PATRÍCIA BETAMELLO – Ciclos [crônica]
PATRÍCIA BETAMELLO – Ciclos [crônica]

PATRÍCIA BETAMELLO – Ciclos [crônica]

Início de um ciclo. Primeiro dia de vida da Maria, que bonito. Daqui 30 dias, ela completa um mês. Tem gente que faz disso festa, mesversário, diga-se de passagem, que cafonice são essas comemorações.

Enquanto Maria cresce, a lua vive seus ciclos. Todos certinho, sem uma falha. Já viu falar de lua minguante em tempo de lua cheia? Impossível!

Enquanto Maria cresce e a lua vive suas fases, a Terra dá suas voltinhas, danada, sempre muito pontual, sem preguiça, sem firula. Muito bonito poder contar com a certeza de que naquela hora o sol nasce e naquela outra hora o sol se põe. Dá um quentinho no coração essa previsibilidade, que a gente não faz ideia.

Daí enquanto tudo isso acontece, as estações do ano vêm dar o ar da graça, cada uma com a sua função. Maria já está com 8 anos, e ama o inverno, detesta calor. Reclama para sua mãe todas as vezes em que fica suando, aquele suor que mela seu corpo e tem um cheiro esquisito. Gosta mesmo é de ficar quentinha nas blusas de frio, tomando chocolate quente com a sua mãe na padaria.

Depois de algumas voltas ao redor do sol, Maria completou 12 anos, e mais um ciclo se iniciou, ficou menstruada. A pergunta foi “mãe, quando isso vai acabar?” A mãe, que ainda estava longe da menopausa, deu risada da ingenuidade da filha.

Com 17, Maria transou pela primeira vez. Mais um ciclo se inicia. Percebe, que todos os meses, no mesmo período, fica com um tesão absurdo, e sai por aí, olhando para as pessoas pensando como seria transar com elas. Nem a Monique da rua de cima escapou, Maria se pegou olhando para o decote dela e se perguntou se era lésbica. Mas era só mais um ciclo acontecendo, período ovulatório deixava Maria tarada, por homens e mulheres.

Perdeu sua mãe em um acidente, com 25 anos, em abril. Todos os anos, em abril, pós a morte da mãe, Maria sentia um vazio, e quando parava para pensar, lembrava que talvez fosse porque o aniversário de morte de sua mãe estava chegando. Nunca soube o quanto isso era verdade, mas a tranquilizava pensar que sim. Tantos ciclos para iniciarem, Maria ainda queria ter filhos, fazer outra faculdade, mudar de cidade. Mas estava feliz com aquilo que tinha conquistado, com os ciclos que se encerraram e a perspectiva dos que estava por vir. Quando tinha dúvida de algo, lembrava que do mesmo jeito que sua menstruação vinha todos os meses a cada 27 dias, a vida iria saber exatamente o que fazer, e a previsibilidade e a certeza, eram consequências que eram tão acalentadoras para o seu coração, quanto a lembrança do chocolate quente na padaria com a sua mãe.


Patrícia Betamello

Patrícia Betamello é ex-secretária executiva, ex-professora de História, psicanalista e escritora desde os tempos do Blogspot.

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