PEDRO MARTINS – Maria Milagre [conto]
PEDRO MARTINS – Maria Milagre [conto]

PEDRO MARTINS – Maria Milagre [conto]

O quarto era escuro, sem janelas, as paredes desbotadas, os caibros desgastados rangiam e as telhas soltas vazavam água das chuvas.Era um cômodo depois da cozinha. Três redes armadas. Uma para cada Maria. No canto, uma cômoda de madeira com os pés tortos onde se guardava roupa, papel, terço, broches e algumas moedas em uma sacola de couro. Maria Augusta ensinava a preparar doce de caju que a Senhora gostava de oferecer às visitas. Maria Milagre segurava com as pequenas mãos a colher de pau para mexer o doce que fumegava no tacho. Maria das Dores guardava pedaços de papel que apanhava do chão do quarto de Sinhazinha, quando essa estava na fazenda, para a filha rabiscar algumas frases depois que essa ajudasse a avó no trabalho dentro da casa grande. Era noite de receber os parentes que vinham para ver a Sinhazinha.

— Como andam os estudos da menina? Perguntou a Tia mais velha.

— Vão bem, graças a Deus. Ela tem apreço por português, está sempre lendo e as freiras dizem que se comporta muito bem. Ano que vem, ela vai ter aulas de francês. Dizia Senhora, orgulhosa de si, porque da menina mesmo tinha desgosto.

Com os pedaços de papel amassados espalhados pelo chão, Maria Milagre fantasiava viagens, de trem, de vapor, se imaginava em uma trupe de circo, como uma vez conheceu quando foi a Quixadá, e criava sua história de aventureira dos sertões em letras tortas de carvão. Desenhava vaqueiras, dançarinas, peões, padres, serras, serrotes e açudes. Um mundo para si. Vez em quando escrevia as palavras soltas “pai”, “mercado” e “jardim”. Mãe e avó terminaram de arrumar a sala após a Senhora e Sinhazinha terem se recolhido.

— Mãe, o que é francês?

— Como é, menina?

— Francês! A Sinhazinha vai aprender na escola.

— É coisa de gente mais estudada. Mas não vá perguntar essas coisas à Senhora que ela se zanga com gente curiosa. Interveio a avó com a cabeça para fora da rede.

Quando Sinhazinha retornou, já estava formada e trazia consigo uma máquina de escrever. Escrevia para jornais crônicas da Capital, das mudanças que por lá aconteciam, da praia dos pescadores, dos campos de concentração, das famílias caboclas que migravam para a Amazônia. Por um dia, deixou a Fazenda para encontrar suas primas e primos.  A maquina de escrever brilhou aos olhos de Maria Milagre. A moça já crescida mantinha o encanto pela escrita e vivia a prometer para a avó que um dia escreveria sua história. Levou a maquina para o quarto e tentou pressionar as teclas com leveza para que ninguém soubesse. Escreveu uma carta para uma amiga que havia deixado a fazenda vizinha para ir tentar a vida em Sobral. Enfiou no bolso e só entregou nos correios quando a Sinhazinha já havia retornado.

Maria Milagre tomou o trem para Fortaleza saindo do Baturité. Conseguiu, com trabalho na casa do delegado de policia, juntar dinheiro para uma aventura. A custo de comida pouca, dormir em um quarto apertado, escuro e que cheirava à fumaça. Seguiu para estudar. A amiga de Sobral estava agora morando em uma pensão no centro da cidade e iria ajudá-la. O movimento de pessoas nas praças espantava Maria. Ela gostava de calmaria, tomar chá de camomila, ler, escrever e tomar banho de mar com a roupa do trabalho para limpar a humilhação.

No dia em que conseguiu se matricular na faculdade para ser jornalista levou a amiga e a dona da pensão para comerem peixe na praia e tomarem cerveja. Quem passava as julgava. Aquelas mulheres falavam alto e riam. Na volta para casa, Maria era a mais bêbada, por falta de costume. Sua amiga partilhava o trabalho doméstico, a origem no sertão, as sinas de migrar, fugir e se reerguer, perguntou como andava Maria das Dores, tinha saudades e nunca mais tinha recebido notícia alguma. Milagre se fez silente e séria.

No escritório do jornal onde passou a trabalhar, Maria Milagre ficou sabendo que Sinhazinha, agora uma senhora idosa, ganhava prêmios e notoriedade política ate na capital do país por seus feitos em favor do povo sofrido do sertão e deixou sair um “Não vale nada” com o braço como alça de xícara e torcendo a boca. Seu colega não deixou passar e quis saber mais. Ela pediu sigilo profissional e contou o que havia de muito suspeito naquela família e que um certo agrimensor havia lhe contado trambiques e tramoias da família que anteriormente eram comuns, mas que naquele momento não passariam despercebidos. Ele pediu que Maria Milagre escrevesse então sobre o assunto, talvez como crônica, e poderia lhe dar pseudônimo mantendo a primeira letra do nome e do sobrenome para que a mensagem fosse transmitida. Por semanas e até meses Maria ficou com aquela ideia na cabeça.

Certo dia de domingo foi a Igreja do Rosário, mais por habito do que por fé, pedir serenidade e paciência. Saiu de lá resoluta. Uma matéria ou uma crônica o que quer que fosse escrito com aquela história daria em polêmica e isso atrairia mais leitores ao jornal. Na volta pra casa, lembrava de orações feitas em frente ao oratório da Fazenda, as visitas dos Padres, do livro que ganhou de um deles enrolado em panos com um silencioso pedido de segredo, honesto, por não haver pecado a confessar.

Ao retomar a edição, na segunda-feira, escreveu um texto que nada mencionava da sinhazinha ou da Senhora. A crônica se intitulava “As três Marias” e tratava da história de sua avó com trechos de cantigas de coco e registrando como a avó e suas irmãs faziam folia de reis e louvavam São Benedito. O texto era uma surpresa, por que trazer essa história? essa gente pobre do sertão, falar de festa durante a seca, com tanto assunto de grande repercussão para abordar. Aquele não era o retrato da realidade para a edição. Maria seguia confiante. Seu colega questionou sua audácia. Afinal, foi publicada. Era tão bem escrita que seria um desperdício.

Quando soube do falecimento da avó, Maria mandou dinheiro pra a mãe ir morar junto a ela e seu marido, um professor por quem ela se apaixonou na antiga pensão onde havia morado. Compartilhavam agora uma casa modesta, longe da praia onde os terrenos eram mais em conta para a renda familiar que era pouca mesmo com a influência que ambos tinham em suas profissões. A casa era cheia de livros guardados como tesouros acessíveis a quem respeitasse folheá-los.

Maria Milagre recebeu Maria das Dores na rodoviária. As Marias choraram o luto juntas. Maria Augusta ouviu anos antes de morrer a história das três Marias lida por um primo que tinha estudado as classes iniciais. Ele tomou um jumento e por uma vereda chegou a Fazenda para chamar por Maria à beira da varanda como se precisasse contar um segredo, um segredo de família impresso em jornal. Passados anos do reencontro, a filha resolveu contar para mãe durante um café servido com grude, do filho perdido, do pai, o agrimensor forasteiro, do abandono, da culpa e da dor. A aventura para Baturité, o trem, a vida sozinha contada com lágrimas. A mãe a botou no colo, lhe confessou saber de tudo e prometeu contar do pai de Maria Milagre quando as lágrimas secassem.


Pedro Martins

Pedro Martins é cearense, educador, pesquisador e advogado. Mestre em agricultura familiar e desenvolvimento sustentável, atua junto a organizações de povos e comunidades tradicionais, e pesquisa os temas de terra, territorialidade, raça, memória e direitos.

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