olhar de peixe
evito a respiração pulmonar
ar poluído, ares hostis
idiot wind sopra sobre a terra
prevenido, uso as guelras.
não quero o contato
nem a memória da pele
e dermatólogos conveniados
pra esse tipo de coisa –
estou nas profundezas, escamado.
conversação, orgias, competições
problemas, soluções, exaltações
aos feixes, gente desumana
minha opção é coletiva –
cardumes marítimos e fluviais
sou peixe, preciso de paz.
peixes in aquário
transição de milênio
onde as diferenças
são iguais
e todas as distâncias
vizinhas.
a solução não só líquida:
fique peixe
que a era é de aquário..
dos lagos e tormentas
a flor d’água
o belo, o alfa e o ômega
submerso
Tifão e suas inquietações
obscuras, violentas, instintivas
a emergir.
nas tormentas da artes
Kafka, Hemingway, Poe, Rimbaud,
Freud, Reich, Picasso Dali…
metantropofagia
do abissal ao escatológico
em superfícies
art-ficcionais
há mais planos
traçados por vorazes criaturas
com sede e fome
de incandescência marinha
e transcendência da arte
de ser só
para só ser.
da psique píscea
Ilha longínqua
mar de calmaria
álibi das tormentas
interiores
habitat do Polifemo
antropófago obscuro
a devorar
ilusões id-óticas
canhões luzentes obedecem as trombetas
e uma luz invadiu a Samaria
de repente uma cauda de cometa
incendiou do Ararat a Jericó
fazendo o tempo num compasso diferente
onde se via o desespero dessa gente
e uma safira reluzia a luz do sol
sacrifiquem o cordeiro inocente
para acalmar a ignorante multidão
quando um poeta aparece no improviso
e traz consigo o poder da agonia
faz o cavalo trotar descontrolado
onde se ver o desespero desse bardo
que se perdeu sob o fascínio da euforia.
a queda
tropecei, caí na rua
ao tentar pegar com
as mãos, a lua.

Valmir Jordão é poeta, compositor e performer. Nasceu no Recife, é partícipe do MEI/PE (Movimento dos Escritores Independentes de Pernambuco), desde 1982, nas ruas, praças, sindicatos, cinemas, teatros, escolas, universidades e nos festivais por todo o Brasil. Em 2022, criou o Sarau Diversos com a participação de dezenas de poetas e publicou: Sobre vivência (1982), Poe mas (1999), Hai kaindo na real (2008), Poemas diversos (2013), Poemas reunidos (2015), Poemas recifenses (2019) e O Livro das Mutações (2022).
