebre isso. Não segure assim sem força, sem firmeza, não diga que não disse, não aja sem ter agido, não finja sem ter fingido, eu digo. Eu repito. Eu risco. O vidro. O vidro do tempo na chuva. Eu vejo através do vidro do tempo na chuva e eu vejo veículos e eu digo: não se admire se um dia um beija-flor invadir a porta da sua casa, te der um beijo e partir. Eu sinto que o rio contorce a mata. Eu viro a noite do avesso e isso não é dia, não é dia, não é, diga, não é dia, diga, dia não é, diga, não é, dia, não é, diga, dia, diga, dia, dia.

 Apesar do tempo sumido, eu digo e repito: não faça isso. Eu reviso. Eu repenso e eu desrepenso e eu sigo em frente com o calor dos ossos no vulcão do vulto avulso. Eu sigo a pulso, eu digo a pulso, eu digo, pulo, pulsa, pulga, fuga, puta, a puta, há luta, há puta de agulha, costura, eu digo que avulsa é suja, alguma pergunta? Nenhuma? Nunca diga nunca. Nunca – nunca. Resgunta. Trouxe algumas coisas para te dizer ao pé do ouvido e me esqueci dos sons de suas palavras. Eu digo algumas coisas e eu não sei nenhuma delas.

Eu digo apenas o que eu não sei e você escuta apenas o que você não ouve. Eu sigo a serpente do sexo morro acima e sujo a semente do céu noturno. Escorre leite dos olhos teus e o amor não se revisa. O amor é só uma paisagem em movimento. Eu digo o que se é – eu digo e passa a ser. Eu digo: açoitaram a noite dos prisioneiros religiosos e o Deus não soube chorar. E então há o Deus e sua secura. Não diga que o Deus é úmido de vida. Não diga do Deus o que você não souber de si. Eu digo: o chão se rompeu há algumas centenas de milhares de anos e de lá de dentro brotou uma borboleta-águia que cortou o céu em coração-esplendor.

As fagulhas da memória surgiram pela primeira vez e a arte do tempo disse: eis-me aqui. Diga: eis-me aqui. Diga. Diga e repita. Diga: eis-me aqui e esteja e sinta o sabor do estar estando e não sendo e não sambando e não surgindo e não sumindo e diga: surjo e sumo e sambo e sou. E estou aqui, aqui no tempo da memória e da fagulha do eterno. Das torres de concreto armado que ameaçam o meu pudor. !/ Agora o tempo ruge e a vida vibra além dos ossos. O Deus, pobrezinho, como posso te explicar? friccionou a palavra de seu conteúdo; e tudo se rompeu. Na memória e na urgência da memória e na soberania esguia da saudade, eu digo: não existo. Não entendo. Não se entende o que não reside em seu próprio ser; e eu não resido. Não se capta o que não esconde em seu próprio olhar; e eu não escondo. No máximo, observo atento a tudo e a todos e semeio doses de poder nos corações alados das borboletas-águias que se desvelam em toda brecha de toda rachadura de toda fricção. Eu digo: eis – o quê? E assim eis apenas o quê. Para fugir aos olhos do redentor o pavor da vida que vibra e vibra e vibra e vibra e vibra e vibra. Diga: vibra e vibra e vibra. Diga e repita que vibra. Diga e repita e não seja e esteja e estando-estar esteja. E adormeça ao fim do caule das jabuticabeiras.

Leia um livro. Compre bolsas. Adote um cão. Escreva um bilhete. Feche os olhos mesmo que o sono não esteja à espreita. Brinque no chão. Esqueça seu nome. Perca-se aos pés do Deus que te dirá “aqui jaz” e aqui nada é. O tempo do agora e da colheita e da comunhão. Além do futuro e do passado, que são palavras perdidas na colmeia do amor. Onde nada e tudo existem. Onde respiramos. E nunca é o tempo do será.


Lucas Barreto

Lucas Barreto é um multiartista recifense que une a escrita, o teatro e a música em sua vida. Autor dos livros “Uma noite que teima em permanecer” (2021) e “O dia não promete nada” (2023), também assina a newsletter “Devaneios Urbanos”, é ator e dramaturgo em formação e brinca como DJ sob o pseudônimo de Andrômeda. Investiga a repetição, o vazio, a poética cósmica e a infância (estudo principal na sua formação em Psicologia).

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