ULISSES VASCONCELLOS – Só mais uns Silvas [crônica]
ULISSES VASCONCELLOS – Só mais uns Silvas [crônica]

ULISSES VASCONCELLOS – Só mais uns Silvas [crônica]

Entre um e-mail corporativo e outro, dois amigos da firma e eu descobrimos que temos algo em comum: pertencemos à maior família do país, quiçá do mundo. Na verdade, não é exatamente isso, sequer compartilhamos laços sanguíneos. Assinamos o mesmo sobrenome: o brasileiríssimo Silva. Levantei a relação da equipe – só na mesma sala do escritório ainda trabalham mais dois parentes. Não é difícil, somos 5 milhões no Brasil.

A história conta que o sobrenome foi cedido aos portugueses que não tinham um quando chegaram por aqui na época da colonização, especialmente os que rumavam para o interior, a selva – ou silva em latim, em oposição aos Costa, que ficaram no litoral. O nome também registrou indígenas e pessoas escravizadas.

Em questão de tempo, tomamos conta do país, da base para todos os extratos sociais. Exatamente como fez Chica da Silva, de cativa a senhora da sociedade mineira. Ou Virgulino Ferreira da Silva, ou Lampião, o bandido que virou ícone pop no Nordeste.

Um membro da família hoje se senta na cadeira mais importante da República. Talvez Luiz Inácio Lula da Silva seja quem tenha levado o sobrenome mais longe. No seu time de ministros, o meio ambiente é cuidado pela nossa conhecida Marina Silva. Estamos em todos os lugares.

No esporte é sinônimo de sucesso. O inesquecível Ayrton Senna da Silva é símbolo máximo de vitórias. A maior lenda da história do MMA é o Anderson Silva. Já imaginou uma seleção de futebol mais brasileira do que uma escalação com Thiago Silva na defesa, Mauro Silva e Gilberto Silva no meio-campo e Neymar (da Silva Santos) Júnior com a camisa 10?

Uma das principais caras da televisão nacional sempre vai ser a do Fausto Silva, o Faustão. Se o assunto é música, vamos falar do samba de Bezerra da Silva. Já Lúcio Silva de Souza abraçou o sobrenome popular como nome artístico para a MPB: Silva. Deu certo.

Tem também a turma que ninguém sabe, mas, como eu, carrega um Silva camufladinho. É provável você não conheça o cantor Alexandre Silva de Assis, mas espero, para o seu próprio bem, que já tenha tomado uma gelada ouvido o Xande de Pilares. O nome Antônio Bento da Silva Filho pode não chamar sua atenção, mas Toni Garrido eu creio que sim. A Maísa, atriz, também é Silva.

Nos anos 90, bombou no país o “Rap do Silva”, que contava a história de “só mais um Silva que a estrela não brilha”. A música narra a triste saga de um homem comum, funkeiro, pai de família, que saiu para se divertir no baile e não retornou. A canção fez sucesso na voz de Mc Bob Rum – ou Moysés Osmar da Silva.

Na minha pesquisa genealógica, encontrei até uma ex-Silva, veja só. Arlette Pinheiro Monteiro Torres nasceu Arlette Pinheiro Esteves da Silva. Quem? Talvez você a conheça por ninguém mais ninguém menos do que Fernanda Montenegro.

Eu posso não usar tanto, admito, mas não vou abrir mão do meu Silva, de jeito nenhum. É uma herança do meu avô materno, Antônio Dias da Silva, que eu nem conheci. Na minha linhagem, pulou uma geração.

Não passou para a minha avó, como é costume, nem para nenhum dos filhos deles (que, diga-se de passagem, cada um ganhou um sobrenome diferente, vai entender) e já iria se perder no tempo. Minha mãe – que foi batizada só com nomes de santas, sem sobrenome – tratou de garantir uma sobrevida e resgatou o Silva para a própria prole.

É um sobrenome simpático, ninguém há de negar. Remete a feijoada, futebol na rua, cerveja em mesa de plástico, filtro de barro, sambinha, vira-lata caramelo. Faz parte da identidade nacional.

De Norte a Sul, o país é formado por uns Silvas, com estrelas que às vezes brilham muito, outras nem tanto. Pais, mães, filhos e filhas da maior família do Brasil.


Ulisses Vasconcellos

Ulisses Vasconcellos é mineiro, jornalista e mochileiro. Já rodou meio mundo e, quando não está vivendo histórias por aí, está contando alguma. Ou imaginando, pelo menos. É um fã da arte de contar histórias: as dele, as dos amigos e as que nem aconteceram, mas poderiam existir. Acredita no poder que as palavras têm de fazer rir, emocionar e refletir; de arrancar sorrisos, gargalhadas e lágrimas; e de dar vida, outra vez, às melhores memórias. É autor do livro de crônicas “Isso que eu falei” e publica textos no Instagram @isso.que.eu.falei .

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