Sempre ouvi dizer que a música faz bem ao corpo e à mente. Se for verdade, então eu devo estar em plena forma— pelo menos mentalmente. Cresci rodeado por canções, sem preconceitos de gênero, desde que tenham boas melodias, letras que não difamem ninguém e que não incentivem a humanidade a cometer atos questionáveis. Sou um apreciador nato da arte sonora.
Dizem que a paixão acontece no encontro dos olhares, mas comigo não foi assim. Meu pai me ensinou a gostar do sertanejo porque era o ritmo mais tocado no velho rádio de pilha nas madrugadas na casa de farinha. Como diria Karl Marx, “o homem é produto do meio”— e eu fui moldado pelo som das violas e das vozes dos grandes sertanejos.
Agora, já crescido e vacinado, continuo fiel ao estilo, mesmo quando ele se disfarça de “universitário”, sem nunca ter passado perto de uma faculdade. O problema é que, ultimamente, o sertanejo parece ter descoberto um novo ingrediente para suas músicas: o álcool. Sim, segundo as canções, a felicidade mora dentro de uma garrafa— e não adianta argumentar, porque Jorge e Mateus já avisaram em Sosseguei: “Tô virado já tem uns três dias, tô bebendo o que eu jamais bebi.”
Antigamente, eu apenas curtia as melodias, sem perceber que, subliminarmente, elas estavam me convidando para um open bar existencial. Mas eis que um dia a ficha caiu: será que alguém já parou para perceber o número de músicas sertanejas que fazem apologia à bebedeira? Segundo Tonico e Tinoco, “Pra curar o meu despeito, vou meter pinga no peito”— um conselho médico de eficácia duvidosa.
E João Carreiro e Capataz? Estes são sinceros em Conselho de Amigo: “Vem com nós pro buteco, vem tomá pinga, enxê o caneco.”
O problema maior é que a juventude compra essa ideia como se fosse uma verdade absoluta. Afinal, “sem beber eu fico triste, bebendo eu fico alegre”, dizem Guilherme e Santiago. E quem quer ser triste? Ninguém! Então bora beber, porque, segundo a música Beber, cair, levantar, esse é o ciclo natural da vida.
Não quero parecer moralista, nem estou sugerindo a criação de um órgão regulador de músicas etílicas— até porque, se formos proibir letras questionáveis, talvez sobre só uma ou duas músicas no Spotify. Mas fica o convite à reflexão: será que precisamos mesmo transformar a bebida na protagonista das nossas canções?
Viva o sertanejo! Viva a música! Mas, por favor, um brinde à consciência.

Manoel Rodrigues é Pedagogo, mestre em Letras, Coordenador Pedagógico e Professor. Acredita que a educação é um instrumento de consciência e mudança. Acredita que o ensino deve possibilitar às pessoas compreenderem as circunstâncias em que estão inseridas, incentivando reflexões críticas e emancipação intelectual. Sua trajetória é marcada pela pesquisa em temas fundamentais, como a decolonialidade e a pós-verdade, buscando desmistificar discursos e ampliar perspectivas sobre conhecimento e identidade. Comprometido com o avanço educacional.
