No início, tudo era choro.
O choro foi nossa primeira expressão no mundo, estreamos a caixa torácica ao expandir os pulmões para o primeiro canto de liberdade, e provavelmente o único.
Deitados em berço esplêndido, manifestamos nossas vontades e desagrados com nosso brado retumbante. Se antes nosso choro era interpretado por nossos cuidadores a fim de atender nossas demandas, hoje choramos justamente por ter nossas necessidades negadas: negadas pelo capitalismo, negadas pelo cesto de roupa suja, negadas pelo transporte público, negadas pelo nosso chefe.
No início havia o choro e depois também.
O choro não é tão livre assim.
Choramos quando perdemos o ônibus, choramos com a morte do Mufasa, choramos com a notificação do WhatsApp. Conforme crescemos, o ato de chorar vai deixando de ser atividade do âmbito público e torna-se privado, ocorre um estranhamento do choro nos adultos, pelos próprios adultos e, infelizmente, muitas vezes sendo encarado como descontrole emocional. Se chorar é tão natural quanto respirar, por que é tão condenado quando nos tornamos marmanjos barbados?
Há algo tão bonito no choro – repare quando alguém que não é você está chorando- a lágrima que cai nos desmascara e revela quem somos de verdade, desfazendo independentemente do personagem que você decidiu usar hoje.
Se vir alguém por aí de olhos inchados e vermelho como um pimentão, sejamos mais acolhedores e empáticos. Vamos nos abraçar na fila do mercado, chorar juntos pelo preço das compras e dizer “tá foda, irmão”.
Afinal, ninguém é “inchorável”.
Ninguém é tão forte assim, apenas bom o suficiente em fingir que aguenta bastante pancada.

Pammela Gonçalves é formada em Letras-Português pela Universidade Estadual do Paraná. Publica crônicas nas redes sociais e em revistas literárias. Escreve sobre o que vê, o que lembra e o que imagina. Atualmente, desenvolve projetos autorais em prosa.

![PAMMELA GONÇALVES – Descriminalização do choro [crônica]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2026/05/1778425737488.png)