As navalhadas do dia ficam por conta de Vitor Silva. Os poemas que seguem estão presentes em Seiva – Poéticas de Prazer e Gozo segundo livro de poemas do autor paulista, publicado em 2026, pela Editora Patuá.
Falatório – O corpo todo uma boca arreganhada
para Stella do Patrocínio
Eu moro no dentro
do dentro do meu corpo
não tenho casa
o corpo é tudo
tudo
tudo que resta
a voz é o que vaza do corpo
eu falo
não escutam
mas minha voz é ingovernável
sou vazante contínua
tudo me escapa pela boca
o mundo pra mim é
o que vejo do mundo
o que ouço do mundo
o que cheiro do mundo
o que lambo do mundo
o que toco e me toca
toco e me toca
toco e me toca
o mundo é o que me cerca
e o que penso do mundo
dentro da minha cabeça
o universo cabe na palma das minhas mãos
o que sei do mundo
só você não vê
eu me encolho feito bicho
pra caber aqui
mas eu não caibo não
eu me encolho
me embolo em mim mesmo
é o lugar que resta.
Bicharada
para Daniela Rezende
dos chamados macacos
das chamadas vacas
das chamadas galinhas
dos chamados veados:
algo de selvagem nas garras afiadas
nos dentes que mordem
na habilidade do ataque
só um aviso
só um alerta:
melhor não mexer com essa bicharada
melhor não.
Jóia
ser apenas vitrine para que a pedra brilhe
(Zainne Lima)
às vezes a vida amarga na boca
olhar a vida com os olhos de poesia
é melar de mel a ponta da língua
inventar outras possibilidades de existir por excelência
metendo o pé fora do mapa traçado pra nós
chutando o balde com desobediência
aguando lágrima e gozo
ser mais que dor
ser mais que pedra
pesada fundo cá dentro
é pedregulho empedrado no peito
doce seria viver a vida como nesse poema
residir no verso
palavra é rochedo.
Selvageria
Um homem de quatro patas
é caminho aberto
convite pra ir mais fundo
lambuzar o animal
com a seiva da ponta do caule
ao tocar o dentro do que se quis
presa fácil.

Vitor Mateus da Silva, poeta, pensa palavra enquanto modo de ocupar e se articular nas encruzilhadas e contradições de ser e estar no mundo. Participou das antologias: Candeeiros (ed.Andross, 2022), Poemas Negros (ed.Arte da Palavra, 2024), Vozes Negras em Santana de Parnaíba (publicação coletiva independente pela Lei Paulo Gustavo, 2024), Gozo na Alma (ed. Palavra Ferida, 2025) e Palavras são Navalhas (ed. Sertão Pasárgada, 2026). Lançou seu primeiro livro de poemas O poeta são coisas que não cabem aqui, pela editora Urutau em 2025. Seu mais recente livro Seiva – Poéticas de Prazer e Gozo, saiu em 20026 pela Urutau.
