Ela vai ver só, a Margarida, vai ver só que eu vou aprontar pra ela, vou com certeza. Ela que não venha me ver aqui no final de semana…que ela não sabe do que eu sou capaz aquela rapariga filha duma… não que a mãe dela sou eu. E eu lá vou me xingar euzinha mesma? Eu não. Margarida, pra que foi que eu te pari se não pra me cuidar na minha velhice? Agora eu tô aqui, fodida ao quadrado, e aquela rapariga desgramada nem pra me ver. Mas ela vai me pagar, ô se vai. Vai me pagar ou eu não me chamo Cenira da Silva Alves. Ela pensa o quê? Que eu tive todo o trabalho de parir aquela, ah eu vou falar e que se foda, aquela filha duma puta putíssima, que paguei estudo pra ela, ela quis ir pra faculdade, pois paguei também. Achei que nunca que ela ia achar marido, logo aquela baitola larga ela que nem o filho da puta do pai dela me largou porque a sina dela é a mesma que a minha que não pego um homem que preste. Pelo menos aquele filho dela faz ela pagar um dobrado, isso faz. Aquele moleque só arruma confusão. Vem aqui e só quer saber de celular, não olha nem na cara da gente. Mas agora eles vão se ver comigo, a Margarida e o Douglas que aquele marido dela eu quero mais é que se foda que nem chegue aqui mesmo. Onde já se viu falar pra mãezinha da mulher dele que é pra eu ficar longe dela? Ah coitadinha da Margarida, depressão pós-parto é o cu cagado dele. Isso é preguiça, na hora de fazer não achou ruim né? Agora que tem que ficar acordada de noite, sentir o bico do peito rasgando pra dar de comer pra cria dela, agora é depressão? Na minha época não tinha essas frescuras aí não. Mas nem assim aquela filha da puta vem me ver, ingrata. Margarida, sua ingrata! Vem aqui, Rolo, meu Rolinho querido. Só você me ama, né meu cachorrinho? Vem aqui com mamãe? Não, foge assim não, desgraçadinho. Nem você me quer, né? Isso, vem aqui com a mamãe, agora que me viu chorando você vem né? Vou ligar praquela ingrata da Margarida e vou avisar ela que ou ela vem aqui ou… Mas ninguém atende naquela merda daquela casa? Margarida? (faz uma voz chorosa) Margarida, minha filhinha, você não vem me ver? Eu sei que você tem mais o que fazer, mas faz dias que eu tô aqui sozinha, largada. Você é minha única filha, Margarida… É, Margarida? Pois aguarde, que se você não vier, eu vou aprontar pra você. Não vem com essa de “ah, mãe” pra cima de mim não, sua ingrata, que eu vou aprontar. Pra você e pra todo mundo. Vou sim. Desliguei essa merda na cara dela mesmo. Aquela ingrata. Mas ela vai ver só. Lá vem a Cida e o seu Nilo.
– Dona Cenira?
– Ahn?
– Tudo bem aí?
– Tudo.
– A gente vai descer hoje, a senhora se precisar de alguma coisa, é só avisar o Juliano. Ele tá de serviço, mas amanhã cedinho tá aí.
– Tá bem, Cida.
– A senhora tava chorando?
– Não, claro que não.
– E a Margarida?
– Se minha filha não vier, ela vai ver só o que eu vou aprontar pra ela…
– Que que a senhora disse?
– A Margarida, vou aprontar pra ela!
– Credo, dona Cenira, fala uma coisa dessas não!
– Bem, dona Cenira? Vamos, Cida? Senão a gente pega trânsito.
– Vamos, vamos. A senhora fica bem aí?
– Fico sim.
Vou aprontar pra ela… aprontar pra ela… Nem me atender ela me atende. Rolo, meu Rolinho querido, vem aqui. Isso fica aqui no meu colo.
– Rolo? Vem Rolo, você vai pra praia também!
Até o Rolo levaram… Eu vou ficar aqui sozinha, ninguém vem aqui, ninguém quer me ver. Eles vão ver só, vou aprontar pra todo mundo… É muita desgraça mesmo pra uma velha que nem eu… Tá, tá bom, vão lá pra praia, eu fico aqui sozinha, largada. Ninguém liga pra mim mesmo. Porque quando aquele merda do pai da Margarida me largou foi o começo de tudo isso. Mentira, começou com meu pai que era caixeiro. Só viajava, só viajava… Até que viajou mesmo pra sei lá onde. Depois o pai da Margarida, caminhoneiro. Maldito o dia que subi na boleia daquele desgramado! Tchau, dona Cida, tchau. Não, eu vou ficar aqui sozinha. Vai levar o Rolinho né? Então leva, filha da mãe. Nada, não disse nada. A Margarida que se cuide porque daqui a pouco aquele bosta que ela chama de filho vai engravidar uma putinha, aí sim eu quero ver depressão pós-parto. Vai criar o neto e engolir o choro. Engolir o choro que nem eu fiz quando ela nasceu. Era assim, engolia o choro pra dar o peito pra ela, o leite devia sair salgado de tanta lágrima engolida. Agora nem consigo mais, o olho toda vida molhado, regurgitando essa aguinha o tempo inteiro. Lencinho que nada, não adianta. A gente vai ficando velho e vai se enchendo de coisa. Sinto a barrigada podre. Podre de tanta desgraça na minha vida. Ó o barulho do carro, e lá se foram os dois. Sorte de a dona Cida ter um marido bom. Queria eu ter tido essa sorte. Mas eu só me fodo, só me fodo nessa vida. O pai da Margarida foi morrer esmagado lá no Mato Grosso, disseram. Eu acho que é tudo mentira, isso sim. Aquele biscateiro deve é ter arrumado mulher e filho por lá. Pra quê voltar? Só eu que fiquei com a Margarida, aquela menina doente, toda hora com problema. Era bronquite, crise de asma, estômago fraco, intestino solto, não podia comer um nada, toda vida magrela daquele jeito. Ainda se tivesse corpo que nem eu, nem bunda tem aquela malparida. Pelo menos isso eu tinha na idade dela. Agora caiu tudo, não dá pra confiar em ninguém mesmo, nem no próprio corpo, até esse abandona. Mas ela vai ver. Se ela não chegar aqui até as três da tarde, de hoje não passa.
– Margarida? É o Juliano. Isso. Olha, eu acho melhor você vir aqui. A casa tá toda trancada, eu tentei dar uma olhada… Isso, só que ela não abre a porta. Tá, tá bom. Tô esperando.
– E aí, cara, ela tá vindo?
– Disse que tá.
– E você não falou pra ela?
– Falar o quê?
– Ué, que você viu a velha caída pela fresta da janela.
– Eu, não! Você acha mesmo que eu é que vou dar a notícia ruim?
– A velha tá morta, cara! Tu não sentiu o cheiro de merda?
– Claro que eu senti, né? Fui eu que olhei pela fresta. Você é cagão. Vai ver o cheiro de merda era teu mesmo… Hahahahahah…
– Fica rindo aí, trouxa. A velha morreu nos fundos da tua casa, você que vai ter que lidar com a assombração dela vindo puxar teu pé!
– Sai fora!
– Vou ligar pra minha mãe avisar ela que a dona Cenira bateu as botas… Mãe? Oi, mãe. Tudo, quer dizer, mais ou menos. A dona Cenira… É, então, eu fui lá olhar ela, só que… É que eu acho que ela morreu, mãe. Tô te falando mãe, é sério. Eu liguei pra Margarida ela disse que já tá vindo. Sim. Tô aqui esperando. Tá, tá bom.
– E aí?
– Ela falou que tá subindo com o pai.
– Oh, barulho de carro. Deve ser a Margarida e o Douglas.
– Cadê minha mãe??
– Calma, Margarida.
– É, calma! Vai correr por que se a velha já…
– Cala a boca, Zé!
– Como assim? O que que ele tá falando?
– É que a gente acha que a dona Cenira…
– Mãe!!!
– Peraí, não arromba a porta, eu acho que dá pra entrar por aqui.
– E por que você já não entrou?
– E eu lá vou entrar na casa dos outros assim? Tá doida?
– Abre logo essa janela!
– Meu Deus, que cheiro horrível!
– Mãe!!
– Olha aí os remédios dela tudo espalhado em cima da cama.
– Ih, cara, as caixas tudo vazia… Isso aí não tá certo não…
– Ela falou, ela me ligou e disse que ia aprontar uma pra mim…

Jeanine Geraldo é Doutora em Letras pela Universidade Federal do Paraná. Possui graduação em Letras Português/ Inglês e mestrado em Linguagem, Identidade e Subjetividade. Atualmente é professora do Instituto Federal do Paraná e líder do grupo de pesquisa em Literatura, Cinema e Ensino, criado em 2018. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em crítica literária. É autora de “O animal que me tornei”(2018), “As folhas vermelhas do outono” (2020), premiado pela Secretaria de Cultura do Estado do Paraná (Edital 003/2020 – Licenciamento de Obras Digitais), e “Alcateia” (2022).

![JEANINE GERALDO – A velha Cenira [conto]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2026/01/Foto-para-divulgacao.jpg)