“Cheguei” — disse Eric pelo interfone do prédio baixo, de janelas largas, localizado em Pinheiros.
“Pode subir” — respondeu Dani, tentando acalmar o cachorro que latia sem parar.
Enquanto Eric passa pela porta deixada propositalmente entreaberta, ela comenta:
– Caramba! Você voou do Campo Limpo até aqui, hein!
– Sou ligeiro – comenta ele com um sorrisinho de canto de boca.
– Aposto que quase causou um acidente.
– Não sou você não! E tava sem trânsito ali na Caldeira Filho. Ó, trouxe umas cervejas.
– Tá. Senta aí que eu vou pegar umas coisas na cozinha pra gente então. Nossa Eric, desde que minha avó se mudou de lá, faz tempo que não passo pela Caldeira Filho. Deve ter mudado tudo – disse Dani enquanto deixava a sala.
Eric esperava sentado no sofá e não podia deixar de observar cada canto do apartamento de Dani. Luzes baixas, uma vitrola tocando um LP do Belchior e muitos quadros, plantas e livros.
“É a cara dela esse lugar”. Ele pensou.
A moça ia e vinha da cozinha trazendo copos, baldes de gelo com latas de cerveja, pratos, talheres, guardanapos e uma tábua de queijos e embutidos artesanais — de tantos tipos distintos que Eric só fitou a maioria. Ele ficou tão confuso com a variedade, mas também envergonhado o suficiente para perguntar o que era o quê.
Resolveu quebrar o som do tilintar de utensílios na mesinha à sua frente:
– Duvido que você leu todos esses livros.
– É óbvio que li, né Eric!
– Pode crer, você sempre foi muito inteligente mesmo. Nem parece aquela magrela chata que eu conheci.
– Primeiro que você namorou essa magrela chata. Segundo que sim, você sabe que eu sempre amei estudar. Diferente de você. – ela logo soltou uma risada desaforada.
Sentados cara a cara, Eric e Dani continuam as provocações adolescentes como se tivessem voltado há 23 anos.
– Lembra aquele dia que você deu um xilique de ciúmes no cinema?
– Eric, eu nunca tive ciúmes de você. Você adora acreditar nisso, mas não é bem assim. Eu só achei a menina abusada. E nem foi xilique como você tá insinuando aí, foi somente um comentário. Ela estava na nossa frente na fila da pipoca, mas virada pra trás, te encarando. E pior, comigo do seu lado!
– Viu, só? CIUMENTA SIM! Uma ciumenta que beijava muito bem, diga-se de passagem.
A lembrança do beijo animou a Dani.
– Eu lembro do dia que aquele teu primo do interior quase pegou a gente transando na sua casa. Lembra, Eric? A gente tava na sala vendo alguma coisa na televisão, eu comecei a te beijar, coloquei a mão dentro da sua calça… eu tava quase sentando em você e ele chegou mais cedo não me lembro de onde. Baita susto!
– Nossa, como você é boca suja. Mas é claro que eu me lembro disso. Inclusive deve fazer uns 10 meses que eu não transo. Triste!
– O que? Como assim, Eric?
– Ué! Fazer o que? Ninguém quer transar comigo. Pensa que tá fácil, é?
Eric começou a transpirar pelas entradas na testa e seguiu.
– Mas você ainda tá muito linda! Mano, o que você faz pra continuar assim? – Ao terminar a pergunta Eric tinha acabado de bater a mão de maneira desastrosa no próprio copo de cerveja e que estava na mesinha ao lado do sofá.
– Eita! Deixa eu pegar um pano pra limpar essa bagunça no chão antes do cachorro lamber essa cerveja toda. Você não muda, né Eric. – Dani saiu rindo.
Três horas depois da chegada de Eric, o toca-discos já rodava quase toda a coletânea do Belchior.
– E você não quer ter filhos mesmo?
– Ah, Eric, acho que meu momento já passou. E tá tudo bem. Tenho apenas que me preocupar em cuidar da saúde e da conta bancária pra ter uma velhice em paz. E como está sua filha?
– Tá ENORME. A bicha não para de crescer. Vai ficar igual a chata da mãe dela: alta e linda. Só espero que não fique chata igual a Suzana mesmo.
– E vocês costumam viajar juntos?
– Vou levar ela pra Caraguá esse final de semana. Vai fazer um baita calorão mesmo. E você? Vai pra qual canto do mundo dessa vez?
– Eu tô programando uma viagem sozinha pras ilhas do Pacífico. Samoa…Fiji. Sabe?
– Oxe, onde fica isso?
– Perto da Austrália, Eric.
– Longe demais. Tá doida, Dani. Eu morro de medo de avião e praia é tudo igual. Fora que pra mim não faz sentido conhecer lugares fora antes de conhecer o nosso país.
– Eric, quando você vai me beijar, hein?
– Dani, você tá ligada que sempre me chama pra essas coisas e depois desaparece, né?
– Ué, mas você também não tem meu telefone?
– Tenho.
– Então?
Eles se olham em um silêncio quase inédito para aquela noite. Dani se levanta para pegar na cozinha mais cervejas e o que sobrou das comidinhas.
– Mas me conta, Eric, como tá a sua oficina mecânica? Você tinha aberto uma segunda oficina, não era?
– Fechei! Ah, os caras não querem trabalhar e sobra tudo pro tonto aqui. Sabe quem tá trampando comigo lá?
– Quem? – Dani arregalou os olhos castanhos-escuros de curiosa
– O Tião, irmão do Eduardo Fernandes que estudou com você na sétima série. Lembra?
– Meu Deus! O Tião foi o que colocou fogo na cantina, não é?
– Esse mesmo! Ficou preso por não pagar pensão e tava precisando muito de trampo. Até que tá indo bem…
– Que legal, Eric. Pelo menos ninguém pode falar que você não ajuda as pessoas, né?
– Ah, eu tento. Elas que abusam às vezes.
– Pessoas são péssimas na sua maior parte mesmo.
– E teu pai, Dani? Tá bem?
– Talvez. – Ela dá de ombros. A gente não se fala há uns 5 anos.
Agora foi a vez de Eric arregalar os olhos pretos de surpresa.
– Ah, Eric. Você sabe como funciona. Ou melhor, como não funciona. Com o meu pai, tudo é difícil, sabe? Nada tá bom pra ele. Fora que eu e o Seu Valdir vemos a vida de formas com-ple-ta-men-te distintas. Ele insiste em passar horas tentando ditar como eu devo viver minha vida. Cansativo!
– Mas é teu pai, né Daniela!
– E?
– E daí que é obrigação tua também de procurar por ele, Dani.
– Você acabou de falar a palavra que eu mais odeio: obrigação. Eric, eu já sou obrigada a muita coisa. Você sabe que meu trabalho na agência não é nada fácil. Ainda mais quando se é mulher no mundo da publicidade, o peso do julgamento e das obrigações se multiplicam.
– Ih, lá vem o papo de feminismo de novo.
Dani para e apenas olha para Eric com um olhar de desaprovação. Ela abaixa a cabeça e diz:
– Acho que acabou a cerveja…
Nesse momento Eric faz um movimento com o corpo para frente e os dois se beijam. Dani pega Eric pela mão e o leva até seu quarto. Deitados nus, de barriga para cima… Eric não se segura.
– Você acha que eu faço sexo bem?
Ela dá uma risadinha e responde:
– Olha, você precisa ser menos egoísta, né?
– Poxa, Dani, o que você quer dizer com isso? – ele se vira de lado em direção à ex.
– Eric, no sexo os envolvidos devem gozar. Não é porque você gozou que tá tudo acabado.
– Mas você não gozou, Dani?
– Não.
– E todos esses gemidos aí?
– De prazer, sim. De orgasmo, não.
– E como eu faço pra saber a diferença então?
– A tua parceira precisa de tempo de foda pra te contar, Eric. Ou você mesmo pode perguntar.
– Tá, mas e se ela falar que não gozou igual você me disse agora? Que que eu tenho que fazer?
Dani se levanta da cama e começa a se vestir apressadamente.
– Eric, sério! Quantos anos você tem mesmo?
– 43.
“Eu não sei porque eu insisto”. Disse Dani contrariada e olhando para o teto.
– Vamos lá, Eric. Sinceramente falando? Eu não vou te dar aula nenhuma. Você não é nenhum coitado. Se você não sabe fazer uma mulher gozar. Se você não consegue nem perguntar, ou seja, falar sobre o tema. Isso é um assunto teu, ok? Vai pra terapia. Assiste um pornozão. Procura uma profissional do sexo. Enfim… Eu não sou mais a sua primeira namoradinha, Eric. Isso aqui não é uma relação onde a gente vai descobrir coisas juntos.
Eric deixou a casa de Dani em silêncio. Assim que fechou a porta, Dani começou a ajeitar a bagunça da sala ao mesmo tempo que destravava a tela do celular. Ela digitou a seguinte mensagem pra sua amiga:
“Oi, mocréia.
Tá bem?
Olha, sinceramente, a gente que lute com esse caralho de período fértil, né?
Na próxima, eu prefiro um encontro somente eu, meu vibrador e um baseado. Eric acabou de sair daqui.
Amanhã te conto TUDO.
Beijo, diaba.”
Dois dias depois do fatídico encontro na casa de Dani, Eric não parava de pensar no sermão pós-sexo que havia tomado. Ele criou coragem e mandou uma mensagem para a ex-namorada.
– Fala Dani, tudo bem?
– Oi, td e vc?
– Tudo bem também. Olha, deixa eu te falar, eu vi esse vídeo aqui numa rede social e achei muito legal. A gente podia ir nesse lugar um dia desses. O que você acha?
Dani abriu o vídeo. Era um conteúdo promocional de um rodízio de pastel a R$9,90 por pessoa. Ela respirou fundo. Pensou sobre o que deveria fazer com aquela informação. Chegou à conclusão que havia somente duas formas de lidar com aquilo: sendo madura ou sendo otária.
Dani repassou o vídeo para o maior número de grupos de amigas online que tinha e contou em detalhes a história que culminou no rodízio de pastel.

Jessica Marinzheck é natural do Cangaíba, zona leste de São Paulo, sonhava em ser escritora desde os seis anos, quando costurava livros com papel, lã, lantejoula e cola. Estudou Artes Visuais, voou o mundo, comunicou marcas e traduziu histórias engarrafadas com paixão. Mas foi no intervalo entre taças e partidas que reencontrou sua voz. Hoje, decide enfim seguir o chamado antigo, aquele que sussurra desde a infância: transformar a palavra em abrigo e fazer da escrita o destino que sempre a esperou.

![JESSICA MARINZHECK – Rodízio de pastel [crônica]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2026/01/Jessica-Marinzeck-Cronica-SP.jpeg)