REVISTA NAVALHISTA – Embora Vidas Baianas (Ed. Autora, 2025) não apresente uma divisão explícita em atos, é possível perceber um movimento interno que sugere uma espécie de progressão: os contos iniciais mais ligados ao desejo, aos encontros e à juventude, seguidos por narrativas mais densas com forte apelo social, perdas e crises, até chegar a histórias que tocam a memória, a espiritualidade e alguma forma de ressignificação. Essa organização foi pensada conscientemente por você como uma espécie de percurso para o leitor, ou ela surgiu de forma intuitiva ao longo da escrita?
BRUNA ESTEVES – A organização foi pensada de forma consciente. Como a maioria das histórias possui uma carga dramática maior, pensei em iniciar o e-book com contos mais suaves e com certo humor para, gradativamente, ir pesando nas emoções com o decorrer da narrativa.
R. N. – Alguns personagens do universo de Jorge Amado que não se deixam decifrar por inteiro, que caminham enigmáticos e interessados, se oferecendo e recusando ao mesmo tempo. É o caso de Gabriela e Vadinho, por exemplo. No conto “Garotos e Mulheres”, a relação entre Matheus e Beatriz é marcada por insistência, fascínio e certa opacidade emocional. O que te interessava explorar nessa dinâmica entre desejo e mistério?
B. E. – Neste conto, eu quis abordar a diferença de idade entre pessoas que constituem um relacionamento amoroso e o quanto muitos casais são julgados por se permitirem amar para além das convenções estabelecidas pela sociedade. Há pessoas que não gostam e nem buscam se envolver com outras bem mais novas do que elas. Porém, também quis trazer o olhar para o fato de que maturidade, muitas das vezes, não está diretamente relacionada à idade, mas para as experiências de vida que cada um é exposto, desde muito cedo, tornando-se apto para lidar com diferentes situações e se relacionar com pessoas de faixa etária distintas.
R. N. – O Carnaval surge em alguns momentos, nos contos em Vidas Baianas (Ed. Autora,2025) como cenário de encontros decisivos, revelações. Você pode nos contar, como esse elemento cultural funciona simbolicamente na narrativa e na dinâmica entre os personagens?
B. E. – Salvador é mundialmente conhecida como um dos grandes centros do carnaval brasileiro. Durante o ano inteiro, o povo baiano sobrevive em meio as lutas e as labutas diárias, aguardando o carnaval chegar para poder recarregar as energias e viver intensamente toda a alegria que carrega na alma. O carnaval de rua representa resistência, identidade cultural e ressignificação de dores, muitas das vezes, insuportáveis. Por tais motivos, este belo cenário cultural não poderia ficar de fora.
R. N. – No conto “Ainda é cedo, volte a sonhar”, percebemos um personagem lidando com decepções profissionais, afetivas e com a sensação de estagnação ou de atraso diante da própria vida. Um caso recorrente na vida de todos nós de forma geral. Conte-nos que te levou a abordar essa crise existencial ligada à passagem do tempo?
B. E. – Durante a pandemia passei por uma transição de carreira, de advogada e concurseira para escritora. Tive que começar do zero e galgar novos terrenos para concretizar meus sonhos. Ainda estou longe de onde quero chegar, e a frustração é inevitável quando me comparo com outras pessoas com a mesma idade que tenho e que já estão estabilizadas economicamente na vida.
R. N. – Ao longo do livro, aparecem personagens em diferentes fases da vida, da juventude à velhice criando um panorama humano amplo. Revela para gente o que essa diversidade de perspectivas acrescenta ao sentido geral da obra?
B. E. – O povo baiano é muito diverso. Deste modo, busquei retratar pessoas de diferentes classes sociais, gêneros e idade, dando-lhes espaço para existir como protagonistas. Cada personagem ganhou voz para relatar suas dores, complexos e desejos, independentemente do contexto social a qual pertencem.
R. N. – No conto “Eterno Amor de Carnaval”, a memória e a saudade moldam a história do personagem especialmente quando o passado retorna para iluminar o presente. Qual o papel da lembrança na construção emocional das suas narrativas?
B. E. – Eu me considero uma pessoa nostálgica, mas não deixo de viver o momento presente. Utilizo das minhas recordações como bagagem e fonte de inspiração para a minha escrita. Acredito que a potência literária de um escritor venha justamente, como bem disse Conceição Evaristo, de sua “escrevivência”: memória e ancestralidade. Não podemos ser mimetizados nas histórias que criamos, mas muitos personagens carregam um pouco de nós e do que vivemos ao longo de nossa jornada.
R. N. – Existem personagens na literatura que caminham em suspensão, perpassados pela sensação contínua de incompletude. Na literatura brasileira vemos Macabéa, marcada por uma espera silenciosa e um viver à margem de si. Nos olhos, a impressão de que algo ainda falta para que a vida se cumpra por inteiro. Muitos personagens de Vidas Baianas (Ed. Autora, 2025) parecem carregar uma sensação de incompletude, de espera. Você acredita que essa inquietação é um traço do nosso tempo ou algo mais universal da condição humana?
B. E. – A incompletude é um sentimento universal da condição humana. Somos movidos pela insatisfação e pelo desejo de sempre viver o máximo de experiências possível. O que poderia ser uma mola propulsora que nos impulsiona para a realização pessoal, torna-se um sofrimento eterno, pois o que temos ou conquistamos nunca é o suficiente. Sempre desejamos por mais e mais.
R. N. – Depois de percorrer as histórias de Vidas Baianas, fica a sensação de que os personagens estão sempre buscando algum tipo de sentido para seus afetos. Queremos saber de você como a literatura pode trazer a compreensão dessas buscas humanas?
B. E. – Ao entrarmos em contato com personagens e realidades distintas da nossa, a literatura nos permite ampliar horizontes e compreender contextos político-sociais e culturais que estão longe da nossa percepção de mundo e fora da nossa bolha social. A literatura, portanto, é esta ponte fantástica que une mundos, pessoas e desejos humanos em prol de uma maior conscientização deste mundo tão plural em que vivemos e do sentimento de pertencimento, ao nos enxergar por meio de personagens e protagonistas. É perceber que não estamos sozinhos e que as dificuldades do outro também são as nossas. Que compartilhamos de dores e sofrimento, assim como de alegrias e pequenas vitórias diárias.
R. N. – Percebemos que seus personagens em Vidas Baianas (Ed. Autora, 2025) parecem atravessados por pequenos acontecimentos do cotidiano nos revelando grandes conflitos internos. Um destaque importante é que suas narrativas lidam com encontros, frustrações e desejos que surgem no fluxo da vida urbana e afetiva. Ao construir essas histórias, você parte mais da observação da realidade ou da imaginação literária? O que te atrai na literatura que nasce dessas experiências “ordinárias da vida comum?
B. E. – Acredito que seja a mistura de ambas, pois ficção e realidade estão entrelaças de tal maneira que fica difícil delimitar a barreira que as divide. O que me atrai na literatura que nasce dessas experiências comuns é o espelhamento das nossas próprias vidas. É a possibilidade de se enxergar em um personagem e se perceber capaz de transformar e ressignificar suas dores.
R. N. – Terminamos com aquele caloroso tapinha nas costas. Agradecemos demais por somar conosco. Conclua falando o que desejar. Liberdade total. Até uma próxima.
B. E. – Tenho para mim, a convicção muito forte de que a literatura salva. Ela é capaz de nos transformar a partir do momento em que nos permitimos conhecer o que está além e a pensar o mundo de modo mais crítico. O autoconhecimento é libertador e pode se tornar degrau para um caminho de autotransformação.

Bruna Esteves, jornalista, escritora e poeta baiana. Formada em Jornalismo pelo Unijorge (Centro Universitário Jorge Amado), e em Direito pela Faculdade Ruy Barbosa. Publicou seu primeiro livro “As Nuances do Amor”, em meados de 2023. Recentemente, lançou o e-book “Vidas Baianas”. Também já publicou mais de quarenta textos em diversas coletâneas, antologias e revistas literárias de várias regiões do país.

Excelente entrevista; visão ampla que abrange o ontem e hoje e nos faz refletir o amanhã. Gostei muito! Parabéns a todos envolvidos!