Acordei às 5h40. Escolhi a roupa com certo desdém: queria um tubinho preto, uma saia longa ou talvez jeans com camisa. Mas, ao contrário disso, vesti a wide leg e uma blusa fresca de alças finas.
Fui.
Cheguei à escola sabendo que teria dez aulas seguidas. Exausta só de imaginar. Respirei.
Com um humor genuíno tentei ficar na sala de estudo, mas o pensamento nas respostas das editoras me consumia.
Saí do falatório apocalíptico e fui para o 6º ano.
Estavam calmos, clandestinos, até que, do nada, soltaram um flerte com Ritler. Aquilo me desconcertou. Procurei ajuda e recebi desdém da chefia, da máfia do nó mal dado. Debocharam sem debochar. Entendi Kafka. Gui, a barata: esquelética, insignificante, gosmenta.
Por um momento rastejei pelo quarto fechado daquela masmorra mental. Sofri.
As lágrimas agora são amigas fiéis — amargas, ambíguas. São porque não sabem ser outra coisa.
Almocei com o choro na garganta e ouvi:
— Combinados amistosos ajudam. Reforce a lei.
A lei áurea?
Eu… eu… eu…
Fui para alguma aula de outrem que faltou. O cineasta gostou.
Fui para a minha. Soltei um Pink Floyd. Era cura. Era rebeldia.
Eu me senti aluna, criança, barata e massa.
O Pink Floyd gritou The Wall e eu sangrei na repetição fúnebre do coro infantil:
— We don’t need no education.
Não precisamos de educação.
Não desta. Deixem as crianças em paz.

Verônica Coral Venancio é professora de Língua Portuguesa na rede estadual de São Paulo. Escreve desde os treze anos, quando a palavra se tornou abrigo e modo de existir. Entre a sala de aula e a escrita, construiu sua trajetória marcada pela fé na educação como espaço de acolhimento e transformação.
Foi ao retornar à escola onde estudou, a EE Lauro Barreira, que concluiu seu primeiro livro, Os Jardins — obra nascida da dor e da coragem de recomeçar. Atualmente, leciona também nas escolas EE Mário Avesani e EE Maria de Lourdes Nascimento Guerreiro, onde busca fazer da leitura uma experiência de mundo, um gesto de encontro com o outro.
Em sua escrita, Verônica semeia delicadeza e resistência, acreditando que as palavras — como os jardins — podem curar e mudar mundos.

![VERÔNICA CORAL – Deixem as crianças em paz [crônica]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2025/12/1000043090-1-scaled.jpg)