BEANO DE BORBA – Cavidade de tratamento imersivo [crônica]
BEANO DE BORBA – Cavidade de tratamento imersivo [crônica]

BEANO DE BORBA – Cavidade de tratamento imersivo [crônica]

A luz do órgão é a expressão mais poética da medicina. Dos tratados de anatomia, meu professor destacou que o seu mimo era o de Testut, cuja versão compacta, ele chamava de textículo. Apalpando os cortes de cadáveres formolizados e cravejados de indicações da prova prática sobre a exata disposição de músculos, pensava no odor e no ensinamento de uma indiferença técnica e vitalícia sobre as fibras e luzes do organismo. Não via espanto na moçoila do meu lado, acometida da fobia odontológica aos maconheiros da universidade, para com as carnes humanas que, aparentemente, não imprimiam vestígio algum sobre a cerâmica branca. Apenas a sugestão de uma viscosidade em formol.

Para o aprendizado da topografia das linhas de incisão, o meu olhar impreciso restaurou as volutas de outras costuras: a das memórias, que também estão sujeitas ao hábito ou à patologia involuntária de espantos, emendando casulos que sofreram impactos disruptivos. Quando estava saindo do Departamento de Anatomia, observei um grupo de estudantes de medicina, entusiasmados com o grito de guerra da própria turma, conhecida como medmeliantes; algo diretamente relacionado ao furto laboratorial de éter e clorofórmio. Na copiadora, o famoso caderno de Raquel, amiga dos medmeliantes, era xerocado zilhões de vezes, com a transcrição das aulas gravadas de vários professores. Manusear o caderno engordurado, remetia às cavidades dos órgãos de luz devassada pelos dedos e jalecos dos frequentadores do Departamento de Anatomia.

Marsupial, minha memória encobriu esses dias abandonados por uma pele que não soube acolher o hábito médico, o jaleco assepticamente imundo que transitava em todos os compartimentos da área de saúde. Agora, pretendo resgatar o meu adulto que mantém o fervor infantil diante dos laboratórios escolares, com a dissecação de artrópodes e anfíbios. Desejava um límulo de estimação, seu sangue azul sob a alcunha de “caranguejo pata de cavalo”, como o bólide meliante Cara de Cavalo, do Hélio Oiticica, na sua versão fóssil, ou um aquário de axolotes. Sempre tive uma recepção canina para desejos abissais: quando a sua persuasão não é numérica, estatística. Nunca estive conforme àquilo que esperam que se acostume pela teimosia e pela exposição. O maldito jaleco imundo. A cavidade desalmada. A pressão do mercado de trabalho. Como uma negação psíquica da lei do materialismo dialético que transforma quantidade em qualidade. Deixo-a para a natureza, sou a antimatéria da sociedade desfrutando meus pensamentos.

Crônica redigida ao som de Psyched Up Janis – “Fragments”


Beano De Borba é Doutor em Antropologia, Bacharel em Museologia, Curador. Promove atividades de pesquisa relacionadas aos campos da antropologia, da museologia social, da arte contemporânea e do audiovisual (cineclubismo, filme etnográfico e cinema independente). Na trajetória de pesquisa, atuou nas seguintes linhas:  durante o Mestrado: antropologia ritual, da saúde e das religiões (ênfase nas religiosidades de matriz africana); no Doutorado: antropologia visual, do patrimônio e antropologia urbana (ênfase no ativismo cultural e no direito à cidade). Principais referências literárias: Carlos Nejar, Arthur Rimbaud, Roberto Piva, Hilda Hilst, Adélia Prado, Jean Genet, Lúcio Cardoso, Maura Lopes Cançado, João Ubaldo Ribeiro.

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