Os raios de Sol, filtrados pelas persianas da janela, acariciavam o sofá onde Dona Gilda, munida de Bíblia e celular, preparava-se para o culto online. Diante de si, estava a tela do notebook, que se abriria como um portal do qual surgiriam a salvação, conjurações e pedidos de generosas ofertas para a Obra de Deus. Minutos depois, despontou na tela a imagem do pastor, com um terno mais brilhante que as ruas de ouro e cristal da Nova Jerusalém.
Esse sacerdote começou com a saudação habitual, passou às orações, deteve-se em questões institucionais e fez intimidações, afinal, é pelo medo que se preserva a fidelidade do fiel. Como quem despejava pragas no Egito visando infestar a humanidade, o arauto da fé pôs-se a expor suas revelações: “o mundo jaz no maligno”, “é com a bíblia na mão esquerda e um revólver na mão direita que havemos de varrer o comunismo da face da Terra”. A tudo isso, Dona Gilda assistia com profunda admiração e, sem conhecer o conteúdo do discurso, resignava-se a dizer “amém” sempre que necessário.
Assim que terminava o culto online, a agradável senhora compartilhava o vídeo no grupo da família — o mesmo de onde, na semana anterior, o sobrinho comunista fora banido após dizer que Jesus só pregava a paz e bendizia os pacificadores. Quem rolasse o histórico de conversas daquela rede social veria fotos de armas, discursos de ódio, patriotas orando para pneus, um mito quasímodo e incansáveis “emojis” representados pelo dorso da mão com o dedo indicador apontado para a direita. O Brasil, que sempre uniu fé e mutirões, naqueles dias cobria de pólvora e chumbo o Evangelho.

Lincoln Oliveira é professor de História e escritor de romances e crônicas. Publicou o livro “Oyára – Nascida da Tempestade” em 2025 e está na produção de um livro crônicas chamado, “Crônicas de um Mundo Sombrio” que vem lapidando desde 2019 e que ainda não tem data para publicação.
