Há algumas situações que interrompiam minhas brincadeiras, infantilidades e choros, situações que me marcaram, mas que só fui refletir sobre depois de adulto.
“Saí da janela.”
“Não chega perto da janela.”
Aquele clarão iluminando a noite e dividindo o céu em dois não era uma estrela cadente, não era um foguete. Eram tiros. “Pow, pow, pow.” Uma rajada de balas. Os tiros de metralhadora enchiam mais os meus olhos.
5 anos. Eu não tinha medo. Assistia como se estivesse vendo TV. Só tinha um televisor em casa. Como eu não queria assistir o Linha Direta — aquela voz do narrador me assustava — eu acabava assistindo o céu.
Era final dos anos 90, e a minha rua, sem asfalto e com mais buraco do que calçada, era cenário de coisas que eu nem entendia. Conjunto habitacional da CDHU, próximo aos barracos de madeira e casas de alvenaria de formato estranho e tijolo à mostra, por vezes crescendo como uma pirâmide invertida e desafiando as leis da física. As antenas espichadas nas lajes tentando alcançar algo mais alto.
Minha mãe mandava sair da janela com a voz firme. A TV ligada o dia todo reverberando fofocas, receitas e novelas.
Eu, pequeno, em pé no sofá marrom, olhava a noite com os olhos grandes e curiosos. O medo não morava em mim.
…
Na manhã seguinte, minha mãe acordou cedo para me levar para o prézinho. E todos os vizinhos estavam fazendo um círculo em frente ao portão. No meio da rua de barro jazia um corpo todo furado de balas, a poucos metros do córrego.
A molecada mais velha já cochichava num canto. Uns com mochila nas costas, outros ainda de chinelo, segurando pão enrolado no papel pardo da padaria, que trazia a inscrição “O pão nosso de cada dia”.
Não vi nada. Minha mãe me deixou no portão e se juntou, por alguns segundos, ao pessoal que estava reunido fofocando. “Era o filho do Mazinho.” Eu não conhecia Mazinho, não fazia ideia de quem era. Mas eu queria ver. Não vi. Ela voltou rapidamente, desta vez com a vizinha e o filho dela, o Maicon, meu colega de escolinha. Ela não me deixou ver. Fui para a escola.
Nunca havia visto um corpo de perto. Eu era uma criança medrosa, mas não tinha medo daquilo. Eu tinha medo de fantasmas, filmes de terror que passavam no Cinema em Casa, Aracnofobia (o filme). Eu tinha medo do Zé do Caixão.
…
Naquele dia mesmo, eu fui comprar pão pra minha mãe no mercado, na rua da frente, depois da escola. Um cachorro grande, peludo, apareceu do meio da rua e ficou me encarando. Sentei na calçada e fiquei meia hora esperando ele sair. Ele não saiu. Quem apareceu atrás de mim — e do meu pão — foi minha mãe. Ela estava brava, e eu com medo do cachorro e envergonhado.
…
Na tarde que se seguiu, estávamos voltando da escola: eu, minha mãe, o Maicon e a vizinha. A escola ficava a uns 15 minutos de casa, no alto de uma ladeira. Estávamos descendo, quando uma adolescente magrela, de roupa rosa esgarçada, passou a milhão em uma bicicleta enferrujada. No momento, não pensei muito nisso.
Mas, cinco minutos depois, já no final da descida, próximo ao córrego que passava por toda a rua de casa, havia muitas pessoas no meio da rua. Próximo a um caminhão.
Uma pequena multidão ia se formando. Na minha mente infantil, eram centenas de pessoas. Mas deviam ser umas 10 ou 20. Na esquina, antes da multidão, a fofoca já havia chegado: uma menina, doze anos, desceu a ladeira com a bicicleta sem freio, e o caminhão pegou ela. “Nossa, que judiação!” “Ela é fia de quem?” “A mãe dela já sabe?”
Lá ia de novo minha mãe e a vizinha, pro meio da multidão, para ver o corpo e saber mais da fofoca. Deixaram eu e o Maicon na calçada e atravessaram em direção à “multidão”.
— Tu tem medo? — me perguntou o Maicon, rindo.
— Eu não! Sou homem! — respondi.
— Vamos ver? Vamos ver se tu aguenta? Eu sou corajoso.
— Vamos.
Eu estava com medo. Não de ver o corpo, mas de desobedecer a minha mãe. De fazer algo errado. Mas a curiosidade era maior.
Olhei pro lado e estava o Maicon com o olho arregalado, falando que não tinha medo. E fomos atravessando a rua, um passo de cada vez. No meio do caminho, os nossos passos estavam cada vez mais lentos. Nenhum de nós queria ir, entretanto, nossa palavra e masculinidade estavam em jogo.
Em um momento, eu parei de olhar para o lado, para o Maicon. Fui apenas me aproximando. Não conseguia ver nada — os corpos das pessoas vivas faziam um escudo e não me permitiam ver o corpo. “Parece que abriu o pescoço dela”, as pessoas falavam, e meu coração acelerava. Eu me esforçava para ver por entre as frestas da pequena multidão. Foi então que as pessoas abriram um espaço, e eu vi.
Não o corpo, mas um caminho. Uma poça vermelha. Os chinelos se afastavam para abrir caminho. Uma poça de sangue estava atravessando a rua. Talvez fosse um filete, mas na minha visão era como se fosse um córrego vermelho. Quando eu olhei para ele, ele olhou pra mim de volta. Vi meu reflexo. Travei. Gelei a espinha. Toda a minha coragem se esvaiu. Meus olhos encheram de lágrimas. Olhei para o lado, não vi o Maicon. Olhei pra trás. O filha da puta estava correndo, e longe — tinha desistido muito antes de mim, e eu não percebi.

Josiere M’Himba, nascido em 1993, é historiador por formação e contador de histórias por paixão. Profundamente cativado pelos reinos da ficção científica. Inspirado fortemente por Kafka, Asimov, Leonid Andreiev, Ruben Fonseca, etc. Cinéfilo, ama a inventividade do início do cinema. Sua jornada literária é de descoberta e disciplina, pois ele se esforça diariamente para trazer à tona as ideias e histórias que há muito residem nos cantos de sua imaginação.
