MARIAH TIJUCO – Cigarras [conto]
MARIAH TIJUCO – Cigarras [conto]

MARIAH TIJUCO – Cigarras [conto]

Às vezes sinto saudade sem saber de quem. É um vazio morno, como o de fim de tarde, quando o sol se despede atrás das montanhas e as cigarras cantam em coro.

Nessas horas, penso no meu pai. Não tenho muitas histórias com ele, mas lembro do jeito como ele me olhava quando achava que eu não estava vendo. Ele sempre dizia que eu era “demais”. Mas dizia isso para as outras pessoas, não para mim. E isso me confundia. Ele cheirava a cigarro e tinta de jornal — um cheiro tão forte quanto sua presença em mim. Eu o amava e amava saber que ele gostava de mim — um sentimento secreto, inconfesso. Mas ele ria das coisas que eu falava, me achava inteligente e espirituosa. Só ele sabia rir daquele jeito, me olhando com os olhinhos brilhando de orgulho e amor.  Depois, sumia. Ia pelo mundo. Eu sofria, pois não sabia onde ele estava, se estava precisando de ajuda.

Penso também na minha avó, que me ensinou a ser menina. A dobrar as roupas direito, a passar perfume nos pulsos e atrás da orelha, a sentar com as pernas juntas. Ela achava que o mundo era mais gentil com quem sabia essas coisas. Às vezes, me deixava escovar os cabelos dela. Eram grisalhos e longos, com cheiro de sabão de coco. Ela dizia que cabelo conta a história de uma mulher.

Foi por ela que aprendi a me fazer de boba para sobreviver. Para não ofender, para não chamar atenção, para não ser descartada. Segundo ela, a mulher sábia não precisa dizer que é esperta. E eu me fiz esperta secretamente, inconfessa, como os afetos de meu pai.

A menina que fui acreditava naquelas coisas. Aprendia provérbios e os tomava como sabedoria. Acreditava que as pessoas são boas, que o amor é simples, e que quem cuida fica.

Daquela menina tenho mais saudade do que de tudo. Não sei bem quando ela partiu. Talvez no dia em que meu pai se foi. Ou quando minha avó me enredou em seus ciúmes, e meu pai se entristeceu comigo por isso.

Hoje, ando com os sentimentos dobrados, como as roupas que minha avó me ensinou a guardar. Tento andar direito, dizer as palavras certas e sorrir serena para não preocupar ninguém. Mas às vezes, deixo a saudade me visitar.

E mesmo sabendo que não se volta à infância, fecho os olhos só para ouvir, dentro de mim, a voz da menina que fui. Tão melancólica quanto as cigarras, ela ainda canta. E, por um instante, volto a ser a neta. Volto a ser filha. Volto a sentir o calor do olhar do meu pai.


Mariah Tijuco

Mariah Tijuco é poetisa e escritora, graduada em Biblioteconomia pela UFMG, com especializações em Psicopedagogia, Jornalismo e Educação Especial para Altas Habilidades pela UFLA. É palestrante. Atua como redatora, revisora e social media, produzindo conteúdo para plataformas digitais. Tem obras premiadas e publicadas em psicopedagogia, literatura cristã, literatura brasileira, poesia e literatura para crianças e jovens. Participa de diversas antologias, nacionais e internacionais.

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