REVISTA NAVALHISTA – Em Livre Associação (Minimalismo, 2025), você aborda o ato de pensar falando e a dimensão terapêutica da fala sem censura, em diálogo com a ideia psicanalítica de livre associação. A partir disso, você acredita que a arte pode ser compreendida como uma forma de saúde? ou mesmo como um modo de cuidado e elaboração psíquica da experiência?
IVAN HEGEN – Neste meu sexto livro de ficção, assumo a psicanálise como uma influência mais explícita, me posicionando como filho de psicanalistas, com tudo que isso me traz de inquietação. Acho que pode haver busca pela saúde em uma expressão que coloca as palavras em movimento, revolvendo o lodo do inconsciente. Antes do Freud, Nietzsche já propunha uma correlação entre arte e saúde. Por outro lado, assim como a análise, um fazer artístico exigente passa por momentos de angústia ao longo do processo. Não é necessariamente o bem-estar que está no horizonte, mas uma ampliação do conhecimento de si, do repertório afetivo, de possibilidades entre o pensar e o agir.
R.N. – Os textos remetem constantemente a sessões de terapia, algo que o próprio título já sugere. Fica a curiosidade sobre como você construiu esse repertório tão amplo, capaz de criar histórias de naturezas tão diversas. Sabemos que isso não se aprende apenas nos livros. Você pode nos contar um pouco sobre suas referências, formações e experiências que alimentaram esse imaginário e esse modo de escrever?
I. H. – Tive a sorte e o azar de crescer nesse ambiente familiar dos pais psicanalistas, ao mesmo tempo instigante e um tanto perturbador. Não satisfeito, ainda tive uma relação de oito anos com uma psicanalista, para cumprir minha sina edípica. Desde a adolescência me senti quase obrigado a ler Freud para me defender em casa, mas também é verdade que me deixei constituir por essas leituras. Fui vivendo e lendo o que dialogava com cada momento da vida. Assim foi também na formação em Artes Plásticas, nos freelas de tradução, no trabalho com deputado socialista, nos períodos em que morei fora, e sem dúvida nas trocas intensas com as mulheres que amei e com as boas amizades. Vida e arte não se confundem completamente, mas conversam o tempo inteiro.
R. N. – Goethe dizia que, por meio da arte, nos distanciamos e, ao mesmo tempo, nos aproximamos da realidade. Em Livre Associação (M.inimalismos, 2025), encontramos personagens que se erguem dentro de uma tradição, mas também entram em crise com ela. Como é, para você, ser escritor e trazer para a escrita essas contradições, essas tensões entre pertencimento e ruptura, entre herança e invenção? De que maneira essa crise se torna matéria literária?
I. H. – O modernismo inaugurou uma tradição de rupturas. Surgiu como crise da consciência burguesa, desestabilizou a linguagem, atacou o ilusionismo. No campo das artes plásticas, onde fiz graduação, essa crise pode ir ainda mais longe, como se viu no auge da antiarte, anos 1960 e 70. Não sei bem qual a vantagem, mas gosto de me torturar em dialética permanente, como fazia Adorno, dialética sem síntese. A espiral de questionamento pode não ter fim: estou criando arte ou mercadoria, algo que eleva a consciência ou aliena, algo que mobiliza ou só distrai? Não consigo ignorar toda essa problematização, embora eu tente não me deixar paralisar. Em algum momento é preciso se permitir criar. E é importante criar, ainda mais diante da opressão, de ataques ao pensamento crítico, de tempestades de fake news.
R. N. – Em As Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury, acompanhamos o antes, o durante e o depois da colonização de Marte; e o que emerge é uma grande tragédia, uma desmontagem das ilusões humanas. No conto “Mars Volta” há um personagem que busca algo semelhante: uma espécie de colonização dos sentimentos nobres, uma tentativa de fundar outro modo de habitar o mundo. Pensando nisso, nos conte: qual seria o texto que você enviaria para essa “seleção”, o texto do Ivan escritor? O que ele diria sobre essa tentativa de colonizar sem tragédia?
I. H. – Legal você ter mencionado este livro do Ray Bradbury, que talvez seja meu favorito na ficção científica. Aprecio mais a sci-fi que se debruça sobre o humano do que a que se deixa fascinar demais pela tecnologia. Agora, você perguntou sobre a mensagem que eu enviaria ao me candidatar como um representante da Terra disposto a colonizar Marte. Não acredito que possamos erradicar todas as tragédias. Minha mensagem aos humanos é que se não aprendermos a superar a lógica individualista, se não aprendermos a valorizar as riquezas culturais acima das materiais, vamos destruir este e qualquer outro planeta que viermos a habitar.
R. N. – Como diria Antonio Candido, a ficção é um lugar ontologicamente privilegiado, em que o ser humano pode viver e contemplar, por meio de personagens, a plenitude de sua condição e tornar-se, de algum modo, mais transparente para si mesmo. Livre Associação traz o conto “Divã Online”, em que o personagem se depara com um paradoxo existencialista: “o inferno são os outros”, mas também não há paraíso no isolamento individualista. Pensando nisso, parece que somos condenados a assumir responsabilidades e a conviver. Há prazer nessa convivência? Onde você encontra prazer na relação com o outro? E, nesse sentido, quem são as suas companheiras literárias, autoras, personagens ou vozes, que lhe fazem companhia na escrita e na leitura?
I. H. – Admito meu lado antissocial e há pessoas com as quais o convívio é um inferno, mas tenho muito prazer na companhia de boas amizades, de pessoas inteligentes, que sabem rir na hora de rir e ser solidárias quando necessário. Sobre as companhias literárias, eu começaria pela Clarice Lispector, tema do meu mestrado, e pela Elvira Vigna, que estudo agora em doutorado, mas é impossível esgotar a lista. Minhas preferências se encontram no moderno e no contemporâneo, desde Baudelaire, Mallarmé, Machado de Assis e Dostoievski até Toni Morrison, Ian McEwan, Paulo Lins, Starnone, Édouard Louis, passando por Virginia Woolf, Pessoa, Kafka, Cortázar, Sartre, Guimarães, Drummond, Nelson Rodrigues, Kawabata, Garcia Márquez, Kerouac, Milan Kundera, Ferreira Gullar, Alice Munro e Marcia Denser, sem deixar de admirar a preciosa atualidade de Shakespeare, Cervantes, Goethe, Ovídio, Sófocles, Safo… e ainda me sinto mal por não me estender por dezenas de nomes da literatura brasileira contemporânea, que tornariam essa lista interminável e nos impediriam de passar às próximas perguntas.
R. N. – O título Livre Associação sugere escuta e confiança, como se os contos funcionassem ao mesmo tempo como desabafo e como um caminho de busca por respostas, quase terapêutico. De que modo você vê a prosa abrindo esses caminhos de segurança e elaboração? E, nesse sentido, o que acredita que essa escrita pode provocar, transformar ou oferecer na vida dos leitores?
I. H. – Para o escritor pode ter algo de terapêutico, eu mesmo atravessei uma fase meio suicida recorrendo à escrita de Será e Puro Enquanto. Mas não existe garantia sobre a recepção dos leitores. Acredito plenamente que a arte afeta as pessoas de maneira transformadora, só não é muito fácil de mensurar. Podemos estudar alguns fenômenos coletivos bem interessantes, como as mudanças na etiqueta amorosa inspiradas pelo trovadorismo no século XII, a revolução sexual junto ao rock da contracultura ou o impacto político do show do Bad Bunny no superbowl, mesmo assim sempre há algo que escapa à análise objetiva. Isso que escapa é grande parte do encanto que a literatura e a arte proporcionam. Não dá para colocar em planilha, mas notar uma vez ou outra que os olhos de um leitor brilham ao comentar um livro seu é o que faz valer a pena a imensa energia que se gasta escrevendo.
R. N. – Toda escrita carrega, ainda que de modo implícito, uma concepção de arte e de linguagem. Qual é, para você, o núcleo do fazer poético? Há alguma reflexão teórica, tradição literária ou diálogo com outros autores que funcione como orientação durante o seu processo criativo?
I. H. – A linguagem artística me interessa principalmente como espaço da dúvida, da incerteza, das nuances. Cada projeto meu surge de uma inquietação diferente e procuro fazer com que a forma se adeque ao que cada obra me pede. Talvez haja constância nas tentativas (falhas ou não) de orquestrar consistência psicológica com a dimensão política e uma linguagem que chame a atenção para o processo, para o artesanato das palavras. Talvez algumas cobranças adornianas me persigam, no entanto, para não exasperar me permito o respiro de um Antonio Candido, mais generoso que o alemão. Muitas vezes tenho em mente a Clarice Lispector ao escrever, e já fui comparado a ela uma vez ou outra, apesar de não alcançar a mesma grandeza e de tomá-la como ponto de partida para desenvolvimentos mais particulares. Por fim, tão importante quanto todo esse caldo, foi ter crescido ouvindo rock, algo que, junto com a ética da psicanálise, me anima a injetar alguma agressividade e carga erótica nas minhas criações.
R. N. – No conto chamado “Férias Conjugais”, que eu arriscaria descrever como uma mininovela, em que a protagonista, após anos inserida em um mundo normatizador, decide tirar férias e passa a relatar suas experiências em um blog. Pensando em uma perspectiva social e literária, como você vê esse conto dialogando com as normas que regulam os afetos? Em que medida essa narrativa tensiona os modelos sociais de convivência e propõe outras formas de imaginar o íntimo e o coletivo?
I. H. – A Brisa, narradora dessa mininovela, sofreu uma das maiores feridas narcísicas que se conhece, a dor da traição amorosa. No entanto, ela reage a isto arrancando de seu marido adúltero um passe livre que explica o título da história. Foi interessante para mim investigar o desejo feminino em vingança e afirmação, e me alegrou o retorno de leitoras me dizendo que consideraram a personagem plausível. A sociedade talvez nunca supere a monogamia como norma reguladora, e não acho que isso possa ser ultrapassado sob pressão, mas estou atento a debates sobre outras maneiras de se relacionar. Gosto muito, por exemplo, da ousadia da Mari Carrara em Se deus me chamar não vou. A meu ver, o mais saudável é que cada casal (ou trisal, ou a configuração que for) encontre e elabore seus próprios acordos. Acordos que podem ou não variar ao longo dos anos de relação, desde que o diálogo permita ao desejo se manifestar sem interdições imediatas, sem automatismos.
R. N. – E para nos dar um pequeno spoiler: você pretende continuar esse fôlego narrativo dessa personagem e expandir para outros textos?
I. H. – A princípio não, porque sei tanto sobre os acontecimentos futuros do casal quanto o leitor. Mas não é impossível: em A Lâmina que fere Chronos, de 2013, narrei desdobramentos do romance Será que pensei que estariam encerrados quando o publiquei em 2007. Se por acaso eu ficar sabendo de novos fatos sobre a Brisa e o Ariel, vou dividi-los com os leitores. Enquanto isso, o que posso anunciar é que tenho na gaveta um novo romance sobre infidelidade e arranjos inusitados, mas com outros personagens. Com sorte, público no ano que vem.

Ivan Hegen, nascido em São Paulo em 1980, formou-se em Artes Plásticas e tem mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP. Trabalhou como tradutor, assessor parlamentar e professor. Publicou os livros A Grande Incógnita (Annablume, contos, 2005), Será (Ragnarok, romance, 2007), Puro Enquanto, (E Editorial, romance, 2009) e Rock Book – Contos da Era da Guitarra (org., Prumo, 2011), A Lâmina que Fere Chronos (Prumo, 2013), Clarice Lispector e as Fronteiras da Linguagem (Ed. Benjamin, 2018) e Brasilis Busílis (Urutau, 2022). além de artigos para diversos sites e revistas sobre estética e política.

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