LUCAS DE OLIVEIRA ALVES – Olhos de Simon [conto]
LUCAS DE OLIVEIRA ALVES – Olhos de Simon [conto]

LUCAS DE OLIVEIRA ALVES – Olhos de Simon [conto]

Lembro-me da primeira vez que vi Simon. Era o meu segundo dia no Québec. 23 de janeiro de 2024. Nevava muito! A temperatura oscilava entre 20 e 30 graus negativos. Como parte das histórias de relacionamento gays, a nossa começou no Grindr. Rolando a tela do açougue digital, estacionei na imagem de Simon. Observei suas três fotos de perfil. Uma do seu rosto, outra de seu abdômen ursídeo e uma de Freud fazendo um chiste.

Começamos a conversa. Ele se mostrou particularmente interessado no meu percurso acadêmico e na minha relação com a psicanálise. Depois de um bate-papo breve, me convidou para ir a sua casa. Respondi que estava muito frio e que ainda não conhecia bem a cidade para me deslocar. O papo ficou por ali. No dia seguinte, retomamos a conversa. Simon falou que podia me buscar de carro no alojamento da Université Laval, local onde eu residia. Prontamente, aceitei o convite.

Em torno de quinze minutos, Simon já havia estacionado em frente ao pavilhão, tempo que eu levei para colocar a segunda pele, calça, blusas, cachecol, gorro, bota de neve e a jaqueta térmica. Entrei no carro e o cumprimentei em francês. Começamos o diálogo em sua língua materna. Como eu não conseguia entender metade do que ele falava, perguntei-lhe se podíamos trocar para o inglês. Assim, mudamos para a língua de Shakespeare, estrangeira para ambos.

Fomos conversando no percurso até sua casa. Simon estava se formando em psicologia e começava algumas disciplinas no mestrado. Eu nunca entendi direito qual era sua área de mestrado, mas ele dizia ser uma ciência nova. Eu fazia doutorado em psicologia e estava no Québec para realizar um estágio. Simon não morava longe, mas devido à neve, precisava conduzir com cautela. No trajeto até sua casa, aproveitei para ir me familiarizando com sua voz e com suas dimensões corporais fora do aplicativo.

Chegamos à morada de Simon. Ele vivia no subsolo de uma casa tipicamente americana: dois andares, revestimento de madeira, telhados triangulares, janelas simetricamente distribuídas, porta centralizada. Achei seu apartamento aconchegante, mas um tanto caótico, com livros e roupas espalhados, louças sujas acumuladas na pia e na mesa. O recinto contava com cozinha, banheiro e um quarto espaçoso. A neve cobria quase toda a vista da janela do quarto. Sentamo-nos no sofá, posicionados em frente à cama. Simon pegou um livro e me disse: “Tenho de acabar de ler o capítulo do meu livro, vai demorar uns 15-20 minutos.” Achei aquilo estranho, mas era tudo muito novo para mim, então pensei: “talvez seja uma coisa normal num primeiro encontro quebequense.”

Fiquei ao seu lado enquanto ele lia, mas, pouco a pouco, comecei a me aproximar. Seu estilo nerd, rosto quadrado, olhos azuis e óculos grandes, atraíam-me em demasia. Seus olhos, quando apontavam para mim, chegavam como um convite para um mergulho. Comecei então a beijar seu rosto. Na sequência, seus delgados e rosados lábios foram tocados pelos meus, sensivelmente mais carnudos e escuros. Lentamente, Simon abria a boca, dando-me a oportunidade de penetrar minha língua. O calor e a umidade de nossas cavidades contrastavam com o frio seco do lado de fora.

Repentinamente, Simon inclinou sua cabeça para trás, fechou a boca e voltou a ler. Ficamos assim durante algum tempo, beijando-nos e interrompendo nossos beijos para que ele retornasse à sua obsessiva leitura. A cada descuido de Simon, quando seu olhar desviava das palavras daquele maldito livro de psicologia, eu não hesitava em avançar sobre sua boca.

Quando Simon concluiu o estranho ritual, fomos para sua cama. Beijamo-nos, tocamo-nos e chupamo-nos. Sua glande era rosada como seus lábios. Entre carícias íntimas, eu colocava seus alvos pés no meu rosto e os lambia. A certa altura, Simon se sentou sobre a minha face e pediu para eu lhe lamber. A princípio, achei a região demasiado ursídea, sentindo-me pouco à vontade para executar o cunilíngua. Lembro-me de lhe dizer, num mau francês, com suas nádegas abertas e apoiadas sobre a maçã do meu rosto: c’est trop poilu. Não sei ao certo como a mensagem chegou aos seus ouvidos, mas ele permaneceu de cócoras. Meu nariz adunco rente à linha que levava ao ponto zero, meus olhos mirando a curva final de suas nádegas e a latitude de suas costas. Pensei: “Já que estou aqui, tão próximo, Pourquoi non?”

Nos dias que se seguiram, em que a neve e o frio pareciam distantes de dar trégua, Simon me apresentou um pouco do Québec. Pelo seu olhar, aquele bloco de gelo passou a ganhar formas, cores, sabores, sons. Com ele, conheci o grupo musical Les Cowboys Fringants e a paródia de telenovelas Le Coeur a ses raisons, duas obras da culture québecoise que se integraram no meu cotidiano. Da cultura brasileira, apresentei a ele Chico Buarque. E pra que ele pudesse sentir suas letras um pouco mais de perto, mostrei-lhe a versão francesa de “A Banda”, interpretada por Dalida.

Fizemos pequenos passeios pela cidade mais francesa da América do Norte, ocasiões em que Simon não perdia a oportunidade de rir da minha reação ao frio, do corpo latino e moreno que jamais experimentara aquela sensação térmica. Nossas três primeiras semanas de encontro coincidiram com a temporada carnavalesca da cidade. Eu, que vinha do país do carnaval, era apresentado à versão glacial do que eu experimentara apenas como tropical.

No primeiro final de semana carnavalesco, fomos ao castelo de gelo esculpido no centro da cidade. Pelos corredores do castelo, uma exposição sobre celebridades da província canadense, com destaque para Céline Dion. Em um grande salão, vários objetos esculpidos no gelo: uma vovó tricotando, um gatinho, um trono. Pegamos as escadas para descermos em um tobogã de gelo. O cenário e a experiência, mesmo com o frio mortal, vivificavam intensamente minha criança interior. Simon escorregou no tobogã, soltando um uhul jubiloso. A mim, não restou outra coisa, senão fazer o mesmo. Na queda, Simon perdeu as lentes dos seus óculos. Procuramos as lentes no chão de gelo fino com flocos de neve aqui e acolá. Foi inútil. Simon me disse: maintenant, je vais te voir avec mes propres yeux.

No final de semana seguinte, fomos ao La drague, boate lgbttqia+ da cidade. No palco, drag queens com looks de inverno estonteantes cantavam, dançavam e interagiam com o público, fazendo piadas que eu não conseguia compreender. Nesta noite, fui repreendido por não dar gorjeta ao barman, aprendendo uma valiosa lição da cultura canadense. Na mesma soirée, corroborei uma vez mais que Dancing Queen não é uma música, mas uma língua universal compartilhada por gays de todas as idades. Lá, também, pela primeira vez, senti ciúmes de Simon, dando-me conta que ele começava a ocupar um lugar especial na minha economia de afetos.

No último final de semana carnavalesco. fomos ao grande desfile, última e principal atração pública da estação. A temperatura estava em torno de -5 graus. Os locais diziam que estava quente para o período. Aguardando o desfile, a multidão reunia-se nos dois lados do Grande Allée, principal avenida da cidade. Enquanto o desfile não começava, eu e Simon entramos em um parque. Lá, corremos pela neve e nos deitamos sobre sua maciez gélida, como amantes dos filmes americanos comumente fazem.  Não me dei conta de que aquele romantismo poderia resultar em hipotermia. Assistimos ao desfile, repleto de cores, sons e acrobacias, uma espécie de Cirque de Soleil glacial. Eu achei lindo, mas rangi tanto meus dentes que minha obturação do siso caiu.

Na semana seguinte, pegamos o ônibus para visitar o Chute de Montmorency, parque florestal com a maior cachoeira do Québec. Na viagem de mais de quarenta minutos, Simon ia me apresentando euforicamente o que se enquadrava pela janela, revendo pelos meus olhos estrangeiros o que me/se apresentava. Chegando ao local, esquilos, petits suisses (os bichinhos do Tico e do Teco) e marmotas apressadas corriam ao nosso redor. Os dois primeiros nitidamente mais velozes e hábeis em escaladas que as roliças marmotas. Caminhando um pouco, uma ponte em frente ao topo da cachoeira permitia-nos atravessar e ver a queda d’água dos dois lados. A cachoeira estava parcialmente congelada, transmitindo o choque de três forças incontestes da natureza: a da gravidade, d’água e do ar glacial. Em poucas semanas, o poder da terceira força seria retirado pela primavera. A queda seria completa. Saindo do parque, paramos em uma padaria e comemos queue de castor, doce tradicional do Canadá cuja forma emula o rabo do roedor.

Aos poucos, as belezas e as intensidades do Québec confundiam-se com as de Simon. A beleza da neve e de sua pele. A beleza da arquitetura e do seu torso. O frio glacial e a verborragia por vezes incômoda do garoto de 23 anos.  Perguntei-me muitas vezes: estou me apaixonando por Simon ou por Québec? Cada nova palavra francesa que aprendia, dava-me a chance de nomear e perceber o que me rodeava de uma forma outra. Permitia-me desejar Simon e o Québec desde uma língua que crescia com força em mim. Neste processo, o entorno se alterava, eu me transformava.

Lembro-me de uma noite em que estava na cama do Simon e vimos um gato passar pela janela do seu quarto, caminhando sobre a neve acumulada. O gato parou, olhou-nos brevemente e continuou sua marcha noturna. O peludo felino emoldurado pelos cantos da janela. Um verdadeiro quadro: o gato que vemos, o gato que nos olha. Aquele gato me fez pensar no meu felino Bóris que havia ficado no Brasil. Em minhas despedidas, apenas por Bóris chorei, como apenas por Simon choraria nas séries de despedidas do Québec.

Após um mês de encontros com Simon, viajei para Ottawa. Peguei um trem na estação de Québec e atravessei a fronteira do Québec. Dos dois lados, a neve caía em abundância, pintando de branco as paisagens que eu contemplava pela janela do moderno trem. Em Ottawa, uma novidade: esquilos pretos, mais amistosos que os arredios esquilos marrons de Québec. Tirei fotos dos simpáticos roedores e enviei para Simon. Na capital federal canadense, um grupo de bolsistas latinos e africanos, contemplados com a mesma bolsa de estudos que eu, reuniam-se para um tour de estudos especial, com direito a jantar com embaixadores, visita a agência especial, um tour etílico por pubs, e outro cultural por museus. Hospedamo-nos em um hotel parecido com aquele onde Macaulay Culkin encontrara Donald Trump em “Esqueceram de Mim”.

Certa noite, deitado no quarto deste hotel que me trazia reminiscências televisivas da Sessão da Tarde, talvez mobilizado pelas memórias dos romances agridoces que assisti na infância, comecei a pensar no verbo aimer, que em francês significa tanto gostar quanto amar. Como um “Je t’aime, Simon” chegaria à Simon? Eu o amo como um chocolate suíço, cujo valor é ridiculamente barato no Wallmart, ou o amo como um homem para construir uma vida junto? Na dúvida, resolvi chama-lo de petit coeur, expressão que literalmente significa ‘coraçãozinho”, mas com um sentido cultural de forte ligação emocional. Não sei se foi pelo petit coeur ou pelas contingências, mas Simon começou a se retirar de cena depois da mensagem.

Dormi mais uma noite na casa de Simon depois de meu retorno de Ottawa. Dela, retenho a memória de um sonho. Digo a um quebequense: Je pars. O sentido da mensagem era de que eu estava partindo de Québec e retornando ao Brasil. No sonho, o sentimento era de que estava tudo resolvido. A pessoa entendia a mensagem, e eu realmente desejava o retorno ao meu país. Contudo, o interlocutor não conseguia entender aquela simples sentença, por mais que eu a repetisse em um bom francês. Acordei, tomei café com Simon e fui caminhando para a universidade. No trajeto, buscando interpretar o sonho, dei-me conta que a incompreensão do interlocutor simbolizava um impasse do meu desejo. Eu queria partir ou queria ficar? Ambivalência, choque de intensidades, como aquela cachoeira, parte livre, parte imóvel.

O afastamento de Simon, difícil de elaborar no início, abriu-me, pouco a pouco, para outros encontros. Certa noite, fui a uma festa brasileira. Na frequência de Caetano, marijuana (legalizada pelo Primeiro-ministro canadense que veste meia do Chewbacca) e cerveja frutada, dancei e encontrei prazeres orais sortidos. Nessa noite, conheci o casal de brasileiros Luís e Renato. O frisson erótico rapidamente se instalou entre nós. Os primeiros beijos não tardaram a chegar. Entre o português e o francês, mais álcool, mais erva, mais fome, mais desejo. E nos deslocamos, os três, daquele pub na Rue Saint-Joseph, para a charmosa casa de arquitetura francesa do casal.

No recinto, mais substâncias, sensações, odores. Foi uma noite dionisiacamente confusa. Confusão de línguas e órgãos, garrafas de vinhos derramadas, o gás do poppers nos entorpecendo. Impossível rememorar a frequência ou o personagem exato em cada ato, mas fui preenchido, inundado em pelo menos dois orifícios. Na saída da casa, um dia de neve espetacular. Os flocos tocavam o meu corpo desde fora, enquanto o líquido quente do casal saía de dentro.

Luís, o libriano peludo, me seduzia com sua volúpia. Renato, o taurino gentil, com seus cafés da manhã dignos do Leblon de Manoel Carlos. Encontrei o casal mais algumas vezes. Na nossa segunda noite, fizemos a seleção de nossas músicas francesas favoritas antes de nos banquetearmos na alcova. Três brasileiros sendo eroticamente encobertos pela língua de Molière. Eles não sabiam, mas eu já tinha uma música para nós três: “Le temps est bon” de Isabelle Pierre. Música que eu já conhecia no Brasil, mas que no Québec descobri, a partir de Simon, tratar-se de uma polêmica canção quebequense sobre um trisal. Le temps est bom, le ciel est bleu, j’ai deux amis que sont aussi mes amoureux, cantarolava eu o refrão.

A presença de Simon ia se tornando rara como aqueles dias glaciais do início. A paisagem se alterava no Québec, e Simon me anunciava, via direct, que iria se mudar para sua cidade natal, Trois-Rivières, Três-Rios em português, cidade onde os três canais do Saint-Maurice desaguam no rio Saint-Laurent. E Simon partiu sem uma despedida vis-à-vis, num mês de abril cinza, com seus já raros dias de neve, nuvens escuras coladas no céu e lama inundando as calçadas. Simon voltava para aquela que, segundo ele, era a capital da poesia canadense. Eu não sabia se reveria Simon antes da minha partida, se seus olhos azuis me fitariam e me convidariam para um último mergulho.

O mês de abril chegara ao fim. As temperaturas aumentavam, raramente chegando perto de 0, lembrando-me constantemente da piada do “0 graus, nem quente nem frio”. Os dias eram mais ensolarados e longos, pequenas folhas começavam a nascer. No maio, brotaram as flores, os gramados com um verde radiante, verdoyant, emergiram. Nas horas de sol intenso, era difícil olhar para este verde, tamanha a intensidade do brilho. Meu francês crescia e se capilarizava, especulando os movimentos da natureza.

Aos poucos, a questão: “estou me apaixonando por Québec ou por Simon?” parecia estar sendo respondida, ou ao menos eu pensava isso naquele mês de maio. Na ausência de Simon, Québec era minha amante. Ela penetrava em mim de formas inimagináveis, pela força da sua natureza e de sua arquitetura, pela sua arte, sua gente e seus bichos. Pela sedução de sua(s) língua(s) e órgãos: canadenses, franceses, brasileiros, tunisianos.

Estávamos já no final de maio, e numa noite de temperaturas orbitando os 20 graus, reencontrei Simon no Québec. Era a primeira vez que eu o via de bermuda e camiseta. Primeira vez que podíamos conversar em francês de modo fluido. Primeira vez que nossos corpos, libertos da pressão glacial, executavam movimentos alargados e vibrantes na rua, como se dois pinguins tivessem se tornado bailarinas de Dégas. Simon me beijou com a ânsia de quem esperou um longo inverno passar. A volúpia transbordava do garoto. Sua excitação era vibrante. Bref. Nossos órgãos se tocaram enrijecidos, encobertos e contidos pelos tecidos de nossas roupas.

Fomos para o apartamento de Simon. Acima de nós, em nossa primeira noite quente, uma lua cheia imponente. O apartamento estava bem mais organizado do que no primeiro encontro. As janelas, agora, com a vista totalmente desimpedidas. Era o mesmo lugar, mas outro, o mesmo Simon, mas outro. Na cama, o garoto me proporcionou um oral inebriante. Penetrei no seu ânus pela primeira vez, sentindo seus pelos rente ao meu órgão ríjo. Um pequeno acidente no ato. Merde. Simon parte para se banhar.

Ele está sentado na banheira, preenchida com água quente até a metade. Imóvel, mudo, com o olhar fixo no nada. Assim, ele lembrava demasiadamente meu gato Bóris, usando a caixa de areia com toda sua compenetração felina. Simon retorna à Trois-Rivières com a promessa de me fazer mais uma visita antes de minha partida. Enfim, chegava junho, mês dos derradeiros encontros.

Encontro Luís e Renato para um pic-nic. No francês do Québec, há um verbo para isso: piqueniquer. Mimi, a amiga francesa do casal, acompanhava-nos. Sua presença determinou que o áudio da cena fosse em francês. Eu e o casal começamos a jogar frisbee. Enquanto observava o disco voador, dava-me conta de que o erotismo entre nós se dissipava. De todo modo, em poucos dias, seria eu que estaria voando para longe deles. Nos despedimos com um abraço e um selinho. Lembro de caminhar e vê-los pela última vez antes de passar por uma moita que encobria meu campo de visão. O tempo estava bom, o céu estava azul e, de alguma forma, eu amava aqueles deux amis.

9 de junho, um dia antes do meu aniversário de 34 anos. Simon e eu nos encontramos pela última vez. Última vez que eu veria o ratton laveur antes do meu retorno ao Brasil. Era por volta das 18h30 quando ele estacionou em frente à residência. Nesse período, a noite caía apenas próxima das 22h. Fomos escutando Françoyse Hardy até o centro da cidade. Enquanto tocava “Tous les garçons e les filles”, eu cantarolava. Simon percebeu que eu cometia um erro de pronúncia, mas que este erro havia transformado o casal hétero da canção em um casal gay. Particularmente, prefiro supor que tenha sido um ato falho, arquitetado por meu inconsciente afrancesado.

Chegamos ao centro, o velho Québec. Marchamos pelas charmosas ruas de inspiração francesa. A cidade era definitivamente outra: quente, brilhante, florida, movimentada, com seus restaurantes dispondo mesas nas calçadas, sorveterias e pubs de portas abertas, convidando-nos a uma visita degustativa. Músicos na rua tocando e cantando clássicos norte-americanos e europeus dos mais diversos estilos. Eu e Simon sentamos ao lado do Chatêau de Frontenac, hotel e cartão-postal da cidade.

Simon estava saindo com outro rapaz, um garoto de Trois-Rivières. Por isso, resistia às minhas tentativas de beijá-lo, como havia resistido em nosso primeiro encontro. Dali, do pátio do castelo, podíamos contemplar a cidade baixa, seus telhados coloridos (antes totalmente cobertos pelo branco da neve), o rio Saint-Laurent e, do outro lado, a cidade de Lévis. Enquanto caminhávamos, ouvíamos turistas falando nos mais diversos idiomas. Naquele mesmo local, em janeiro, podíamos apenas escutar o vento uivante que insistentemente anestesiava nossos narizes desprotegidos.

Passeio concluído, voltamos ao carro. Enquanto escrevo, meu coração acelera, pois sei que estes serão, uma vez mais, os trinta minutos finais com Simon. Estamos no crepúsculo daquele 09 de junho. Começamos a ouvir o último álbum de Les Cowboys Fringants, grupo que ele me apresentou e que eu aprendi a amar, no ritmo em que aprendia a amar Québec. O nome da música: La fin du show. Canção sobre o fim do show, o fim de uma turnê, despedidas, o fim da vida. Por volta dos três minutos e meio de música, Simon estaciona em frente à residência, local onde nos conhecemos. Eu olho para ele, e digo: c’est le moment de dire adieu.

No momento em que me escuto falar essas palavras, olhando para Simon, veem-me as lágrimas, uma torrente. Coloco meu rosto sobre o ombro de Simon, chorando e soluçando. A mesma música, o fim do show, continua. Levanto e vejo os olhos de Simon marejados. Ele me fala, repetidas vezes: Je t’aime, je ne vais jamais t’oublier.. Era como se os olhos do Simon estivessem dizendo as palavras que ele pronunciava: Je t’aime, je ne vais jamais t’oublier. Era como se Québec estivesse me dizendo o mesmo: Je t’aime, je ne vais jamais t’oublier. Lhe digo o mesmo. Lhes digo o mesmo. Como poderia esquecer Simon? Como poderia esquecer Québec?

Amei Québec pelos meus olhos e pelos de Simon. E nas sucessivas metonímias escópicas, amei Simon.


Lucas de Oliveira Alves

Lucas de Oliveira Alves, psicanalista, professor. Apaixonado por gatos, viagens e cinema.

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