por Soraya Viana,
professora, tradutora e colunista da Revista Navalhista.
Entre a santidade e a imprudência, o suplício
A eterna peleja de forças opostas está no âmago humano e no do mais recente livro de Ricardo Augusto Esposto, O Messias e seu Demônio (Editora Dick Publicações, 2023).
O romance acompanha o personagem Paulinho Francisco Bobo da idade pré-escolar até o fim da vida. Desde criança, Paulinho nota que a abnegação e mansidão são bem vistas pelos adultos de seu convívio. Essa percepção o leva a abrigar-se na persona de “bom menino”. No entanto, sabemos que os impulsos de rebeldia e até de crueldade intrínsecos ao ser humano coabitam nosso interior de forma permanente. Desse conflito interno do protagonista nasce um enredo que opõe potência X controle, violência X passividade, individualismo X coletividade, justiça X vingança e ética X imoralidade.
A narradora da história, apresentada logo nas primeiras páginas, é a imprudência, voz quase sempre silenciada por Paulinho. Por esse abafamento, ele é incapaz de dosar ímpetos passageiros e vontades genuínas. Além disso, não consegue enxergar os próprios limites e delimitá-los nos relacionamentos. A consequência é tornar-se vítima de bullying na infância e adolescência e alvo de outros abusos, inclusive físicos, na maturidade.
Os pensamentos catastróficos de Paulinho na tomada de decisões corriqueiras e seu medo de agir e errar fazem dele alguém infantilizado sob diversos aspectos. Essa característica é ilustrada por meio da linguagem com que se expressa, repleta de diminutivos e hesitações.
Mas por quanto tempo é suportável viver no servilismo e na autoflagelação?
Sendo a narradora uma parte integrante de Paulinho (e de todos nós), a trama proporciona o mergulho numa psique em busca de bondade e perfeccionismo a qualquer preço. Adentrar essa mente confusa, causa do círculo vicioso de vacilações e autoquestionamentos do personagem, faz da leitura uma experiência claustrofóbica.
A trama também explora o inconsciente no plano onírico. Paulinho só ousa expressar seus reais desejos quando dorme. Ainda assim, a autorrepressão está presente, visto que ele tem mais pesadelos do que sonhos.
Outro aspecto abordado no romance sob a perspectiva psicológica é a análise por espelhamento de atitudes das várias personagens que tratam Paulinho com brutalidade. Essa investigação deixa claro que a postura violenta é causada pelas projeções de insegurança dos próprios agressores.
Entretanto, a transferência negativa não é a única debatida na história. Ao apaixonar-se por uma mulher em quem vê os predicados que considera ausentes em si, o protagonista encontra impulso para a mudança e vislumbra uma possível libertação das dúvidas corrosivas. O amor pode vir a ser, então, redentor.

Uma segunda força motora potente para o ser humano, o poder, é evocada após o encontro aparentemente casual de Paulinho com outra personagem. Resultante da conversa dos dois, a afiliação do rapaz a um grupo de caráter místico-filosófico é fonte potencial tanto de elevação quanto de danação para ele. O fato é que o ganho de influência nessa sociedade causará transformações irreversíveis em sua trajetória.
Apesar da forte carga psicológica, a espinha dorsal da obra é predominantemente inspirada por teorias filosóficas, sobretudo o existencialismo. Agregando elementos kierkgaardianos e nietzschianos, Esposto constrói um romance de formação perturbador e investiga o que há entre a benevolência e a tirania humanas e as suas fronteiras dentro e fora de cada indivíduo.
Trecho do capítulo VIII:
“(…) O outro sempre o sabotaria? Toda relação humana envolvia um juiz e um resignado? O aluno e o professor? Tudo seria uma relação de poder tão podre? Não, não poderia! Ou poderia?”
Enquanto Paulinho tenta responder a esse e outros questionamentos, descemos com ele ao inferno. Voltaremos?
Desconcertante, subversivo e profundo, O Messias e seu Demônio é, acima de tudo, uma fábula a respeito do autodomínio e da (im)possibilidade de conciliarmos todas as potencialidades humanas.

Ricardo Esposto é escritor amador, nascido em 11 de abril de 1996. Interessado pelas complexidades da mente humana, transita entre a psicanálise, a filosofia e a ironia como formas de compreender o mundo. É autor de O Messias e seu Demônio (2021), publicado com apoio da Lei Paulo Gustavo, por meio de um projeto aprovado em 2023, e de Caçadoras de Narcisistas (2025). Suas obras exploram as contradições do comportamento humano, o conflito entre moral e desejo e as falsas virtudes que sustentam a vida em sociedade.

![RICARDO ESPOSTO – O Messias e seu Demônio [resenha]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2026/02/IMG_2912-scaled-1.jpeg)