VERÔNICA CORAL – Deixem as crianças em paz [crônica]
VERÔNICA CORAL – Deixem as crianças em paz [crônica]

VERÔNICA CORAL – Deixem as crianças em paz [crônica]

Acordei às 5h40. Escolhi a roupa com certo desdém: queria um tubinho preto, uma saia longa ou talvez jeans com camisa. Mas, ao contrário disso, vesti a wide leg e uma blusa fresca de alças finas.

Fui.

Cheguei à escola sabendo que teria dez aulas seguidas. Exausta só de imaginar. Respirei.

Com um humor genuíno tentei ficar na sala de estudo, mas o pensamento nas respostas das editoras me consumia.

Saí do falatório apocalíptico e fui para o 6º ano.

Estavam calmos, clandestinos, até que, do nada, soltaram um flerte com Ritler. Aquilo me desconcertou. Procurei ajuda e recebi desdém da chefia, da máfia do nó mal dado. Debocharam sem debochar. Entendi Kafka. Gui, a barata: esquelética, insignificante, gosmenta.

Por um momento rastejei pelo quarto fechado daquela masmorra mental. Sofri.

As lágrimas agora são amigas fiéis — amargas, ambíguas. São porque não sabem ser outra coisa.

Almocei com o choro na garganta e ouvi:

— Combinados amistosos ajudam. Reforce a lei.

A lei áurea?

Eu… eu… eu…

Fui para alguma aula de outrem que faltou. O cineasta gostou.

Fui para a minha. Soltei um Pink Floyd. Era cura. Era rebeldia.

Eu me senti aluna, criança, barata e massa.

O Pink Floyd gritou The Wall e eu sangrei na repetição fúnebre do coro infantil:

— We don’t need no education.

Não precisamos de educação.

Não desta. Deixem as crianças em paz.


Verônica Coral Venancio é professora de Língua Portuguesa na rede estadual de São Paulo. Escreve desde os treze anos, quando a palavra se tornou abrigo e modo de existir. Entre a sala de aula e a escrita, construiu sua trajetória marcada pela fé na educação como espaço de acolhimento e transformação.

Foi ao retornar à escola onde estudou, a EE Lauro Barreira, que concluiu seu primeiro livro, Os Jardins — obra nascida da dor e da coragem de recomeçar. Atualmente, leciona também nas escolas EE Mário Avesani e EE Maria de Lourdes Nascimento Guerreiro, onde busca fazer da leitura uma experiência de mundo, um gesto de encontro com o outro.

Em sua escrita, Verônica semeia delicadeza e resistência, acreditando que as palavras — como os jardins — podem curar e mudar mundos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *