antes de ir como pequi
antes de ir como pequi. os ossos de galinha nos pratos me dão isca fixa o olhar. eu penso ano de escorpião. sabia que são ovos de jacaré? a libido. lavo a mão três vezes, uma com detergente. não sai. caipira
faz tempo que não escrevo e minha mandíbula
faz tempo que não escrevo e minha mandíbula lateja há duas semanas. desconfio da falta de latir. latim não preenche a falta, e sei mesmo nada sobre latim sequer uma palavra. fui à psicóloga numa consulta prática – não lati; português, foi o que falamos. ela me perguntou anda fazendo o que co’a raiva. a verdade é que tanto latim tem o passado, que vou contando a ela, desnotado, cada palavra vai contando mesmo, um pouco, desde raiva. mas penso. sentir raiva de tudo é sentir raiva de nada. pronto, todavia, são meras, e muitas, as raivinhas espalhadas. eu vou latir. que diacho anda se passando? escovei os dentes pra latim pressa gente mesmo? ok talvez estejam faltando, as consoantes, na boca; dã são os sisos (que me arrancaram) os quatro, como kenia, com K, professora minha de teatro que diz: as consoantes explodem na boca e tem que morder o ar porque palavra é realíssima, como ar também é, vê, sendo tudo um pouco de massinha e essa parte eu quem disse. que se explode, lateja. palavra! saída! custa! está certo eu vou cravar os dentes ao ar à minha frente e ler latim latejando.
confesso que nesses dias inventei as beterrabas
confesso que nesses dias inventei as beterrabas, fingi um derrame na frente da tv. confesso que as calcinhas no varal me fizeram dançar um forró junino meados de setembro. confesso todos os gozos que não gozei e que os latidos que acordam a vizinha vingam alguma coisa sem nome dentro de mim. afinal confesso o que acontece nesse vendaval de meu deus
confesso o nato que as amoras me dão. confesso os paradoxos eu-tu na ciência das aftas. confesso teus sentimentos pro padre mais próximo em 10 charadas numa única vez. confesso que escondo há anos escritórios nos cupinzeiros; confesso confesso e ainda não fomos abduzidas
claro está
as palavras quase se recusam a confessar
as palavras acontecem desconversando
as palavras confessam acontecendo

Pâmela Germano é multiartista, nascida no DF, e mergulhada na pesquisa da cena e do corpo. Graduada em Artes Cênicas pela Universidade de Brasília (UnB), como atriz trabalhou em streamings, e reúne 5 longas e mais de 7 curtas metragens em sua trajetória no cinema nacional. Participou de festivais nacionais e internacionais. No teatro, é atriz criadora dos espetáculos “Nessa Noite Perfumosa” e “T.O.M.A.D.A”. Já no campo da imagem, é criadora visual do universo simbólico da banda cerratense Kirá, em sua contínua busca dos truques entre imagem, palavra e rabisco. Escreve desde que se desentende por gente.

![PÂMELA GERMANO – 3 pequenos textos [crônica]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2026/07/Pamela-Germano_P7A9826-scaled.jpg)