Uma vez, um antigo amor disse que a nostalgia era um sentimento mais triste do que feliz. Discordei de imediato, afinal só existia tristeza ou felicidade, não os dois juntos, era impossível! Aprendia física na escola e, de acordo com seu princípio fundamental, dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar. Achava que isso valia para tudo, até dois caras ocuparem meu coração ao mesmo tempo. Foi através dos sentimentos e não das fórmulas que entendi: a vida não é oito ou oitenta e os sentimentos não tem regras. Meu pensamento mudou principalmente quando atingi a idade adulta. Aprendi a identificar a nostalgia tal qual o sentimento cuja tristeza é maior do que a felicidade, como ele disse. Nostalgia, para mim, passou a ser o “viver com a saudade no peito daquilo que já foi”.
Em outra manhã, anos depois, acordei na casa de outro antigo amor. Incomodada com o pouco espaço para nós dois na cama, lavei a louça e saí em sua varanda. Imediatamente ela veio, como uma criança carente de afeto: a sensação de nostalgia com gostinho de manhã de domingo me atingiu. Ela apareceu na benção da avó em seus filhos e netos, entre a conversa lúcida da mulher que diziam não estar sã, entre o ato de carinho e o ato de obrigação e a pressa das crianças para brincar na rua. Olhei para as folhas verdes das plantas, observei o céu azul enquanto comia um pão caseiro, analisei as casas que subiam o morro e me lembravam dos tempos calmos em que ficava com a minha tia no muro de sua casa nas tardes de sábado. Porém não fiquei muito ali. Não me dei conta que a nostalgia me atingia, parecia mais uma boba lembrança, porque não estava carregada com a tristeza de sempre: era leve, como aquela brisa de primavera que entrava na casa em silêncio, estava muito leve.
Me despedi com um beijo carinhoso e dentro do carro, contra a minha vontade, fui atingida pela surpresa de ver tantos carros na região, o que faziam ali? A rua estava sempre tão abandonada. Ao descer o morro, logo entendi: estávamos perto da famosa feira de domingo, na beira do Paraibuna. Por quanto tempo sequer passei perto dali? Fazia muito tempo! A última vez não foi com ele, mas as lembranças que tinha eram justo aquelas que frequentei com meu pai enquanto minha mãe fazia o café, arrumava casa, adiantava o almoço e retirava um pouco do tempo para si. A sensação era sempre agridoce.
No início era divertido ajudar com todas as tarefas. Alface, tomate, cebolinha, maçã, banana!, mamão… eram muitas as frutas, as verduras e os legumes! Depois de passar pelas barraquinhas, parávamos com as sacolas em mãos e comíamos um pastel. Eu, sempre enjoada, não tomava caldo de cana, mas sempre aguardava o meu refrigerante pequeno. Meu pai aproveitava a pausa para se divertir com os colegas que conhecia no dia ou ouvindo minhas histórias fantasiosas. Tudo para ele parecia divertido.
No final da nossa feira, eu estava cansada, enjoada de olhar tantas cores e ver apenas o verde das verduras e dos legumes que não pareciam ter gosto para uma criança. Não tinha mais paciência para o cheiro do peixe, me encontrava exausta do calor que aumentava com o passar das horas e a falta de sombra. Porém, ir à feira sempre me pareceu muito satisfatório porque meu pai me animava com algum brinquedo, um algodão doce ou doce de leite em cubinhos para me dar forças na hora de ir embora. Sempre funcionou.
Quase sempre passávamos no supermercado ao lado da feira para comprarmos um refrigerante para o grande almoço de domingo e aí sim íamos para casa. Não entendia o quanto aqueles laços eram importantes ou o quanto sentiria falta desses momentos comuns e rotineiros no futuro. A gente não sabe de nada mesmo.
Dentro do carro foi como se sentisse o sol bater em minha pele com tanta força quanto acontecia na feira de domingo no mês de janeiro. Foi como sentir o vento, escutar a risada e as conversas sobre futebol que ele puxava, se me esforçasse um pouco mais conseguiria ouvir a zombaria de qualquer amigo com quem ele conversava e falava dos capítulos de novela das oito que ele sempre estava a par, assistia com minha mãe toda noite.
Atiçar as lembranças em minha mente foi como sentir que chegaria em casa e todos os meus atuais e frívolos problemas desapareceriam ou diminuiriam de dimensão. Na verdade, a sensação foi bem melhor. Por um segundo ou dois foi como se eu soubesse que chegaria em casa e sentiria o cheiro do lombinho de porco de minha mãe, veria a televisão sintonizada no programa de esportes e meus problemas se resumiriam em deveres escolares e em qual hora poderia chamar meus amigos para brincar.
Quando pisei em casa não havia ninguém, mas não senti tristeza.
Lembrem-se dos que já partiram com boas lembranças, é o que diz Zé Pelintra e Maria Padilha das Almas. É o que os espíritos evoluídos dizem com firmeza e sabedoria e é o que sigo com o coração cheio.
Passo os olhos pela sala de estar e me recordo como estava anos atrás, mas não choro, apenas sorrio. Mesmo na falta, aí está uma lembrança que apenas eu posso sentir e mantê-la guardada no peito com um pingo de tristeza em meio a inundação de felicidade que me faz agradecer por aqueles que vieram antes de mim, por aqueles que já se foram e aqueles que permanecem. Só eu posso me repreender por achar que estou sozinha e ninguém além de mim pode se sentir tão imersa nesta lembrança específica e cheia de nostalgia que mescla a felicidade de possuir a memória e a tristeza de não poder viver o momento mais uma vez.
Então isso é nostalgia, afinal.
Por entender que a nostalgia é agridoce, tanto quanto pensar que podia ter feito mais por aqueles que já se foram e pelo tempo que passou, me conforto com as lembranças e com a capacidade simples, mas útil, que tenho de colocá-las em palavras para que nunca me esqueça. É um bom movimento.
E por isso sou grata.

Mariana Gomes nasceu no dia 30 de março de 1996 na cidade de Juiz de Fora em Minas Gerais. É escritora, professora, historiadora, pesquisadora e uma mulher apaixonada pela escrita. Começou a escrever seus rascunhos nas folhas finais dos cadernos, aos 12 anos, e nunca mais parou.
