CÁSSIO LEONARDO AMORIM – Inflorescência [conto]
CÁSSIO LEONARDO AMORIM – Inflorescência [conto]

CÁSSIO LEONARDO AMORIM – Inflorescência [conto]

Deixou um prato cair enquanto lavava a louça; quebrou. Isso vinha acontecendo com muita frequência, era o terceiro prato só nessa semana. Dessa vez, ele tinha ficado atento, segurando as vasilhas com firmeza para que não caíssem, pois sabia que ouviria novamente aquele mesmo som e se assustaria, como tem acontecido nos últimos meses. Desconfiava que vinha do jardim, de uma das bromélias imperiais. Planejou que, no outro dia, quando fosse lavar a louça do jantar, iria acender as luzes do jardim; o barulho vinha de lá, e como podia ver o jardim pela janela da cozinha, pensou que, com as luzes acesas, poderia identificar de onde vinha aquele som ou, pelo menos, confirmar de qual das bromélias. Limpou os cacos do chão da cozinha e foi dormir.

O dia passou calmo, quente, sem grandes questões. Lavou a louça do almoço e esperava ansioso para o jantar; de hoje não passa, pensou, vou descobrir de onde vem esse barulho. Não escutou o barulho; ficou um pouco irritado, estava mesmo decidido a desvendar esse pequeno mistério. Se passaram mais alguns dias sem ouvir aquele som novamente; ele já tinha quase esquecido, pelo menos as louças permaneciam intactas.

Depois de 8 dias, sem nenhuma novidade, ouviu novamente o som, ao longe; era como um assobio, um assobio baixo que parecia chamar alguém ou alguma coisa, mas era um assobio lento, ritmado. Largou o copo que estava secando e correu para o jardim; o assobio parou abruptamente. Teve a impressão de ter visto algo se mexendo na grama, mas quando firmou o olhar, não viu nada. Notou que uma das bromélias imperiais estava florescendo; os beija-flores viriam. Não deixou de notar que a grama do jardim estava muito alta; telefonaria para o jardineiro no dia seguinte.

O jardineiro veio depois de alguns dias; quando chegou, exclamou sorrindo: “Benza Deus, essa bromélia está uma maravilha! O ruim é que elas morrem depois da floração.” Ele já sabia disso, mas sentiu um nó no peito. E entendeu o fato do jardineiro ter elogiado a floração da bromélia; era de fato muito bonita, consistia em um grande caule de onde saem várias flores amareladas, que atraiam insetos e beija-flores; o caule e as folhas eram avermelhados, era uma planta magnífica e dramática, tipicamente brasileira, fazia jus ao nome.

Depois da grama cortada, os dias foram passando, e as flores continuavam a sair; e nada de ouvir aquele assobio novamente. Via as folhas morrerem lentamente, secavam e deixavam o jardim mais triste, mas não havia nada que pudesse fazer, a não ser assistir. A inflorescência ia crescendo; a planta, cada vez mais fraca, porém com flores vivas, vibrantes. Era bonito poder acompanhar aquele processo e perceber como a vida dos homens era parecida com a vida daquela planta. Ele bem sabia que, após a floração, brotam outras bromélias, e a primeira, na verdade, nunca morre; ela se espalha, e nós também, pensou.

Em um domingo, estava cuidando das outras plantas do jardim; era de manhã bem cedo, o sol ainda fraco, enquanto estava ajoelhado em um canto do jardim podando os fórmios, ouviu novamente o assobio, dessa vez muito próximo. Virou rapidamente para onde acreditava que vinha o som e viu um homem pequeno, avermelhado, com o rosto arredondado; tinha cabelos muito lisos e muito pretos. Ele estava assobiando, atrás da bromélia. Ficou paralisado de susto; fechou os olhos e, quando os abriu novamente, o homem não estava mais lá.

Não conseguiu se desfazer da surpresa tão facilmente; se passaram dias até que pudesse se recuperar do susto. Continuava pensando na bromélia imperial que insistiu em florir e morreu, lançou ao céu uma estrutura dramática, vermelha e amarela, como um estandarte fúnebre. Achou de muita delicadeza da natureza que ela tivesse morrido depois do seu grande ato. “Tomara que seja assim comigo também”, desejou. Ainda espera ouvir aquele assobio novamente enquanto lava as louças


Cássio Leonardo Amorin

Cássio Leonardo Amorin é jornalista mineiro de 31 anos que escreve com os pés na terra e os olhos na poesia. Publicou crônicas em jornais de Minas e assinou grandes reportagens. Inspirado pela literatura brasileira, atravessa o cotidiano em busca de histórias onde o real e o imaginado se entrelaçam com lirismo e presença.

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