NAVALHAR É PRECISO – ESTEVÃO MACHADO [entrevista]
NAVALHAR É PRECISO – ESTEVÃO MACHADO [entrevista]

NAVALHAR É PRECISO – ESTEVÃO MACHADO [entrevista]

REVISTA NAVALHISTA – Perspectivas da Escarpa (Urutau, 2025) chega agora em uma nova edição, após ter sido lançado inicialmente de forma independente. O que motivou essa reedição? O que mudou da primeira versão para esta, em termos de texto, organização ou enfoque, e por que essas transformações se fizeram necessárias no percurso do livro?

ESTEVÃO MACHADOO Perspectivas ficou pronto em 2020 e, com ele em mãos, comecei a correr atrás da possibilidade de publicá-lo. Resolvi seguir o conselho de amigos e editei de forma independente em 2021/2022. Só que eu não me sentia “apto” para assumir esse papel de editar um livro bem no meio de uma pandemia, sem experiência, e com pouquíssimas leituras do trabalho final – apenas duas amigas tinham lido: Valda Colares, que escreveu uma apresentação, e Cecília Moraes, que fez apontamentos sobre a estrutura.

Sinto que a pandemia “mexeu” com o livro. Eu percebia que a versão original tinha perdido a organização dos poemas dentro do conjunto, e o conceito mais crítico de flauner – o sujeito que perambula e caminha pelas cidades – tinha se apagado. Eu mesmo havia me distanciado da cidade: estávamos enclausurados em casa e eu, com um bebê de 2 anos também enfurnado, vivia esse confinamento de forma intensa.

Reeditar em 2025 foi uma maneira de fazer as pazes com o projeto inicial e de trazer poemas mais andarilhos, um olhar mais transeunte, que não consegui realizar na época da primeira edição. Vejo que essa postura de reeditar, neste caso específico, tem um caráter restaurador do percurso original do livro, que desde a sua origem, dentro da minha cabeça-pés, se propõe a ser andante, citadino, mas inevitavelmente imaginativo.

R. N. – Muitas vezes a poesia nasce da observação atenta do cotidiano, de um detalhe mínimo que se expande em imagem e sentido. Em Perspectivas da Escarpa (Urutau, 2025), como a escuta do dia a dia, desde pequenos milagres até as grandes tragédias da cidade e da vida, formatou a escrita dos poemas?

E. M. Essa observação atenta me levou a anotar “temas”, palavras, pequenas visões de cidade. A partir daí, procuro me aproximar das palavras que giram no entorno desses temas. Claro, foi um impulso que logo se transformou em um processo de intuição e suor ao mesmo tempo.

Vejo muito da minha crítica profissional à gestão urbana das cidades na primeira parte deste livro; como um preâmbulo, tanto do próprio livro quanto do que enxerguei em Recife — primeiro como estudante, depois como arquiteto, e também como cidadão. Mas há, nesse momento, aquilo que Octavio Paz fala sobre o projeto do poema e, ao mesmo tempo, muito de imaginação, como Calvino brinca com as cidades inventadas por Marco Polo em Cidades Invisíveis.

Há elementos na construção dos versos que caminham entre um discurso imaginado e aquilo que pousa na realidade “projetada”, com a franca vontade de ser gregária. É isso que me interessa: não apenas a denúncia do que há de crítico a ser evidenciado, mas a capacidade de imaginar a partir dessas premissas e refazer uma realidade que exista ali — no livro, nas páginas, na leitura — e que seja uma perspectiva crítica, mas também uma “novidade”.

R. N.Sabemos que muitos livros dialogam diretamente com o espaço, e outros que parecem respirar através dele. Sua escrita demonstra atenção constante ao entorno e aos modos de habitar o mundo. Então, nos fale como a presença de Recife e sua paisagem, sua arquitetura, seus fluxos e contrastes contribui para a atmosfera do livro e para o modo como o eu poético se organiza? Como a observação da geografia humana, de corpos, deslocamentos, tensões sociais, da arquitetura das ruas, edificações, vazios, volumes, influencia a construção imagética e temática de Perspectivas da Escarpa (Urutau, 2025)?

E. M. A presença de Recife no meu olhar me movimenta porque é o lugar onde cresci. Entretanto, me parece (ou eu mesmo me sugiro) que há uma tendência natural em pensar o deslocamento das coisas. Um misto de sobrevivência e curiosidade. Mas esse deslocamento é, além de territorial, também estético, ético e etc. Não é pela cidade que nos movimentamos, mas por uma ideia de que o deslocamento nos entregará outras visões de mundo. Outras visões de uma “mesma” cidade.

Há aí um processo de construção imagética e temática sustentado por um deslocamento de emoções, de sentidos e de (re)visões. Ou uma cosmopercepção, como diz minha amiga e poeta excepcional Renata Pimentel, porque a partir dessas experiências de deslocamento e flanagem, muito centradas na visão, os poemas inspiram uma reinterpretação de cidade, lugar e memória que evoca sentires onde o corpo é verbo. Desloca o homem em seu fluxo de tempo, em suas mazelas, em suas fragilidades.

Mesmo nos poemas mais “recifenses”, os temas abordados são caros a qualquer cidade/lugar que segrega os seus, que se gentrifica, que se elitiza, que ignora suas potências naturais e etc. Ao mesmo tempo, os poemas podem ser mais íntimos, partindo dessa “escarpa” que passa pelo Cacimbo de Luanda, pelo cemitério do Parque das Flores, por Lia de Itamaracá em Cirandeira da Ilha, em um deslocamento das palavras em percepções muito individuais projetadas no terreno das transitoriedades.

Essa intimidade, assim como o olhar/percepção que se escassa diante de determinadas transformações – das quais o homem e a natureza não são protagonistas – são matérias do olhar destes poemas, que atravessam a cidade-urbe, a cidade-bucólica, a cidade-mitológica, a cidade-praeira, a cidade-favela… e urbes de toda ordem, território e lugar: Recife, Yadz, Sevilha, Jordão/Jordânia e etc.

R. N.Observamos que Perspectivas da Escarpa foi lançado de forma independente durante o período da pandemia, quando a experiência direta do mundo e a observação presencial estavam, em grande medida, interrompidas. Diante dessa impossibilidade de sair para vivenciar, como se deu a estruturação do livro e a concepção do projeto? De que maneira você articulou a construção dos versos a partir desse contexto de recolhimento, distância e reconfiguração do olhar, e o quanto desse período pandêmico permanece inscrito na matéria e na atmosfera dos poemas?

E. M. Acho que a reclusão pandêmica de 2020 afetou em parte o livro porque, como falei na primeira pergunta, eu tinha esboçado um exercício de caminhar pelas ruas e reconhecer seus sons, numa leitura de paisagem sonora. Seria minha primeira experiência editando um trabalho só meu, muito diferente de participar em antologias. Esse “conceito” estava bem claro em mim, e os poemas foram nascendo também de uma leitura/memória, ou seja, de uma experiência prévia que se faz presente tanto no preenchimento quanto na falta.

Há uma ironia no título, oriunda desse contexto de recolhimento provocado pela pandemia: o fato de as “perspectivas” serem “da escarpa”. A escarpa aqui não é apenas o acidente geográfico — raro em Recife, inclusive, o que (me) eleva à imaginação — mas também o lugar de onde partem essas perspectivas, como uma reconstrução de uma realidade espacial possível e, ao mesmo tempo, um espaço íntimo, inabitável, de onde se pode observar com calma e com as lentes necessárias o entorno.

Ou seja, o que parece bucólico, na verdade, quis ser citadino em muitas camadas. Acho que essa ironia — o título já existia antes da pandemia — de ter “escarpa” nele, sugere um desbravamento, um ponto de partida para observar.

R. N.Como você percebe a relação entre a lógica da arquitetura, com suas noções de estrutura, função e equilíbrio, e a estética do fazer poético? Em que medida esse pensamento arquitetônico atravessa suas escolhas formais, o ritmo dos versos e a organização do livro?

E. M. Eu gosto de esboçar um projeto para o livro. Tenho escrito assim… Foi assim com O Liceu das Vozes (Urutau, 2023), quando me aproximei do tema da educação para mostrar caminhos poéticos e temas que contribuem com nossa caminhada em constante aprendizado. É um pouco projetar por uma linguagem, por um tema, por uma forma de trabalhar a palavra naquele papel de transfiguração.

E aí eu sempre me questiono: até onde posso ir com essa imagem? Nesse momento, a arquitetura se afasta completamente. Entro no campo da língua e mergulho nas infinitas possibilidades, onde cada escolha reabre uma finitude. Enquanto o papel está em branco… com um verso, ou uma sugestão de verso, há inúmeros caminhos a serem tomados, e estes vão se reformando na medida em que uma palavra surge: com sua imagem, seu som, seus sentidos, sua força.

Talvez a arquitetura reapareça no momento de editar os poemas no livro: organizá-lo em partes, propor a estruturação dos versos na página etc. O fazer poético tem seu jeito de trabalhar, mas o trabalho de edição do livro, que começa quando o poeta diz “vou fazer um livro”, tem um jeito próprio.

R. N.Ao longo da trajetória de um escritor, cada gênero literário parece abrir uma porta distinta: algumas mais íntimas, outras mais abertas ao mundo. Seu primeiro livro publicado foi O liceu das vozes (Urutau, 2023) de poesia, e em Perspectivas da Escarpa (Urutau, 2025) você volta a escolher a poesia, consolidando este como seu segundo livro no gênero. Como você percebe o ato de construir um livro de poesia em relação a outros modos de escrita? Porque você escolheu esse formato de texto?

E. M. Como diz o poeta alagoano e filósofo Ângelo Monteiro, a gente não escolhe escrever poemas. Ou você aceita e escreve, ou você não os encara e rejeita. Eu me encaro como poeta. Partindo dessa premissa, e ainda mais com as barreiras já rompidas por outros que me antecederam, faço desse gênero a minha casa.

Vejo que essas barreiras, rompidas por tantos grandes poetas do século XX em diante, sobretudo, ampliam a poesia como um espaço para além do verso. O poema é oral, é visual, carrega em si a força de uma língua, de um idioma que o antecede, por assim dizer. Essas informações já chegam para minha geração de maneira muito ampla e debatida.

Cabe a nós, poetas, escolher e equilibrar esses caminhos.

R. N.Muitos críticos pensam a poesia como um campo de tensão entre forma e experiência, som e sentido, silêncio e significação. Em Perspectivas da Escarpa (Urutau, 2025), como você entende ritmo, disposição do verso, pausa, imagem na produção de sentido da forma poética? Para você, a forma antecede a experiência ou é a experiência que exige a forma?

E. M. O que é vital, ao meu ver, é o que tu chamas de “campo de tensão”. O poema deve construir esse campo, pois ele é uma representação e, como tal, deve muito mais sugerir e trazer as tensões do que apenas apontar de onde elas vêm ou para que servem.

No Perspectivas, o livro abre com um poema chamado Transeunte, onde digo: “trouxe em mim nenhuma bagagem” para depois seguir com “trouxe em mim a bagagem possível”. Essa tensão me interessa porque falo da matéria de uma mala que se pode carregar e também das nossas referências e acúmulos de visões, sentidos e etc., que entram no campo da possibilidade.

Eu penso muito mais a experiência como geradora, e isso é, como falei anteriormente, uma linha já vencida por quem veio antes. A experiência é prévia, mas é perfeitamente compreensível quem faz da forma uma experiência em si, como, por exemplo, Paulo Henriques Brito. Ninguém nunca — no campo da publicação — tratou o soneto da maneira como ele vem tratando.

R. N.Toda escrita carrega, ainda que de modo implícito, uma concepção de arte e de linguagem. Qual é, para você, o núcleo do fazer poético? Há alguma reflexão teórica, tradição literária ou diálogo com outros autores que funcione como orientação durante o seu processo criativo?

E. M. Acho que a linguagem existe sempre, mesmo nas escritas destinadas a funções de comunicar, publicitar etc. Como você disse, mesmo de modo implícito, a linguagem se manifesta e é mais ou menos tensionada, a depender do campo em que está.

Dentro do campo artístico, essa tensão é amplamente permitida — na verdade, esperada — sobretudo quando as fronteiras dos textos poéticos desmoronam no século passado. Por isso acompanho com muito entusiasmo a produção contemporânea de poesia, em que percebo autores e autoras que se aproximam de um certo rigor formal, mas com muita fluidez na palavra e em suas possíveis materialidades. Também vejo autores e autoras que produzem um texto que não perde o “princípio-segredo” de que fala Eucanaã Ferraz: dar às coisas uma liberdade de ter seus nomes ditos de tal maneira que pareça sempre uma primeira vez.

R. N.Existe, muitas vezes, uma fronteira delicada entre experiência e elaboração poética. Conta para gente como você trabalha a transfiguração da vivência em poema? Você se deixa cair no registro confessional direto ou preserva a densidade emocional e rigor estético?

E. M. Nós somos reflexo das “bagagens” que trazemos, direta ou indiretamente. Ser confessional ou não é menos importante do que o “princípio-segredo” do poema, como diz Eucanaã, e que citei anteriormente: fazer as coisas, em seus nomes e discursos, soarem como novas. Essa é uma premissa do texto poético.

E “novo” aqui não significa vanguarda, mas olhar os nomes como se eles pudessem reacender outros sentidos — os seus próprios ou outros, por associação ou invencionice. Vejo que isso preserva a tensão de que você fala em outra questão acima.

Ser ou não confessional, no sentido mais direto de transpor a experiência para uma “forma” simplesmente, não configura poesia. Já existe repertório formal suficiente para se fazer qualquer texto ser “batizado” como este ou aquele gênero. O ponto-chave é como fazer as experiências soarem como outras experiências dentro do texto — com oralidade, com materialidade própria, e no poema.

O relato pelo relato pode cumprir uma função — de certa forma em voga — que é pautar temas, mas não necessariamente compor o relicário de ressignificação que um texto poético promove. Drummond trazia para seus poemas o ato de deformar o clichê, o lugar-comum, pelo gosto — e pela estética — de chegar em outra coisa, dar uma nova vertente para aquele nome, aquela palavra, influenciando, em quem o lê, a língua, o psíquico e o emotivo com seu discurso.


estêvão machado

Estêvão Machado (1979) é arquiteto, recifense, pai de Bento. Cresceu em Olinda-PE. Publicou o livro de poemas, O liceu das vozes (2023 – Ed. Urutau) e colaborou em revistas literárias como Sucuru, Piparote, Ruído Manifesto e no Diário de Pernambuco. Teve poemas editados na Antologia do Concurso Nacional de Novos Poetas (2013), obtendo menção honrosa, como também na Antologia Conexões Atlânticas (2018), com poetas de países lusófonos, este último editado em Portugal.

Perspectivas da Escarpa (2025 – Ed.Urutau) é uma reedição com novos poemas do primeiro exemplar editado de maneira independente pelo autor em 2021. Instagram: @eestevaom

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