CILENE RESENDE – O mar é uma pista de dança [resenha]
CILENE RESENDE – O mar é uma pista de dança [resenha]

CILENE RESENDE – O mar é uma pista de dança [resenha]

por Mayk Oliveira

poeta e colunista da Revista Navalhista

Crônicas de fogo e água

Durante muito tempo, a literatura reservou às mulheres o espaço do silêncio amoroso, da culpa ou da existência como mero reflexo do olhar masculino. Quando escritoras transformam o corpo e a paixão em linguagem, acontece uma reconciliação entre voz e existência. O desejo feminino deixa de ser visto como excesso ou ameaça e passa a ocupar o lugar de força criadora, capaz de reorganizar a maneira de sentir e perceber o mundo.

A escrita de Anaïs Nin é um marco importante nesse processo. Sua literatura colocou a mulher para além da condição de objeto desejado, tornando-a sujeito do próprio desejo. Um corpo que escolhe, imagina, narra e conduz sua própria experiência afetiva. Nin percebia que muitas mulheres eram educadas para servir emocionalmente aos outros, mas raramente incentivadas a reconhecer suas próprias vontades. Isso pode parecer natural hoje, mas por séculos a literatura erótica esteve quase sempre submetida ao olhar masculino, enquanto o desejo feminino era reprimido, domesticado ou moralizado.

A poesia de Cilene Resende segue intensamente esses trilhos e transforma o desejo numa força transformadora e inteiramente ligada à liberdade individual. Podemos constatar isso no seu livro de estreia “O mar é uma pista de dança” (Polifonia, 2025), onde a autora constrói um eu lírico que não teme desejar, mergulhando no desejo fazendo igual a quem ousa entra no mar sabendo que será atravessada pelas ondas.

E o desejo nos seus poemas não obedecem à lógica. Ele pode ser contraditório, poético, perigoso, excessivo e o que mas desejar. O livro aceita as ambiguidades humanas sem tentar moralizar tudo. O eu lírico “sereia” fala e sente tanto amor e desejo que já não sobra espaço para monstros marinhos. O mar, antes ameaça, tornar-se extensão do corpo apaixonado.

Entre tanto poemas simbólicos, “Molhado de água do mar” seja o poema que melhor sintetize o espírito da obra. Logo nos primeiros versos, “Quero tirar a sua roupa a trinta horas de distância”, o livro já anuncia seu tom: o desejo ultrapassa espaço, lógica e cronologia. O amor cria geografias próprias. A autora utiliza o mundo como metáfora do próprio sentimento (o mar, a dança, o cheiro, o travesseiro, os giros do corpo). A autora se utiliza da mais genuína das retóricas: usar o mundo para explicar aquilo que explode dentro dele.

É com imenso furor que se constata a beleza da descrições do enamoramento. Como é bom estar apaixonado e dizer tudo que se pensa, após ler todo o livro. Existe uma coragem delicada e lasciva nesses poemas. O eu lírico não racionaliza demais o afeto; ele simplesmente o vive. Quando pergunta “Posso tocar você?”, a pergunta carregar outra camada: “Posso existir plenamente dentro desse desejo?”. A resposta que nunca vem de forma direta é a própria linguagem funcionando como toque.“Só precisa me segurar e girar.” Amar é movimento compartilhado. Existe sensualidade, mas existe sobretudo comunhão. O corpo antes postulante a ser prisão moral, agora, tornar-se território de encontro.

Essa dimensão do desejo como vertigem emerge ainda mais intensamente no poema “Perigo”. Nele, Cilene Resende abandona qualquer tentativa de domesticar a paixão. “Você pode me amar e me lamber, / me chupar e me foder” são versos que rompem deliberadamente com o pudor tradicional imposto à escrita feminina. Mas o impacto do poema não se restringe a sexualidade explícita. Você se engana com isto, porque na verdade ela está igualmente equilibrada na vulnerabilidade que vem logo depois: “Subitamente tudo isso é demais / e nada disso é suficiente”. O desejo é, ao mesmo tempo, excesso impossível de conter e falta impossível de preencher.

O título do poema é preciso. Amar é perigoso porque dissolve limites. Há perigo“no barulho ou no silêncio”, e essa percepção transforma o amor numa experiência quase comum. O arrepio citado é físico e é existencial. Desejar alguém profundamente significa aceitar o risco da queda, da perda de controle, do abismo emocional. É esse emergir e submergir que mergulha e que seduz.

Cilene escreve com os sentimentos pactuados em definitivo com a linguagem. Existe a sensação de que ela aprendeu a escrever para exteriorizar aquilo que transborda dentro dela, e na tentativa de compreender a própria intensidade afetiva. Sua poesia busca o entendimento enquanto canta. O eu lírico se move como uma sereia que não quer destruir marinheiros, no entanto traduz o indizível através da voz.

Quando escreve “Aprendi a pecar depois que te tornaste meu demônio”, Cilene Resende aproxima amor e vertigem, tornado-os simultaneamente a perdição e salvação. A imagem dialoga com figuras femininas da tradição literária que historicamente foram vistas como perigosas justamente porque desejavam — das sereias homéricas às mulheres dionisíacas. Mas, “O mar é uma pista de dança” (Polifonia, 2025), esse perigo já não carrega condenação; ele se converteu em liberdade sensível.

As metáforas do livro são do tamanho do mundo. Há uma entrega absoluta ao desejo, como se tudo precisasse ser vivido até o limite: queimando até o fim, afogando-se até o fundo, amando até não existir margem entre corpo e mar. É o tudo e o nada coexistindo na mesma onda. Desejo incandescente, latejante. E o mar surge como a grande metáfora da imensidão. O eu lírico tenta alcançar, metaforicamente, todas as medidas possíveis para traduzir o volume dessa paixão.

Se for brasa, que queime; se for água, que afogue; se for sede, que beba o mar inteiro; se for distância, que atravesse a velocidade da luz; se for fragilidade, que se despedace; se for força, que alcance o sol. Há uma dimensão profundamente libertadora quando uma mulher escreve o desejo sem precisar suavizá-lo ou pedir licença para senti-lo. Em “O mar é uma pista de dança” (Polifonia, 2025) da poeta Cilene Resende, amar é verdadeiro transbordamento de liberdade.


Cilene Resende

Cilene Resende nasceu em Maringá, no Paraná. Escritora, advogada, empresária e formada em ballet clássico — lançou seu primeiro livro solo, O Mar É Uma Pista de Dança, durante a FLIP 2025, após ser finalista do Prêmio Nacional Escritoras Brasileiras na categoria Poesia.

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