por Mayk Oliveira,
poeta e colunista da Revista Navalhista
Desvios e formas de reexistências inventadas
Roland Barthes, após a morte de sua mãe, Henriette Barthes, publica um conjunto de fragmentos que refletem sobre a experiência do luto. Para ele, o luto é uma experiência do tempo quebrado: o mundo continua, mas o sujeito permanece desalinhado, deslocado em relação à temporalidade ordinária. O luto, em Barthes, é uma espécie de tempo morto, um tempo sem futuro, e resiste à linguagem, que se fragmenta, falha e se transforma em ruína afetiva.
No entanto, para o psicanalista Sigmund Freud, o luto é uma reação normal à perda do objeto amado, seja ele uma pessoa, um ideal ou uma abstração. Freud descreve o luto como um processo psíquico no qual o sujeito precisa retirar a energia investida no objeto perdido. Diferentemente da melancolia, o luto é considerado um processo normal. Enquanto, no luto, o mundo parece vazio, na melancolia é o próprio eu que se esvazia. Na melancolia, o sujeito incorpora o objeto perdido e passa a dirigir contra si mesmo a agressividade e o ódio originalmente destinados ao objeto.
Mudando o eixo, segundo Tzvetan Todorov, o fantástico se estrutura a partir da presença de experiências-limite que tensionam as leis do real, produzindo a hesitação entre uma explicação racional e uma sobrenatural. O tempo, nesse regime narrativo, deixa de ser linear, misturando cronologias e camadas temporais, de modo que o tempo enlutado já se apresenta como um tempo mágico. Assim, o sobrenatural não rompe o cotidiano, mas coexiste com ele, integrando-se à experiência ordinária da realidade.
Aproximamos esses traços a leitura do livro Desquerência (Patuá, 2025) de Mariela Mei, pois seus contos apresentam uma dualidade semelhante e ainda que não tratem exclusivamente do luto, muitos deles mobilizam uma matéria narrativa próxima a essa experiência. Mariela Mei constrói um livro de contos curtos que opera por deslocamentos da experiência subjetiva de seus personagens. Dividido em duas partes simétricas, “Dos Descaminhos” e “Das Desquerências”, com sete contos cada, organizando o volume como um desvio das formas de reexistir no mundo.
A primeira parte do livro, traz os contos organizados em “Dos descaminhos” que evocam uma voz narrativa que dialoga com tradições clássicas da prosa brasileira. Há algo do narrador de Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa; com fala brotada do interior do pensamento, permeadas por digressões, oralidade e a presença acachapante da memória. Nota-se também ressonâncias do Euclides da Cunha de Os Sertões, sobretudo na atenção ao humano em sua fricção com o território, com o clima e com às formas de sentir, lembrar e narrar.
Essa voz interiorana se manifesta também na escolha de situações aparentemente ordinárias, que ganham densidade reflexiva e tonalidade lírica. É o caso do conto “Crônica do interminável anseio”, cujo o personagem aguarda, em um horário rotineiro, a passagem de sua musa, enquanto rememora encontros e projeta desejos futuros. O conto assume um tom crônico, no sentido mais clássico do termo: uma observação do cotidiano filtrada pela subjetividade, onde o tempo se dilata entre lembrança e expectativa, e a rotina se converte em matéria poética.
Já no conto de abertura, “Sete-copas”, a narrativa se constrói de maneira lírica, articulando o ciclo de uma árvore e a relação da personagem com a tia. A linguagem e o olhar narrativo estabelecem que a passagem do tempo seja sensível e terna, quase elegíaca.
Outros contos exploram o registro do humor interiorano, aproximando-se de uma tradição oral e burlesca da narrativa brasileira. Em “Claudião Maluco e o destino”, o cenário da clínica e o tratamento com eletrochoque, usados para “segurar a língua” dos pacientes que descobrem segredos do lugar, instauram uma atmosfera ao mesmo tempo grotesca e satírica, o que sugeri crítica implícita às instituições e às formas de silenciamento. Assim, em “O galinho de Tião”, a prosa assume o tom de uma confissão fantástica e bem-humorada, em que o exagero e o absurdo convivem com o registro coloquial, reforçando o caráter oralizante da escrita.
Ainda na sequência da “Dos descaminhos”, encontramos o conto notável “O homem que deu à luz uma menina”, no qual a personagem narra a sua própria história após ter dado à luz. Em um cenário de pura narrativa fantástica o que é mais inquietante é a naturalização do impossível: os personagens não estranham o acontecimento, não se perguntam como foi possível a concepção ou gestação, concentrando-se apenas no desejo de preservar a vida do bebê e na atenção às circunstâncias que o cercam. O próprio narrador, por sua vez, não recorda o processo do parto, reconstruindo a experiência a partir do olhar e dos relatos daqueles que a presenciaram.
Esses contos revelam a capacidade de Mariela Mei de transitar entre o lírico, o memorialístico, o cômico e o crítico, sempre ancorada em uma dicção que evoca a paisagem interiorana como espaço simbólico e afetivo e jamais como mero recorte regionalista.
Se na primeira parte da coletânea predomina uma dicção interiorana trespassada pelo fantástico, na segunda parte, intitulada “Das desquerências”, o livro sofre uma mudança tonal radical. O riso cede lugar à quase melancolia, à reflexão existencial; é uma escrita que se volta para o luto e para ausência.Um grande exemplo dessa reflexão encontramos no conto “Enquanto Patrícia não volta”, que assume o formato de uma epístola, quase um bilhete de despedida. O texto é permeado por saudade, por uma tentativa de diálogo impossível, e por uma linguagem que transforma a ausência em interlocutora, aproximando-se de uma tradição da escrita do luto.
O conto de abertura dessa segunda sequência, “Zé Pião”, apresenta um personagem desolado, cujo pensamento oscila entre desejo e memória. O texto se destaca por um primeiro parágrafo de alta densidade lírica, que funciona como um indubitável estado poético de espírito da seção; um início que condensa beleza e desamparo, situando o leitor num território de introspecção radical.
No conto “Carta a Celestino”, a narrativa explora a pulsão de morte como eixo reflexivo. O personagem encontra uma espécie de sentido ao observar a postura humana de seu porteiro, deslocando o olhar para uma figura marginalizada. A banalidade do encontro se transforma em epifania elevando a força interpretativa da vida.
Nos contos finais, o livro radicaliza sua incursão no luto como experiência de desidentificação. Em “Desconhecimento”, a personagem, num velório, experimenta uma espécie de estranhamento de si: não reconhece quem é naquele momento, como se a morte do outro suspendesse sua própria identidade. O luto não é simples dor, mas um estado de desorientação ontológica, no qual o sujeito se torna estrangeiro de si mesmo. Mariela Mei transforma o velório em espaço de suspensão do eu, fazendo presença e ausência se embaralharem.
Já em “Caronte”, a reflexão se desloca para o tempo acumulado das perdas. O personagem, após ter acompanhado os últimos anos de vida e os velórios de todos os seus amigos, passa a refletir sobre a própria partida. A figura mitológica do barqueiro dos mortos funciona como metáfora de um sujeito que se tornou testemunha profissional do fim, alguém que carregou tantas despedidas que passa a ensaiar a sua própria travessia. O conto opera numa chave filosófica da finitude, transformando o cortejo em uma narrativa contínua da existência.
Com esses textos, o livro Desquerência (Patuá, 2025) se encerra como uma experiência profunda de desajuste entre o sujeito, o desejo e o mundo. A autora para seus personagens no meio do caminho, numa espécie de campo intermediário entre perda e reinvenção, onde eles nem superam completamente e tampouco se deixam dissolver. Eles refletem sobre si, sobre o tempo e sobre os vínculos, habitando uma zona de errância afetiva. A obra que percorre do humor interiorano à melancolia radical, da crônica à meditação sobre a morte não nos entristece e sim emociona pela sua capacidade de fazer do conto um espaço de experimentação existencial.

Mariela Mei nasceu no interior de São Paulo. Escritora e poeta, participou de diversas ações de divulgação literária, e teve textos publicados em revistas e jornais literários e antologias e plaquetes no Brasil, em Portugal e na Alemanha, além de ter sido colunista de sites de cultura. É autora dos livros de poesia “Bolas de Gude” (Ed. Multifoco/Flaneur – 2011) e “Fluxo-verso” (Ed. Oitava Rima – 2014), e do livro de contos “desquerência” (Ed. Patuá – 2025).

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